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Alexander Stubb: “Sempre fiz as coisas de maneira diferente”

Alexander Stubb tenta ganhar espaço entre o eleitorado farto da velha guarda e da burocracia de Bruxelas

FOTO VINCENT KESSLER / REUTERS

É ex-primeiro-ministro da Finlândia e atual vice-presidente do Banco Europeu de Investimento. Um falcão escandinavo, aficionado do triatlo e da forma física. Alexander Stubb sabe ser eloquente quando fala e já esteve em Lisboa para convencer os delegados do PSD e CDS a votarem nele no Congresso do Partido Popular Europeu em Helsínquia

Alexander Stubb rejeita o cinzentismo. A presença constante nas redes sociais permite espreitar a figura e a forma de estar na vida e na política. Há quem considere que é demasiado plástico, ele prefere apresentar-se com o rosto de uma "nova geração da Europa".

No Twitter e no Instagram descreve-se como "pai, marido, antigo primeiro-ministro da Finlândia, eterno otimista". As publicações são um misto da vida pública e privada. Partilha fotos do 20.º aniversário de casamento, das provas de triatlo em que participa, das ações de campanha a cabeça de lista do Partido Popular Europeu nas próximas europeias. Esta sexta-feira já publicou um foto entre sorrisos e abraços com a líder do CDS Assunção Cristas.

"Tento ser tão aberto quanto possível e tento ser eu próprio", diz em entrevista ao Expresso. "Às vezes pode parecer um pouco louco e levar as pessoas a questionar o que é que este tipo publica no Twitter ou no Instagram", continua, sublinhando que um político também vai ao supermercado e sabe engomar camisas. Stubb tenta ganhar espaço entre o eleitorado farto da velha guarda e da burocracia de Bruxelas.

Para ele, a Europa tem sido liderada recorrentemente "por homens mais velhos e cinzentos", e defende que "talvez fosse melhor passar para homens de meia-idade ou mulheres jovens". E ele está disponível. Tem 50 anos e quer ser "o primeiro presidente digital" a dirigir a Comissão Europeia, porque a revolução digital está aí e "vai mudar tudo: da economia ao trabalho, da política, aos media, da ciência ao futuro da humanidade".

O digital está no topo dos desafios que assume para a União Europeia. Os outros dois são as alteração climáticas e as migrações. Mostra-se preocupado com o aumento da temperatura, de dois graus até ao final do século, que teria entre outras consequências um êxodo possível de mais de quatro milhões de pessoas de África para a Europa. E se isso acontecer então não tem dúvidas: "A crise migratória de 2015 será um passeio no parque".

GANHAR NÃO SERÁ FÁCIL

Mas conseguir a cadeira principal do Berlaymont, o edifício principal da Comissão Europeia, não é percurso simples. E pode ficar excluído já na votação do Congresso do Partido Popular Europeu em Helsínquia. Jogar em casa de pouco serve quando Angela Merkel apoia Manfred Weber, o outro candidato a cabeça de lista do PPE, que conta também com os apoios de todos chefes de Estado e de Governo da família política que tem assento no Conselho Europeu, do chanceler austríaco Sebastian Kurtz ao primeiro-ministro húngaro Viktor Orbán.

"Se eu fosse primeiro-ministro e a chanceler Merkel me perguntasse se eu poderia apoiar o candidato alemão seria difícil dizer-lhe que não", desdramatiza, lembrando que em Helsínquia não votam só os líderes dos partidos mas mais de 750 delegados num processo de voto secreto. "Cada pessoa pode decidir com o coração e com a cabeça quem é o melhor tipo para o cargo", diz.

Stubb define-se como um "liberal de coração"

Stubb define-se como um "liberal de coração"

FOTO PARLAMENTO EUROPEU / EPA

Nas últimas semanas, Stubb não se tem cansado de falar com todos os que vão votar, eurodeputados, assistentes dos partidos, militantes que vão a Helsínquia. No mês passado falou com Rui Rio em Salzburgo e na sexta-feira passada esteve em Lisboa para falar com outros membros do PSD. O CDS também precisa ainda de ser convencido. Quer falar-lhes de uma "liderança horizontal", que prevaleça à hierarquia e à burocracia.

"Sempre fiz as coisas de maneira diferente", diz ao Expresso. Tem consciência das capacidades de orador, também em inglês – a mulher é britânica e ele estudou na Carolina do Sul, nos Estados Unidos. Aposta no carisma, mas apesar de ter sido primeiro-ministro da Finlândia não é uma figura conhecida do grande público europeu. Atualmente é vice-presidente do Banco Europeu de investimento, mas pediu uma licença sem vencimento para se dedicar à corrida contra Weber a cabeça de lista do PPE.

"Eu só cheguei à política em 2004", lembra, para valorizar depois a experiência governativa que ele tem e o seu opositor não. Foram ambos eleitos para o Parlamento Europeu nesse ano. Weber continuou sempre como eurodeputado, enquanto Stubb saiu quatro anos depois para ocupar vários cargos no Executivo finlandês, incluindo o de ministro das Finanças e primeiro-ministro. "É importante ter a experiência e credibilidade para lidar com líderes mundiais", argumenta, lembrando que já lidou "várias vezes" com Vladimir Putin. Ainda não se encontrou com Trump, mas já esteve com Obama.

É um político da linha dura? "Sim e não", responde ao Expresso. Há nele um lado de falcão do norte que "acredita num sistema assente em regras". Define-se como um "liberal de coração" e diz que dentro do Partido Popular Europeu está mais "no centro-direita moderado", enquanto o seu opositor "é provavelmente do centro-direita conservador".

O "ABRAÇO DA MORTE" AOS POPULISTAS

"O resultado das eleições vai ser uma confusão", diz sobre os resultados das europeias de maio. Existe a forte possibilidade de os movimentos eurocéticos aumentarem o peso no Parlamento Europeu e Stubb acredita que será necessário ao PPE coligar-se com outras forças. Nesse caso, defende que as negociações devem ser com socialistas, liberais e verdes e não com os "populistas da direita".

Esse experiência já ele a teve, na Finlândia, e não foi fácil. Em 2015, integrou um Governo de coligação com a extrema-direita. O partido dos Verdadeiros Finlandeses tinha tido um bom resultado eleitoral graças às promessas de pôr fim à austeridade, à imigração e às transferências de dinheiro para a Grécia. "Demos-lhe o abraço da morte", diz Stubb, explicando que a estratégia passou por "lhes dar responsabilidade" governativa e quando isso aconteceu perderam a popularidade: a Grécia foi resgatada pela terceira vez, a Finlândia passou por um programa duro de austeridade e a Europa viveu uma das maiores crises migratórias.

"Isto reduziu a popularidade deles para metade, de 18% para 9%, e acabou por partir o partido em dois", explica. Mas se por um lado diz que "é preciso reagir seriamente aos populismos", por outro adianta que não há uma poção mágica para todos os países e que ele nunca "daria o abraço da morte" a Marine Le Pen ou a Matteo Salvini.