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Azeredo Lopes demite-se de ministro da Defesa

António Cotrim/Lusa

Azeredo Lopes apresentou nesta sexta-feira a demissão ao primeiro-ministro. A posição do ministro da Defesa estava fragilizada devido ao caso da recuperação das armas furtadas em Tancos. Alegou querer evitar que as Forças Armadas sejam “desgastadas pelo ataque político” e pelas “acusações de que disse estar a ser alvo por causa do processo de Tancos.

O ministro da Defesa demitiu-se do cargo nesta sexta-feira. Azeredo Lopes apresentou o pedido de demissão ao primeiro-ministro, António Costa, que o aceitou. O abandono do Governo por parte do ministro da Defesa surge na sequência da fragilização da sua situação devido ao caso da recuperação das armas furtadas em Tancos.

Nos últimos dias, o caso assumiu proporções que começaram a colocar em causa a posição do agora ex-ministro, nomeadamente em relação à questão de saber se o seu gabiente ou o próprio Azeredo Lopes tinham conhecimento da operação de encobrimento levada a cabo pela cúpula da Polícia Judiciária Militar (PJM) e agentes da GNR de Loulé.

Numa carta enviada a António Costa, Azeredo Lopes ter apresentado a demissão do cargo de ministro da Defesa para evitar que as Forças Armadas sejam "desgastadas pelo ataque político" e pelas "acusações" de que disse estar a ser alvo por causa do processo de Tancos. "Não podia, e digo-o de forma sentida, deixar que, no que de mim dependesse, as mesmas Forças Armadas fossem desgastadas pelo ataque político ao ministro que as tutela", referiu Azeredo Lopes, na missiva a que a agência Lusa teve acesso.

O ministro cessante voltou a negar que tenha tido conhecimento, "direto ou indireto, sobre uma operação em que o encobrimento se terá destinado a proteger o, ou um dos, autores do furto".
Quanto ao momento em que decidiu sair, Azeredo Lopes explicou que quis aguardar pela finalização da proposta de Orçamento do Estado para 2019 para "não perturbar" esse processo com a sua saída.

Duas versões e o memorando da controvérsia

Tal como o Expresso noticiou, o coronel Luís Vieira, ex-diretor da PJM, e o major Vasco Brazão, ex-porta voz daquela polícia, vão ser ouvidos no Departamento Central de Investigação e Ação Penal (DCIAP) na próxima terça-feira. Em causa estão, precisamente, as versões apresentadas pelos dois militares em relação à operação da recuperação do arsenal roubado em Tancos e uma reunião que teve lugar no Ministério da Defesa.

A defesa de Vasco Brazão, que está em prisão domiciliária, requereu há uma semana que o major fosse novamente ouvido pelo Ministério Público, de forma a entregar o memorando que assegura ter dado ao então chefe de gabinete de Azeredo Lopes. Esse documento, sem qualquer data ou assinatura, e composto por uma página e meia, explica toda a operação de encobrimento da PJM, deixando explícito, por exemplo, que a chamada anónima a indicar a localização das armas foi encenada pela própria polícia.

Já o coronel Luís Vieira, em prisão preventiva, desmente a existência deste memorando. O ex-diretor da PJM confirma ter estado, juntamente com Vasco Brazão no Ministério da Defesa, numa reunião com o então chefe de gabinete de Azeredo Lopes, mas garante que apenas foi entregue um documento timbrado com o símbolo da PJM, em que não se relatava qualquer encobrimento, mas somente a versão oficial que a Judiciária Militar apresentara publicamente na altura: que a descoberta do arsenal se devera a uma chamada anónima para o piquete da PJM, indicando a sua localização num baldio na Chamusca.

Nesse "Relatório de Ocorrências", composto por várias páginas e anexos, relatavam-se as diligências feitas pelos inspetores para localizar o material de guerra que havia sido furtado quatro meses antes nos paióis de Tancos e encaminhá-lo para a base de Santa Margarida. Não se referia em lado nenhum que o telefonema anónimo tinha sido encenado por elementos da própria polícia, numa operação de encobrimento feita à revelia da PJ e do DCIAP.

A data da suposta reunião entre os dois militares e o ex-chefe de gabinete do ministro é outro foco de divergência. Na versão do major Vasco Brazão, o encontro ter-se-à realizado algumas semanas após a recuperação do armamento. Já Luís Vieira garante que a reunião teve lugar a 19 de outubro, um dia depois do resgate do material bélico.