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Ministra da Cultura divide PS sobre touradas

d.r.

Graça Fonseca irritou alguns socialistas, que a acusam de desconhecer o país. Mas há na bancada quem a defenda

O segundo dia de debate sobre o Orçamento arrastava-se penosamente depois de uma pausa para almoço. Graça Fonseca, que tinha sido convocada para intervir, tinha acabado de discursar. O CDS viu ali a oportunidade para contestar o fim da isenção fiscal para artistas tauromáquicos e acusar o Governo de promover a “ditadura do gosto”. No contra-ataque, a nova ministra da Cultura foi dura: “Não é uma questão de gosto. É uma questão de civilização e manteremos como está”. A resposta deixou os aficionados (e o CDS) em estado de choque, mas não só: dividiu o próprio PS.

“É este tipo de intolerância que cria os Bolsonaros”, resumiu Manuel Alegre ao “Público”. Sérgio Sousa Pinto foi mordaz: “Não vou comentar por uma questão de civilização”, disse ao “Observador”. Luís Testa, deputado e líder da distrital do PS/Portalegre, lembrou grandes nomes da cultura que eram aficionados. “É desta civilização que eu faço parte”, escreveu no Facebook. Ao Expresso, Testa completa: “Há uma dimensão cultural e social que não pode ser ignorada. Um ministro da Cultura tem de ter respeito por este movimento”, sublinha, criticando ainda uma certa “globalização da cultura, em que se quer fazer crer que as pessoas são todas iguais, comem todos o mesmo e vivem todas em apartamentos”. António Gameiro, líder da distrital do PS/Santarém, assina por baixo: “Discordo completamente da ministra. Não é uma questão de gosto, é uma questão de cultura. A ministra, talvez por viver isolada em Lisboa, não tem noção disso”.

Nem todos concordam com esta interpretação. “Quem se refere com coragem sobre questões com relevo político deve ser elogiado. Tenho a certeza de que não quis insultar ninguém. Tal como ela, nada me move contra as pessoas que são aficionadas, não consigo é arranjar argumentos para considerar civilizado infligir sofrimento a um ser vivo, por mais enraizada e antiga que seja a prática”, diz ao Expresso o deputado socialista Pedro Delgado Alves.

Tiago Barbosa Ribeiro concorda. “Estou de acordo com a posição de Graça Fonseca. O combate a todas as formas de maus-tratos contra os animais é uma posição humanista e que honra os socialistas”, argumenta o deputado do PS. Mesmo sublinhando que não é favor da proibição das touradas, pelo respeito que as populações e aficionados lhe merecem, Ivan Gonçalves, deputado e líder da JS, considera que a eliminação dos apoios públicos à tourada é um imperativo do Estado. Daí, a defesa que faz da ministra: “No local em que deu a resposta, da forma que a deu, só posso depreender que aquela é a visão do Governo. E sendo assim, esteve bem ela e o Governo”, remata.