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Tancos: Costa sugere a Marcelo que contenha “a ansiedade”

MIGUEL A. LOPES / Lusa

Subiu de tom a (des)conversa entre Governo e Presidente da República sobre Tancos. Depois de três dias a ouvir recados de Marcelo, António Costa reagiu. Colou-se "qb" ao PR, com quem se diz em “total convergência”. Mas sugere-lhe que contenha “a ansiedade”. Marcelo vai manter a pressão

Depois de três dias consecutivos a ouvir recados do Presidente da República sobre não estar disposto "a calar-se" e continuar determinado a travar "contra tudo e contra todos" a "nebulosa" sobre Tancos, o primeiro-ministro decidiu responder.

À saída do convento do Beato, em Lisboa, António Costa disse esta segunda-feira estar "em total consonância" com o Presidente quando este diz que as Forças Armadas não devem ser usadas "para jogos de poder". Mas aconselhou-o, indiretamente, a mostrar-se menos ansioso com o tema de Tancos.

"O senhor Presidente da República não se tem cansado em expressar publicamente a sua ansiedade e o Governo, naturalmente, deve ser mais contido em expressar a sua ansiedade, mas não é menor", afirmou Costa aos jornalistas. Mas há outra fina divergência com Marcelo, para além do caudal de intervenções que na opinião do Governo (não) devem ser feitas sobre Tancos: o primeiro-ministro não subscreve a tese presidencial de que parece estar a ser alimentada "uma nebulosa" em torno do que se passou na base militar.

Na sua opinião, "não é possível procurar-se criar uma névoa política sobre aquilo que é a atividade das autoridades judiciárias". Costa recomenda, aliás, que se confie nas entidades que estão a investigar. E tenta colar-se ao Presidente para esbater dúvidas sobre alguém no Governo querer ou ter querido camuflar o que se passou.

"É essencial respeitarem-se as autoridades judiciárias, que estão seguramente a fazer o seu melhor trabalho para esclarecerem tudo até ao fim, doa a quem doer, como têm dito o Presidente da República e o Governo ao longo destes anos", afirmou o primeiro-ministro, apostado em mostrar que há uma "total convergência entre Governo e PR" nesta matéria.

Não é essa a sensação pelos lados do Palácio de Belém, onde se aponta uma enorme desproporção entre a atenção dada pelo Presidente da República e pelo Governo ao caso de Tancos desde que as armas desapareceram, há mais de um ano. "O Governo tentou sempre desvalorizar", afirmou ao Expresso fonte próxima do Presidente da República, lembrando que foi Marcelo Rebelo de Sousa quem nunca deixou o tema de Tancos caír no esquecimento.

Primeiro, quando António Costa permaneceu de férias após o roubo na base militar e foi o PR que arrastou o ministro da Defesa para o local. E depois, pela forma como Marcelo manteve sempre o tema na agenda, enquanto o Governo "praticamente se calou depois das armas terem reaparecido".

Sexta-feira, o PR reagiu com dureza à reportagem da RTP segundo a qual a Presidência foi sempre informada pela PJ Militar sobre a operação montada para recuperar o armamento, à margem do Ministério Público e da PJM, o que pode configurar crime.

"Se eu soubesse exatamente o que se passou não exigia um esclarecimento. Se eu insisto é porque não sei", afirmou Marcelo, considerando "do outro mundo achar-se que quem efetivamente andou a insistir permanentemente, contra tudo e contra todos, em relação ao esclarecimento da verdade, apareça agora como tendo sabido a verdade".

No sábado, numa declaração ao "Público", o chefe de Estado carregou nas tintas: "Se pensam que me calam, não me calam", afirmou, insinuando que há quem o queira silenciar, e garantindo que não o conseguirão. Marcelo desmentiu a informação da reportagem da RTP da véspera, segundo a qual o ex-chefe da Casa Militar da Presidência, João Cordeiro, que saíu quatro meses após o roubo em Tancos, esteve sempre a receber informação da PJM e, por isso, terá sido informado do esquema montado à margem do Ministério Público para recuperar as armas.

"O ex-chefe da Casa Militar já desmentiu saber o que quer que fosse sobre memorando, reuniões, encobrimento – supondo que houve encobrimento uma vez que o último testemunho é que não teria havido", afirmou o Presidente.

De acordo com a reportagem da RTP, que num primeiro episódio pôs a tónica no que o próprio Governo terá sabido da atuação da PJM, e no segundo desviou o foco para o que terá sabido a Presidência da República, ambos os órgãos de soberania terão sido envolvidos pela Judiciária Militar na estratégia executada.

Marcelo e Costa desmentem e o primeiro-ministro já se disponibilizou para responder aos deputados. Para já, António Costa tratou de se aproximar do Presidente na exigência de apurar tudo, "doa a quem doer".