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As declarações contraditórias de Azeredo Lopes sobre o assalto de Tancos

Ministro da Defesa, Azeredo Lopes

RODRIGO ANTUNES/LUSA

Cerca de um ano e meio depois do desaparecimento do material militar em Tancos, foram várias as declarações polémicas do ministro da Defesa, que nesta sexta-feira apresentou a demissão a António Costa

Desde o dia 28 de junho de 2017, data do desaparecimento do material militar de Tancos, foram várias as declarações de Azeredo Lopes sobre o assunto. Entre o espanto pelo sucedido, passando pela desvalorização e desconhecimento dos termos do assalto, o discurso do então ministro da Defesa foi marcado por uma série de contradições, que originaram várias críticas, sobretudo da oposição.

No dia do desaparecimento do material militar de Tancos, Azeredo Lopes, que se encontrava em Bruxelas para participar numa reunião da NATO, admitiu que o caso era “grave”, mas não tinha conhecimento ainda das proporções do furto. “É sempre grave quando instalações militares são objeto de ação criminosa. Mas como compreendem ainda não tenho a noção exata do material que realmente foi furtado”, disse na altura o ministro, remetendo para mais tarde novos esclarecimentos.

Nos dias seguintes, surgia no jornal “El Español” a lista do material roubado nos paióis de Tancos e, posteriormente, também na imprensa portuguesa. No domingo, Azeredo era informado das conclusões do relatório preliminar sobre o furto e um dia depois, em entrevista ao Jornal da Noite, na SIC, o governante desvalorizou em parte o incidente, negando que tivesse sido a maior quebra de segurança do século na UE, como defendera o tenente-coronel João Paulo Alvelos, do Observatório de Segurança, Criminalidade Organizada e Terrorismo.

Sem “menosprezar minimamente a gravidade dos factos”, garantiu Azeredo Lopes, “há quebras e falhas de segurança muito superiores. Nem é preciso evocar os trágicos acontecimentos que têm varrido o continente”, acrescentou.

No dia 4 de julho, o ministro da Defesa visitou com o Presidente da República os paióis de Tancos, mas remeteu-se ao silêncio sobre o assunto. No entanto, Marcelo Rebelo de Sousa disse que a visita foi “muito útil” e insistiu que era preciso esclarecer o caso, “doa a quem doer”. Na primeira vez que compareceu no parlamento, por causa do assalto em Tancos, Azeredo Lopes reafirmou na Comissão de Defesa que assumia a “responsabilidade política” pela situação, mas que não se demitia.

Entre os escassos esclarecimentos e as muitas dúvidas levantadas sobre o caso, aumentaram as contradições três meses depois após uma entrevista do ministro à TSF. “No limite, pode não ter havido furto nenhum. Como não temos prova visual nem testemunhal, nem confissão, por absurdo podemos admitir que o material já não existisse e que tivesse sido anunciado”, afirmou Azeredo Lopes à estação de rádio no dia 10 de setembro.

Nessa altura, o governante disse estar “naturalmente disponível para prestar mais esclarecimentos no Parlamento “se viesse a ser convidado para tal”, após a pressão do PSD e do CDS. Por diversas vezes, Azeredo negou-se a responder a questões dos deputados sobre o assalto, evitando mais incoerências e críticas da oposição.

Entretanto, ficou a saber-se que tinham sido encontradas armas, mas o Expresso avançou que havia ainda material perdido. Nessa altura, Azeredo tentou explicar o inexplicácel. “Não fui informado desta discrepância. Não fui provavelmente porque quem conduz a investigação entendeu que este assunto estava em segredo de Justiça”, justificou.

No passado dia 12 de setembro, o ministro voltou a afirmar na quarta ida ao parlamento que não tinha ainda certeza do material que tinha sido roubado nos paióis: “Continuo sem ter a certeza se falta material ou se é uma falha de inventário. Não digo nem que sim nem que não.”

Já na última semana, à margem da reunião dos ministros da Defesa da NATO, em Bruxelas, Azeredo Lopes reconheceu que o caso de Tancos lhe causa “embaraço”, mas negou ter conhecimento da encenação da polícia militar. “É totalmente falso que eu tenha tido conhecimento de qualquer encobrimento no processo dito da descoberta do material militar de Tancos”, assegurou.

“Eu soube deste encobrimento exatamente como todos os portugueses, ou seja, na altura em que a Polícia Judiciária tomou a iniciativa de fazer o que é do conhecimento público”, insistiu.

Garantiu ainda uma vez mais que não de demitia e manifestou-se também disponível para prestar esclarecimentos numa eventual comissão de inquérito ao furto das armas em Tancos.

Na terça-feira, à margem de uma reunião com a chefe da diplomacia europeia, Azeredo Lopes recusou comentar novamente o caso, apesar de o primeiro-ministro ter reafirmado ter confiança no ministro da Defesa.

No entanto, o fim desta novela política teria os dias contados. Esta sexta-feira, Azeredo Lopes apresentou o pedido de demissão ao chefe do Governo, voltou a negar numa carta ter tido conhecimento, “direto ou indireto, sobre uma operação em que o encobrimento se terá destinado a proteger o, ou um dos, autores do furto [em Tancos]”.

  • António Costa e Azeredo Lopes. De apoio em apoio até à demissão final

    Depois de ter afirmado a sua confiança política em Azeredo Lopes, esta semana no Parlamento o primeiro-ministro voltou a defender o titular da pasta da Defesa: “a informação que tenho é que não tinha conhecimento” [do documento sobre a alegada operação para a devolução das armas roubadas em Tancos]. O ministro, afinal, demitiu-se esta sexta-feira. António Costa ainda não comentou