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Graça Fonseca: “Uma oportunidade extraordinária para Portugal”

Terceira ministra da Cultura em três anos, tem defendido uma proposta de Orçamento que não elaborou e que fica muito aquém daquilo que o sector tem reivindicado. No debate do Orçamento para 2019 deu origem a uma polémica sobre o IVA das touradas, mas sobre isso não quer falar “para não desviar as atenções” da participação de Portugal como convidado de honra da 32ª Feira do Livro (FIL) de Guadalajara, que começa hoje

ana baião

Este ano Portugal é o convidado de honra da segunda maior feira do livro do mundo. Quais são as grandes mais-valias de um evento como este?
São várias. De facto, Portugal é o país convidado da segunda maior feira do livro do mundo e a maior em língua castelhana. Por um lado, a dimensão da internacionalização e a projeção mundial da cultura portuguesa em diferentes manifestações. Falamos naturalmente de literatura, essa é a base, mas a partir da literatura construiu-se um programa que tem as várias expressões artísticas, desde os bordados, o azulejo, a tapeçaria de Portalegre, Almada Negreiros, Ana Hatherly, o próprio cinema que estará presente na programação, o bailado, o teatro, etc. Ou seja, é uma oportunidade muito extraordinária de afirmar mundialmente Portugal, não só como destino turístico, mas afirmar que há um Portugal que se calhar não é assim tão conhecido, mas que tem manifestações extraordinárias nas diferentes áreas culturais. Tem ainda a particularidade muito feliz de conjugar diferentes tempos — o passado, o presente e como se afirma o futuro, que é, aliás, o tema escolhido para a FIL. Da mesma maneira que temos Almada Negreiros, também temos os novos artistas portugueses. Da mesma maneira que temos autores mais conceituados, já publicados — veja-se o caso de José Saramago e a sua ligação ao México — também temos autores mais novos e desconhecidos. A segunda mais-valia é o posicionamento dos autores e artistas portugueses num mercado maior do que o mercado português. Isto é muito importante. Aquilo que é o apoio à tradução de autores portugueses é muito importante para conseguirem chegar a novos mercados, para conseguirem posicionar-se de forma diferente e é algo que o Estado português vê como uma enorme mais-valia.

Fala do fundo de tradução criado especialmente para a FIL, para que livros portugueses nunca antes publicados em espanhol pudessem agora chegar ao mercado. Sabe quantos novos autores chegarão ao público da América Latina?
Não tenho esses números.

Mas na apresentação do Orçamento do Estado para 2019 disse que o Governo vai apostar na valorização da criação literária e do apoio às edições e à tradução. Isso significa que a DGLAB terá mais verbas?
Sim, essa é uma das áreas a que temos de dar mais músculo e reativar. Não tenho os números dos últimos programas, mas a sensação que tenho é de que precisamos de aumentar o nível de apoio que a DGLAB dá à tradução. Um dos dossiês que referi a semana passada quando falei com o meu homólogo cabo-verdiano foi precisamente este. Temos de cooperar mais no âmbito da tradução de autores da CPLP. E, sim, a DGLAB terá mais verbas no próximo orçamento, mas aquilo que queremos fazer é alocar uma verba mais significativa no apoio à tradução, fazendo um reordenamento orçamental dos projetos.

O interesse não é apenas cultural, mas também económico. Esta é uma aposta em exportar a economia portuguesa?
É uma oportunidade para exportar cultura portuguesa. O cruzamento entre economia e cultura é um cruzamento decisivo. Em vários países é trabalhado de forma descomplexada e aqui tem de ser trabalhado de forma descomplexada. Quando se fala em economia, não se fala só em turismo e é importante desconstruir um pouco isto. A cultura tem um impacto económico muito significativo em qualquer país. Se estivermos — como estamos — numa fase de crescimento económico, naturalmente também há um crescimento na forma como as pessoas procuram cultura e vão ao teatro, museus, cinema, compram livros, etc. Este cruzamento e esta interação são muito importantes. Portanto, quando nós nos posicionamos numa feira com um mercado como a América Latina é óbvio que há uma exportação de cultura que se deve cruzar com a promoção económica do país, das suas regiões e produtos. Se mais pessoas vierem a Portugal, provavelmente mais pessoas irão a um museu português, ou compram um autor português porque acabam por conhecer.

Ao apresentar em junho passado o programa da mostra portuguesa nesta feira, o anterior ministro, Luís Filipe Castro Mendes, afirmou que o evento iria custar a Portugal um milhão e oitocentos mil euros. Confirma?
Sim.

Há alguma estimativa sobre o retorno económico que esta participação na Feira do Livro de Guadalajara pode vir a ter?
Ainda é muito precoce, temos de aguardar. Qualquer feira com esta dimensão, só vamos conseguir ver os impactos daqui a um ano.

Em 2018, o concurso de bolsas de criação literária será atribuído a 12 autores. Parece-lhe suficiente para o panorama de escritores portugueses?
Vamos lá ver, o programa de bolsas foi retomado o ano passado e este ano estamos prestes a anunciar os resultados. Já temos os nomes, mas anunciaremos depois da FIL. Admito que faça sentido alargar o número de bolsas, mas é preciso perceber — como em qualquer programa — qual é o impacto que vai ter. Como sabe, as bolsas são seis de um ano e seis de seis meses com um valor de mais de mil euros e julgo importante perceber em dois, três anos, no que resultou. Só agora estamos a terminar o primeiro ano de apoio. Houve muitos candidatos no primeiro ano e muitos este ano também, mas menos do que no ano passado.

Já agora, sobre o anunciado selo de mérito cultural para as livrarias, o projeto já está em andamento?
Está mais ou menos em andamento. Este projeto parte da identificação de um problema — que eu em Lisboa conhecia bem do ponto de vista do comércio — que diz respeito ao fecho de lojas históricas e livrarias. Não só em Lisboa mas também no Porto, era uma dinâmica que começava a preocupar-nos há cinco anos e se foi tornando cada vez mais visível. Esta dinâmica é a que cidades como Paris tiveram há dez anos quando várias livrarias começaram a fechar. E, portanto, este projeto parte da identificação de um problema que é importante para a vida das cidades e do país e também para criadores, autores e editores. Aquilo que se pretendeu aqui foi criar uma distinção, que é o tal selo de mérito cultural, da mesma maneira que se criou o selo das lojas com história. Ou seja, associar um selo a algumas livrarias mais antigas, com uma oferta diversificada e que seja importante preservar, e ter um conjunto de medidas públicas associadas a essa distinção, evitando que encerrem. O projeto está relativamente embrionário, já foi criado o selo, mas está a ser feito o levantamento dessas livrarias pela DGLAB.

Irá entrar em funcionamento em 2019?
Sim.

Não acha que os critérios de seleção poderão levantar alguma polémica?
Sim. E aí vou dizer-lhe, tenho a experiência de ter feito algo parecido com isto em Lisboa no programa das lojas com história. Estamos a falar do mesmo fenómeno. O objetivo foi precisamente olhar para algumas dessas lojas que estavam a fechar, entre as quais livrarias, e construir um conjunto de critérios que permitissem fazer uma distinção pública que fosse objetiva. Ou seja, que não fosse discricionária de maneira a ser socialmente aceite pelas pessoas e pelos parceiros. E esse é o trabalho que temos de fazer aqui. Os critérios têm de ser construídos de maneira a que sejam objetivos e cuja racionalidade seja apreensível pelas pessoas e pelos interessados. Esse é o trabalho que temos de fazer para não gerar a tal contestação. Ainda assim acho que será polémico, embora as lojas com história não tenham gerado qualquer polémica.

Defende uma cultura integrada e sustentada. O 1% de Orçamento reivindicado pelo sector não é realista para um país com a dimensão de Portugal?
Temos de olhar para o orçamento da cultura e não para o orçamento do Ministério da Cultura. Eu sei que isto pode parecer uma manobra, mas na verdade não é. Quando o Ministério da Cultura financia o plano nacional de literatura ou quando há um plano nacional de cinema ou quando trabalhamos o ensino artístico, estamos a financiar cultura. Objetivamente. E isto é mais do que uma manobra, por uma questão: porque isto significa precisamente posicionar a cultura como um sector que é transversal e que tem, de facto, de estar presente em vários setores. Se nós não trabalharmos os mais novos, nas escolas, não estaremos a trabalhar cultura. Hoje, temos de criar aqueles que serão os públicos daqui a vinte anos. Portanto, isto sem prejuízo daquilo que qualquer ministro da Cultura dirá — e eu não sou exceção — é que evidentemente quanto maior for o orçamento para a cultura, naturalmente melhores condições teremos para apoiar os nossos criadores, artistas, autores, etc. Este Governo tem procurado aumentar progressivamente o orçamento da cultura com os equilíbrios que são necessários, porque há outras áreas de governo que também são muito importantes.

Uma última pergunta: o que anda a ler?
No meu gabinete tenho uma longa lista de dossiês de trabalho. Mas em relação a livros, tenho um da Maya Angelou (“Sei Porque Canta o Pássaro na Gaiola”), que tenho estado a ler com grande entusiasmo porque toca questões que me dizem muito, como a evolução das civilizações.

Artigo publicado na edição do EXPRESSO de 24 de novembro de 2108