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Manfred Weber: “Quando cada um só faz o que quer, a Europa falha”

Manfred Weber diz que quer sanar as divergências, fazer pontes e preencher as lacunas da União Europeia

FOTO VINCENT KESSLER / REUTERs

O eurodeputado alemão tem o apoio de Angela Merkel mas não tem a experiência governativa dos anteriores presidentes da Comissão Europeia. Vê-se como um democrata-cristão capaz de acabar com as divergências norte/sul

Manfred Weber chegou a Bruxelas em 2004, eleito pela CSU, o partido democrata-cristão na Baviera, habitual parceiro de governo da CDU de Angela Merkel. Tinha então 32 anos, nenhuma experiência governativa e uma curta passagem pelo Parlamento bávaro. Quase três mandatos depois, consolidou a influência entre os eurodeputados, especialmente na bancada do Partido Popular Europeu.

"Há quatro anos que sou líder do maior partido do Parlamento Europeu e vejo muitas divisões este/oeste, norte/sul, países grandes e pequenos", diz ao Expresso. Agora, com os olhos postos na presidência da Comissão Europeia, Weber diz que quer sanar as divergências, fazer pontes e preencher as lacunas da União Europeia. "Enquanto candidato só vejo europeus. E quero ultrapassar as divisões. Essa é uma das minhas maiores prioridades", diz o candidato a cabeça-de-lista do PPE às europeias.

Dentro do grupo parlamentar há quem lhe reconheça as capacidades para gerir e alcançar consensos e é visto como alguém que sabe ouvir e que é capaz de mudar de posição. Por exemplo, aquando da polémica dos bilhetes pedidos por Mário Centeno para ver o Benfica, chegou a equacionar levar o assunto a debate em plenário, mas a intenção acabou por cair por terra. Os eurodeputados o PSD e CDS eram contra e Weber acabou por compreender que não fazia sentido, tendo também em conta que o Ministério Público arquivou o inquérito.

Weber é um defensor das regras e dos compromissos. Tem pelo menos um pé dentro no clube dos países da linha dura. "Quando cada um só faz o que quer, a Europa falha", afirma, e aponta na direção de Itália e do braço de ferro entre Roma e Bruxelas por causa do Orçamento e das metas do défice italiano. Defende uma abordagem "dura" e firme de Bruxelas neste caso.

"EU QUERO SER O LÍDER"

Mas nesta nova empreitada diz que é preciso também virar a página da gestão de crises – seja económica, seja migratória – e começar "um novo capítulo" capaz de inspirar europeus de norte a sul. E é neste ponto que tenta afastar-se da imagem de um falcão de Berlim: "Temos de olhar por um futuro positivo. Os finlandeses, alemães e austríacos têm de se importar com o futuro da jovem geração do sul da Europa".

Manfred Weber tenta contrabalançar a sua falta de experiência governativa com o trabalho como líder parlamentar do PPE

Manfred Weber tenta contrabalançar a sua falta de experiência governativa com o trabalho como líder parlamentar do PPE

FOTO PATRICK SEEGER / EPA

"Eu quero ser o líder. Quero dar novas perspetivas a este continente e quero incluir toda a gente", promete. "Estamos sob pressão do mundo globalizado, de Trump, de Putin, dos chineses", continua, argumentando que a forma de preservar o "estilo de vida europeu" passa pela defesa e afirmação da cidadania europeia e dos valores. "É bom ser-se europeu", diz, num recado que é para 500 milhões de cidadãos, mas também para os governos dos ainda 28.

Acredita que, de certa forma, o Brexit ajudou a perceber o que "significa deixar a UE" ao expor uma "situação caótica" em Londres. Já quando olha para o outro lado do Atlântico e para o atual inquilino da Casa Branca, fala na necessidade de mostrar a força europeia: "Diria que estou pronto para negociar, mas (ele que) não brinque connosco porque estamos prontos para responder".

A sete meses das europeias, a campanha de Manfred Weber é sobretudo virada para o interior da família política. Na próxima semana, no Congresso do PPE em Helsínquia, é ele o mais bem colocado para vencer a votação que o opõe ao ex-primeiro-ministro finlandês, Alexander Stubb. Tem o apoio dos líderes do centro-direita que se sentam no Conselho Europeu e isso não só é importante agora, como poderá ser determinante mais tarde, porque são os chefes de Estado e de Governo dos 27 – entretanto o Reino Unido já terá saído – que nomeiam o presidente da Comissão Europeia.

Por tradição, o chefe do Executivo comunitário tem experiência governativa. Durão Barroso e Jean-Claude Juncker foram ambos primeiros-ministros. Jacques Delors foi ministro da Economia e das Finanças. Deste ponto de vista, Stubb tem uma vantagem que esse lugar tem-lhe dado acesso privilegiado à máquina da família política e também facilitado o contacto com os líderes europeus.

E enquanto o seu opositor finlandês anda a tentar convencer as bases dos partidos e a reunir-se com os delegados – são 758 a votar em Helsínquia –, o alemão aposta em falar apenas com os líderes partidários. Quando esteve em outubro em Lisboa falou com Rui Rio e Assunção Cristas e encontrou-se também com Marcelo Rebelo de Sousa.

No caso dos centristas, estes deverão mesmo esperar pelo frente a frente entre Weber e Stubb, na próxima quarta-feira, durante o primeiro dia de Congresso do PPE. O finlandês tem sistematicamente pedido um debate, mas o alemão tem-se escudado na leitura da direção do PPE de que nesta primeira fase de votação interna não faria sentido. No entanto, esta semana o debate foi anunciado e marcado para Helsínquia.

Será a oportunidade para perceber o que os distingue. O próprio Weber reconhece que "são da mesma geração" e "partilham muito do conteúdo" político. Por exemplo, na questão das migrações ambos concordam com um controlo eficaz das fronteiras externas. A diferença, continua, está nas "personalidades", e "na maneiras de fazer política".

"TEMOS DE ABRIR AS PORTAS DE BRUXELAS"

Aos 46 anos, Manfred Weber soma 14 na capital bela, mas recusa a ideia de ser um burocrata encerrado na bolha europeia. Diz que vai com frequência à Baviera para "respirar" e ouvir o eleitorado. "Temos de abrir as portas de Bruxelas" e "trazer este ar fresco para cá", diz, admitindo que é preciso praticar mais a democracia.

"A causa da frustração do Brexit era que os britânicos não se sentiam ligados ao processo de decisão em Bruxelas", lembra. E também por isso defende o chamado processo do spitzencandidat, em que cada família política apresenta um cabeça-de-lista às Europeias, que seria depois o presidente da Comissão Europeia caso o grupo político fosse o mais votado nas eleições ao Parlamento Europeu.

O sistema foi testado em 2014 e funcionou com Jean-Claude Juncker. No entanto, nada garante que voltará a funcionar. Primeiro porque os líderes europeus não são obrigados a nomear o cabeça-de-lista do partido mais votado, e segundo porque tudo aponta para uma maior fragmentação do Parlamento Europeu após maio, o que levaria uma maior negociação e, eventualmente, a que se encontrasse um nome alternativo de consenso.

Se chegar a essa fase, Weber terá de mostrar que pode ser o líder de que a Europa precisa. "A minha forma de fazer as coisas é que eu sou um homem de equipa", argumenta. Ao mesmo tempo responde a Stubb, quando este o define como mais conservador: "conservador é a expressão errada". O alemão prefere definir-se como um "democrata-cristão", que à semelhança dos antigos chanceleres alemães Adenauer e Helmut Kohl é também "muito liberal e abertos ao mundo moderno".

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    É ex-primeiro-ministro da Finlândia e atual vice-presidente do Banco Europeu de Investimento. Um falcão escandinavo, aficionado do triatlo e da forma física. Alexander Stubb sabe ser eloquente quando fala e já esteve em Lisboa para convencer os delegados do PSD e CDS a votarem nele no Congresso do Partido Popular Europeu em Helsínquia