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Sócrates não reconhece "nenhuma autoridade moral ao Presidente"

O ex-primeiro-ministro garante que só voltou para "tomar a palavra" e apresentar a sua versão da história. Com Cavaco Silva na mira direta.

Cristina Figueiredo

Cristina Figueiredo

Editora de Política da SIC

Na sua primeira entrevista, 21 meses após ter perdido as eleições para Pedro Passos Coelho e deixado a liderança do PS, José Sócrates não poupou Cavaco Silva, a quem disse não reconhecer "nenhuma autoridade moral" para lhe "dar lições de lealdade institucional".

O ex-primeiro-ministro lembrou que partiu da Casa Civil do Presidente da República "uma conspiração organizada e inventada baseada na acusação de que o Governo estaria a espiar o Presidente. E recordou o discurso da segunda tomada de posse de Cavaco, "salientando todas as dificuldades do país sem fazer qualquer referência à crise internacional".

"O problema do Presidente é que sempre usou dois pesos e duas medidas ao tratar com o Governo anterior e com o atual", resumiu. Cavaco, afirmou, "esteve na origem da atual solução política, é o seu patrono". No fim da entrevista um remoque mais ainda: o Presidente "não foi nada imparcial".

Os três embustes, segundo Sócrtaes

Mas a maior parte da entrevista Sócrates usou-a para contestar a que qualificou como "a narrativa da direita" sobre a sua governação. O ex-primeiro-ministro denunciou o que considera serem três "embustes" nesta narrativa:

1. A ideia de que em março de 2011 os problemas no país eram apenas responsabilidade do Governo e não de uma crise internacional;

2. A ideia de que foi a sua governação que levou ao pedido de ajuda externa;

3. A ideia de que o atual Governo se limitou a aplicar o memorando que tinha sido negociado pelo Governo anterior.

Uma narrativa "que não tem tido oposição", disse, justificando assim o fim dos seus quase dois anos de silêncio. "Faço isto em primeiro lugar por mim próprio, para me defender", afirmou, garantindo "compreender muito bem" que a atual liderança do PS tenha preferido "olhar para o futuro", procurado "concentrar-se nas respostas a dar aos portugueses". Foi, qualificou, "uma atitude muito nobre". Que, contudo, reconheceu, "deixou que a narrativa feita pelos meus adversários políticos estivesse sozinha em campo".

"Governo tem de parar com a austeridade"

Sócrates rebateu essa "narrativa", insistindo que a crise política de 2011, provocada pela oposição e com o incentivo de Cavaco Silva, não serviu para nada. E que, porventura, se o PEC IV tivesse sido aprovado em março de 2011, tudo poderia ter sido diferente e Portugal poderia ter evitado a ajuda externa. Afirmou ainda que o atual Governo "aplicou o dobro da austeridade" que estava no memorando inicial, recordando que já foram feitas sete alterações à versão original do entendimento com a troika.

Sobre a saída para a crise defendeu que o Governo tem de parar com a austeridade. E defendeu a mudança de discurso político: "Um político que desiste de puxar pelas energias do seu futuro não está à altura das suas responsabilidades". "Não há país que possa ser governado sem esperança", concluiu.

Quanto a ele próprio, garantiu não ter nenhum plano para passar à vida política ativa, recusando ambições de ser candidato a Presidente da República ou novamente candidato a primeiro-ministro. E quanto às consequências do seu espaço semanal de comentário político, a partir de abril, assegurou: "Ninguém tem de ter medo".