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Força Aérea sem pilotos

Chefe de Estado Maior. General José Pinheiro diz que “a TAP é a grande sugadora de pilotos”

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Morte na ilha de São Jorge revela a falta de pilotos para operar os três helicópteros que a Força Aérea tem nas regiões autónomas. Há muito que o chefe de Estado-Maior alerta para a situação.

Anabela Natário e Carlos Abreu

A morte de um homem gravemente ferido por um touro na ilha de São Jorge, nos Açores, pôs a nu a fuga de pilotos da Força Aérea para o privado. O helicóptero que o levaria para São Miguel estava, no sábado, numa operação de salvamento que poderia ter sido efetuada pelo heli estacionado na Madeira, só que este não tem comandante.

O chefe de Estado-Maior da Força Aérea (CEMFA) confirmou ao Expresso que existe apenas um piloto comandante para os três helicópteros EH-101 a operar nas regiões autónomas: dois na Base Aérea n.º 4, nas Lajes, Açores, e um no Aeródromo de Manobra n.º 3, em Porto Santo, Madeira. Porquê? "Não existe um número suficiente de pilotos".

O general José Pinheiro garante que já alertou por diversas vezes para a falta de pilotos. Em dezembro do ano passado, por exemplo, disse à Lusa que se estava "em risco de atingir o limite". Este mês, perante os deputados da Comissão de Defesa do Parlamento, o CEMFA expôs o problema e desabafou: "Espero que não aconteça nada!"

Mas quatro dias depois aconteceu. Sábado, dia 21, um homem ferido numa tourada à corda na ilha de São Jorge acabaria por morrer sem que fosse transportado para o hospital de São Miguel. A vítima dera entrada às 18h15 na Unidade de Saúde local, onde tentaram tratá-la, mas a situação agravou-se e, pelas 20h31, acabou por ser pedido à Força Aérea a evacuação para Ponta Delgada.

"Dado que a previsão para aterragem em São Jorge ocorreria depois do pôr-do-sol, a evacuação teria de ser realizada por helicóptero EH-101 Merlin destacado na Base das Lajes, uma vez que a aeronave de asa fixa C-295 não opera naquele aeródromo em período noturno. Todavia, o helicóptero encontrava-se a cumprir uma evacuação sanitária de um tripulante de um navio localizado a cerca de 980 quilómetros da Ilha Terceira, estando por isso indisponível", explicou a Força Aérea no comunicado com data de 23 de junho.

Na véspera, também em comunicado relativo à evacuação do tripulante do pesqueiro "Rei dos Açores", que apresentava febre alta, vómitos e perda de consciência, a Marinha refere que o Merlin tinha descolado das Lajes às 12h51 com uma equipa média a bordo e "voou ao encontro da embarcação de pesca".

O "Rei dos Açores" navegava a cerca de 577 quilómetros a sudoeste da ilha de Santa Maria. "A operação de evacuação foi executada com sucesso pelas 17h, tendo o helicóptero aterrado às 17h40 no aeroporto do Funchal", pode ler-se no comunicado da Marinha.

Ao Expresso, o general José Pinheiro contou agora que o outro helicóptero estacionado nas Lajes, mesmo que houvesse um piloto-comandante disponível, não poderia ter sido usado por estar de "quarentena" depois de ter transportado um doente que se suspeitava padecer de doença contagiosa. Explicou ainda que a Força Aérea mantém um Merlin em Porto Santo porque, caso seja necessário, consegue-se fazer lá chegar, em "cerca de três horas", um dos comandantes que está no Montijo, enquanto a restante tripulação e mecânicos preparam a missão. De outra forma demoraria cinco horas a colocar um meio aéreo na região.

 

Pilotos ganham o dobro no privado 

A Força Aérea tem atualmente apenas seis pilotos-comandante para os EH-101, cinco dos quais estão no continente, na Base Aérea n.º 6, no Montijo. A fuga de pilotos militares para as companhias de aviação civis é a razão apontada pelo general José Pinheiro para a insuficiência de recursos humanos qualificados.

Sempre que as companhias aéreas abrem concursos para a admissão de novos pilotos, tal como acontece neste momento com a TAP, a Força Aérea vê partir pilotos que levaram vários anos a formar em cursos que custaram ao erário público milhares de euros. Um antigo piloto, que passou recentemente à reserva, disse ao Expresso que um tenente recebe cerca 1700 euros líquidos na Força Aérea, mas numa companhia privada levará para casa quase o dobro.

"A TAP é a grande sugadora de pilotos, mas não é a única. Periodicamente abre-se um concurso e nós não podemos prender as pessoas", que podem sair com um aviso de poucos dias após 12 anos nos quadros, disse José Pinheiro à Lusa em dezembro do ano passado.

De acordo com o protocolo de operação estabelecido para a busca e salvamento, um EH-101 não poderá descolar sem levar a bordo um piloto-comandante, um co-piloto, um operador de sistemas, um recuperador-salvador e um enfermeiro.

Ao piloto-comandante, pode ler-se no 'site' da Esquadra 751, que tem como divisa "para que outros vivam", compete "dirigir, executar e planear ações diretamente relacionadas com o voo, seja a sua execução ou planeamento", sendo "o responsável máximo pelas tomadas de decisão que diretamente irão influenciar o desenrolar da missão".