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Manfred Weber ou Frans Timmermans? PS e PSD discutem qual dos dois candidatos à Comissão Europeia foi mais ruim com Portugal

GERARD CERLES/Getty

PS e PSD trocam acusações, para ver qual dos dois cabeças de lista à presidência da Comissão Europeia - Manfred Weber ou Frans Timmermans - foi mais duro com Portugal durante a crise económica

Susana Frexes, em Helsínquia

Manfred Weber é o cabeça de lista da maior família política europeia de centro direita às eleições de maio de 2019. Mas na corrida à presidência da Comissão Europeia terá de enfrentar o candidato dos socialistas europeus, Frans Timmermans, anunciado no início da semana.

Conhecidos os chamados "spitzenkandidaten" das duas maiores famílias políticas, arranca também a segunda fase da campanha, e a troca de acusações entre PSD e PS já começou.

Numa reação à eleição de Weber, o eurodeputado do PS Carlos Zorrinho acusa "a direita portuguesa" de continuar um "caminho de subserviência" e de apoiar "um potencial Presidente da Comissão Europeia que quer retomar a pressão da austeridade e do empobrecimento do País".

Zorrinho vai também buscar a carta que Weber enviou em maio de 2016 a Jean-Claude Juncker, na qual pedia ao Presidente da Comissão Europeia que "todos os instrumentos incluindo os da vertente corretiva do Pacto de Estabilidade e Crescimento" - ou seja as sanções - fossem utilizados na decisão sobre as derrapagens na correção do défice em Portugal e em Espanha.

"Quando essa carta foi divulgada, o Vice-presidente do PPE Paulo Rangel manifestou perplexidade e desacordo. Isso não impediu o PSD de dois anos depois apoiar Manfred Weber", acusa Zorrinho. Em Helsínquia, Paulo Rangel garante que "Weber é claramente um bom amigo de Portugal" e um "europeu convicto" com "capacidade de diálogo e de estabelecer pontes".

Já sobre o episódio da carta sobre as sanções, o eurodeputado do PSD diz que foi contra o seu envio a Juncker, por considerar que proporcionava uma "interpretação" errada. "O que ele pretendia não era visar Portugal. Ele foi sempre um grande defensor do Governo PSD/CDS" diz Rangel. "A questão era a de que não se abrisse nenhuma exceção (na aplicação das regras) e não se abriu".

PSD contra-ataca com Timmermans

No contra-ataque, Paulo Rangel aponta baterias a Frans Timmermans, dizendo-se surpreendido por António Costa apoiar a candidatura de um membro do partido socialista holandês "que sistematicamente esteve contra a Portugal e contra a ajuda a Portugal durante o tempo da Troika".

"O sr. Timmermans tem uma visão que eu diria muito ortodoxa", afirma ainda o social-democrata do atual primeiro Vice-Presidente da Comissão Europeia, lembrando que o holandês é do mesmo partido de Jeroen Dijsselbloem, o ex-presidente do Eurogrupo que há um ano irritou todos os partidos portugueses com comentários que associavam os países do sul ao "dinheiro gasto em mulheres e copos".

Carlos Zorrinho sai em defesa de Timmermans, dizendo que ainda esta semana o confrontou numa reunião do Grupo dos Socialistas & Democratas com as posições de Dijsselbloem. "O candidato demarcou-se totalmente dessas declarações e comprometeu-se, se for eleito, a trabalhar por um orçamento de convergência na União Europeia e pela conclusão da reforma do euro, de forma a diminuir as assimetrias entre os países europeus.

A competição entre PS e PSD parece ser entre qual dos dois, Timmermans ou Weber, foi mais duro com Portugal durante a crise económica.

Timmermans ou Weber têm hipótese?

Em 2014, o processo do spitzenkandidat funcionou. Jean-Claude Juncker, que era então o cabeça de lista do PPE às europeias, acabou por ser nomeado Presidente da Comissão Europeia, batendo o então candidato socialista Martin Schulz.

Os partidos europeus de centro-direita foram os mais votados nas eleições, permitindo ao grupo parlamentar do Partido Popular Europeu ter o maior número de deputados.

Se o PPE voltar a conseguir a proeza, então está o caminho aberto para Weber suceder a Juncker. Mas o processo está longe de ser automático, porque os tratados dizem que a nomeação do presidente da Comissão Europeia é nomeado pelos líderes europeus.

Rangel compara o processo à realidade portuguesa: "Se há uma maioria muito clara, o Presidente da República não tem margem para escolher um primeiro-ministro que não seja o líder do partido que vai à frente", explica. No cenário europeu, uma vitória expressiva do PPE - ou de qualquer outro grupo político - facilitaria a nomeação do respetivo cabeça de lista.

No entanto, analistas e sondagens apontam para uma maior fragmentação do Parlamento Europeu e é incerta a distribuição de lugares e o peso que vão ter PPE, Socialistas & Democratas, Verdes, os Liberais, Esquerda Unitária e principalmente as forças eurocéticas e populistas que poderão crescer.

Em Helsínquia, Assunção Cristas assume que a escolha de Weber é "um primeiro passo de um processo que pode ser mais complexo". Diz a presidente do CDS que todos sentem "que pode haver uma divisão maior do Parlamento Europeu".

Ao contrário do PSD que apoiava Weber, o CDS deu liberdade de voto aos seus delegados. Assunção Cristas votou em Alexander Stubb, mas o ex-primeiro-ministro da Finlândia conseguiu apenas 20% dos votos. Weber teve 78%.