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Quem é Carlos Moedas?

Na escola onde fez a primária. “E ainda houve um jornal que me chamou paraquedista!”

Alberto Frias

Leia um retrato do novo comissário europeu de Portugal em Bruxelas, feito durante a campanha eleitoral das legislativas e publicado no Expresso a 14 de maio de 2011.

Carlos Moedas subiu ao palco ao lado de Eduardo Catroga, a negociar, pelo PSD, o Orçamento do Estado e o pacote da troika. Filho de um histórico comunista, Moedas sempre foi "direitinha". Passos escolheu-o para tentar ganhar Beja. João Carlos Bengala foi professor de Matemática de Carlos Moedas em 84/85 ("era dos melhores alunos do 9º I no liceu de Beja") e não o via há 20 anos. Há dias, estava a ver as notícias na televisão, "os homens do FMI e aquelas reuniões todas". De repente: "Olha! É o Moedas". O Facebook fez o resto: um pedido de amizade e já está. Bengala compareceu, sábado da semana passada, na Ovibeja, num almoço que o cabeça de lista do PSD pelo distrito organizou com velhos amigos. O PSD chegou a eleger um deputado por Beja mas perdeu-o. Recuperá-lo é o desafio que Moedas aceitou, duas décadas depois de ter deixado o Alentejo.
João Carlos Bengala foi professor de matemática de Moedas:“Era um aluno de 95%. Vi-o na televisão por causa do FMI”

João Carlos Bengala foi professor de matemática de Moedas:“Era um aluno de 95%. Vi-o na televisão por causa do FMI”

Alberto Frias

Filho do velho Zé Moedas, um comunista respeitadíssimo na terra, cofundador do "Diário do Alentejo" e uma espécie de lenda viva na cidade, Carlos Moedas nunca nadou nas mesmas águas políticas do pai e o almoço de amigos, divertidíssimo, tinha um indisfarçável cheirinho a betos. "Eu sou mais próximo do CDS, mas estou aqui pelo Carlos", confessa Manuel Covas Lima, um dos presentes. Há muitos independentes, assumidamente mais habituados a votar no partido de Paulo Portas mas que também compareceram "pelo Carlos". Minutos antes, aliás, a proximidade destas águas já tinha dado nas vistas quando a comitiva de Paulo Portas na feira se cruzou com o candidato do PSD e desataram aos abraços. "Alguns só não vêm almoçar contigo por causa do Paulo", desabafa Mário Simões, presidente do PSD/local. A memória do pai Moedas (e a exuberante popularidade do filho, que se apresenta aos que nem sonham quem ele é sem hesitações e se lança nos braços dos que o reconhecem) faz o resto. Numa mesa coberta de 'minis', um coro de velhos que entoa cantares alentejanos acolhe o candidato sem preconceitos. "Independentemente da cor política, ele merece o nosso respeito".
A iniciativa "Beja Merece" quer o Intercidades de volta. Moedas prometeuajudar em Lisboa. Florival Baiôa ficou de “pensar se vota nele”

A iniciativa "Beja Merece" quer o Intercidades de volta. Moedas prometeuajudar em Lisboa. Florival Baiôa ficou de “pensar se vota nele”

Alberto Frias

Manuel Narra, presidente da câmara da Vidigueira e militante da CDU, adere à onda: "O Carlos é um homem com muito nível, filho de um grande jornalista desta terra. E temos um objetivo comum: é que aquele artista desapareça". O artista chama-se José Sócrates. Carlos Moedas abraça o comunista, canta com o coro, comove-se e faz-se à foto. Tem pena, mas não pode aceitar o convite do autarca da CDU para ir no dia seguinte à Vidigueira ("vai lá o Cavaco"), porque tem de estar na apresentação do programa eleitoral do PSD em Lisboa. O comunista, que já leva muitos anos disto, deixa-lhe um conselho: "Mas olha que quem quer ganhar um deputado aqui, santa paciência, tem que dar ao cabedal". Moedas promete mergulhar em Beja até às eleições. Tem lá a mãe, uma irmã e casa própria. E um caderno de encargos que também passa por um reencontro. Apresente-se o candidato: para a esmagadora maioria dos portugueses, é um desconhecido; para muitos, é o rapaz que apareceu na televisão ao lado de Eduardo Catroga, a negociar o Orçamento do Estado e o pacote do FMI; e para Beja, é o filho do Zé Moedas que, como é influente, pode ajudar o distrito a recuperar muitas das valências que nos últimos anos perdeu para Évora. No fundo, contam com "o Carlos" para fazer lóbi em Lisboa. "A voz dele tem peso político", esperam. E quem puxa por pôr Beja no mapa, mesmo sem ser do PSD, dá-lhe o benefício da dúvida. "Hoje, vou sentar-me no sofá a pensar se voto em ti", diz-lhe Florival Baiôa, um bem humorado promotor do Beja Merece, um movimento que luta pelo regresso do comboio Intercidades à cidade. Carlos Moedas já aprendeu a 1ª máxima do manual do candidato-Prometer: "Votes ou não votes em mim, eu vou ajudar".
O “filho do Zé Moedas” é popular em Beja. Atrás, ManuelNarra, da CDU, diz que “ele merece o nosso respeito”

O “filho do Zé Moedas” é popular em Beja. Atrás, ManuelNarra, da CDU, diz que “ele merece o nosso respeito”

Alberto Frias

Carlos saiu de Beja para Lisboa nos anos 80 para estudar engenharia civil no Técnico; daí saltou para Harvard, nos EUA; depois para Londres, onde trabalhou na Goldmansachs e conheceu o social-democrata António Borges, que o convidou para trabalhar com o gabinete de estudos do PSD. Na altura, a líder do partido era Manuela Ferreira Leite. E no dia em que Manuela perdeu as eleições, Moedas preencheu a ficha de militante. Pedro Passos Coelho ouviu falar muito bem dele a trabalhar e avisou-o: "Se ganhar a liderança, telefono-lhe no dia seguinte". Ganhou, telefonou e puxou-o para a primeira linha. Agora, se o PSD perder as eleições, Beja não lhe perdoa se ele nao ficar deputado. Se o PSD ganhar, "o Carlos" ainda chega ao Governo. Pelo menos.