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O adeus de Marcelo à “verdadeira vocação” da sua vida

TIAGO MIRANDA

Foi forte, a despedida. Um reitor a arrasar o Governo. Uma sala a abarrotar de alunos, amigos e admiradores. Um discurso que em 20 minutos deu a volta ao mundo dos últimos 40 anos. E um adeus emocionado à “verdadeira vocação” da sua vida. Marcelo Rebelo de Sousa deixa a Universidade agarrado ao seu sumário preferido: “Conversa amena com os rapazes”. É isso que o agora Presidente faz na rua

Dois ex-Presidentes da República - Ramalho Eanes e Jorge Sampaio (faltou Cavaco Silva). Altos dirigentes do PS e do PCP (faltaram os do PSD, cujo líder parlamentar se fez representar). E muitos alunos, amigos e admiradores do ex-professor Marcelo, hoje Presidente da República, que aguentou com indisfarçável emoção a entrada em cena na Aula Magna debaixo duma ovação monumental.

Marcelo Rebelo de Sousa foi igual a si próprio na "última lição formal" na Universidade de Lisboa, agora que está prestes a fazer 70 anos e, por isso, atinge a idade da "imperativa jubilação". Em 20 minutos em que falou a 100 à hora, deu a volta ao país, ao mundo e à Universidade dos últimos 50 anos, com um poder de síntese recorde. Arrumou o assunto por décadas. E confessou que mesmo quando teve que repartir a academia com outros "afazeres" (a política?), foi sempre na Universidade que encontrou a sua "casa forte, casa mater e último refúgio".

No fim desta "fascinante aventura", Marcelo assume que o ensino foi a sua grande paixão - "foi a vocação da minha vida". E que foi na Universidade que sempre bebeu inspiração para tudo o que fez na vida: "Tudo quanto fiz ou faço em tantos outros domínios fi-lo a partir dela e por causa dela". "Grato para sempre", Marcelo passou em revista os últimos 52 anos, quando ali entrou como aluno, e mostrou como "depois de cada incursão fora dela, à minha escola regressava sempre, sem exceção, jubiloso ou derrotado".

Chegou à Universidade "no ocaso da ditadura, tempo de encruzilhada entre o passado já fechado e o futuro sucessivamente adiado", mas "mesmo assim, um espaço de debate e crítica". Marcelo diz que foi aí que iniciou "o ativismo cívico que jamais abandonaria". A década seguinte seria marcada pelo "fervilhar do tempo futuro sem passado" e a Universidade foi "criadora", "mais progressista e mais social".

Mas o grande salto na Academia foi associado pelo Presidente da República/Professor a Mariano Gago, já nos anos 90, o ex-ministro socialista da Ciência cuja "visão" Marcelo enalteceu, convicto de que "nada seria como dantes". Mariano Gago, registe-se, tinha sido poucos minutos antes também evocado pelo reitor da Universidade que fez o contraponto entre o salto dado na altura e os recuos de que acusou com estrondo o atual Governo.

Depois da rutura dos anos 70, da estabilidade dos anos 80 e do salto qualitativo da Universidade na década de 90, Marcelo Rebelo de Sousa referiu-se às últimas duas décadas como um tempo de maior impasse na Academia, tempos "de crise e de medos" com impacto na Universidade "de difícil recuperação". Assumindo-se como "o último moikano no ativo", Marcelo sai de cena, sem dar garantias de que não volte para uma outra preleção de mestrado ou doutoramento. Disse-o há dias, "é que aqui na Faculdade até aos 80 anos é possível dar aulas a mestrandos e doutorandos".

Antes de saír de cena e "calado o académico", Marcelo Rebelo de Sousa quis terminar a aula como Presidente da República, mas aí foi mais lacónico, apenas expressou "esperança no futuro". Da educação, que lembrou ser "penhor de liberdade, de igualdade, solidariedade". E também "esperança no futuro de Portugal".

Do Professor para o Presidente, Marcelo transpôs a ligação às pessoas, "o falar das coisas" que também referiu como uma da suas grandes paixões. Ou não fosse, na sua opinião, o sumário ideal de uma aula aquele que ousou copiar a Sebastião da Gama: "Conversa amena com os rapazes". Na rua, a meio do seu primeiro mandato, a conversa continua.