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Política

Cristas cede ao aparelho nas listas de deputados

ANTÓNIO PEDRO SANTOS/LUSA

Corrida aos lugares no Parlamento já começou. Líder muda práticas de Portas para “pacificar” distritais

A contagem decrescente para as legislativas de outubro começa hoje no CDS: o Conselho Nacional do partido reúne-se em Oliveira de Frades, para dar início ao processo de escolha de deputados. Com tensões anunciadas, reivindicações de lugares e discussões sobre os critérios de seleção — mesmo por parte de próximos como o líder da distrital de Lisboa —, Assunção Cristas vai dar mais poder de decisão às estruturas locais e assumir uma posição “pacificadora”, numa tentativa de acalmar as hostes.

Em várias distritais estão frescas as memórias — e as queixas — sobre as imposições de lugares por parte de Paulo Portas. Cristas assume ao Expresso que, “em relação ao passado recente, a preocupação é limitar a quota nacional”, ou seja, reduzir o número de deputados que são escolhidos pela direção nacional do partido. A direção planeia agora apresentar em Conselho Nacional uma solução que dê mais voz às bases, e deverá optar por escolher apenas os cabeças de lista de todos os distritos. Porto e Lisboa são a exceção: nos dois maiores distritos, a liderança deverá indicar o número de deputados que já são eleitos, deixando o resto das listas à responsabilidade das estruturas locais. Outros critérios terão que ver com a diversidade e a paridade, tentando conjugar a introdução de caras novas no Parlamento com algumas mais experientes que deem estabilidade ao grupo parlamentar.

O ‘tetris’ não é fácil: se Cristas, que durante a semana se desdobrou em contactos com as distritais, assume que com esta posição pretende acalmar os ânimos, vários dirigentes locais confirmam que não se inibirão de fazer as suas reivindicações. O caso mais paradigmático é o da distrital do Porto, que é liderada desde o ano passado por Fernando Barbosa, visto como o candidato das bases que derrotou Cecília Meireles — a candidata da direção nacional. A bandeira de Barbosa foi, precisamente, dar poder às bases na escolha dos candidatos. Idealmente, a distrital do Porto desejaria que o primeiro lugar da sua lista fosse entregue a Barbosa ou a outra figura mais consensual da cidade — mas muitos já dão por adquirido que a direção nunca deixará cair a deputada.

Outro foco de tensão poderá surgir com Braga — neste caso, com a concelhia, visto que a distrital é liderada pelo ‘vice’ do partido Nuno Melo. Altino Bessa, que antecedeu a Melo no cargo, tem feito críticas à prioridade dada por Cristas ao “mérito” e não à ligação dos eleitos aos distritos por que se candidatam. O exemplo é Telmo Correia, que, apesar de ser lisboeta, foi em 2015 eleito como cabeça de lista por Braga. “Estes deputados fazem a campanha aqui durante 15 dias. Não cumprem a função para a qual foram eleitos”, denuncia.

Em Lisboa, que por conseguir eleger mais deputados funciona por vezes como porta de entrada dos nomes preferidos pela direção, o líder distrital, João Gonçalves Pereira, avisa: “Tem de haver processos de diálogo. Não faz sentido elaborar listas com a direção a escolher do primeiro ao último lugar, de costas voltadas para as estruturas. É absolutamente normal que haja tensão nestes processos”, diz o dirigente que é o braço-direito de Cristas na câmara de Lisboa.

Reivindicações de lugares são feitas ainda pela TEM, a tendência formalizada no partido e liderada por Abel Matos Santos. Já a corrente crítica de Cristas liderada por Filipe Lobo d’Ávila e Raul Almeida assegura não querer lugares, mas diz-se disponível para “ajudar a presidente a dialogar e escolher candidatos de todo o país”, assegurando que “existe uma frente grande de pessoas a defenderem uma intervenção determinante nas listas”. Lugar garantido na quota nacional, asseguram ao Expresso várias fontes, terá já Francisco Rodrigues dos Santos, líder da Juventude Popular.