Siga-nos

Perfil

Expresso

Política

Marcelo no adeus às aulas: as histórias de um professor excêntrico

Marcelo Rebelo de Sousa inspirou-se em Marcello Caetano: na primeira aula aos caloiros contava a história da Faculdade de Direito de Lisboa, de que se despede esta quinta-feira

Foto Alberto Frias

Rebelo de Sousa dá a sua última aula esta quinta-feira na faculdade onde entrou em 1966 como aluno. Começou a dar aulas em 1972. E dedicou uma vida àquela universidade: ensinar foi a sua vocação, mais que a política. Fez uma oral “gloriosa” a Ana Gomes. Teve Durão Barroso a vigiá-lo. Pagou obras do seu bolso. Roubou um valor na nota do irmão, só por ser irmão. Avaliou a futura namorada. Nunca deu um 19 numa licenciatura, apesar de ter sido essa a sua média. Eis a história do 'professor' Marcelo

Vítor Matos

Vítor Matos

Editor de política

A sala na Faculdade de Direito de Lisboa estava cheia naquele 7 de maio de 1984. Não admirava: Marcelo Rebelo de Sousa prestava provas para o segundo doutoramento a realizar-se na escola desde a Revolução (o primeiro tinha sido o do constitucionalista Jorge Miranda). Desde esse dia, passaram 34 anos. Esta quinta-feira à tarde, quando der a sua última aula na Faculdade de Direito de Lisboa, a Aula Magna da faculdade deve estar ainda mais a abarrotar de gente. Aquela escola tem na história nomes ilustres da política portuguesa, mas nenhum professor catedrático se jubilou na pele de Presidente da República. É um acontecimento.

Nos anos oitenta também foi. Marcelo dava aulas há 22 anos, mas ainda não era professor, muito menos “o professor”. Era jornalista, comentador, jurista e enfant terrible do PSD que fazia uma guerrilha terrível ao Bloco Central de Mota Pinto com a sua Nova Esperança. Aspirava à liderança. Leonor Beleza, a sua melhor amiga desde os tempos de estudante, era secretária de Estado da Segurança Social, mas para assistir ao doutoramento teve de sentar-se no chão e não nas cadeiras que ambos partilharam no final dos anos 60, porque não havia lugares. Baltazar Rebelo de Sousa e Maria das Neves tinham voado do Brasil para estar presentes no momento que sempre tinham sonhado para o filho. A namorada discreta, Rita Amaral Cabral, encostava-se a uma parede. José António Pinto Ribeiro assistia. A Nova Esperança também lá estava: Durão Barroso e Pedro Santana Lopes regressavam à faculdade onde um estivera na extrema-esquerda e o outro na extrema-direita (José Miguel Júdice e Nuno Morais Sarmento também faziam parte do grupo).

Marcelo Nuno cumpria o seu desígnio. Desde a infância que dizia que quando fosse grande queria ser catedrático de Direito como o seu quase padrinho Marcello Caetano, futuro presidente do Conselho e referência da escola. E ali estava ele para dar mais um passo nessa direção, para se doutorar mais tarde do que previra no seu plano de vida, embora fosse a idade natural para dar o passo: 35 anos.

A cerimónia desta quinta-feira, 20 de setembro, terá um significado especial para Marcelo Rebelo de Sousa. Com aquela última aula como professor universitário durante a abertura solene do ano letivo, fecha-se o ciclo de toda uma vida dedicada à Faculdade de Direito de Lisboa, que começou aos 18 anos. A sua primeira aula, com Marcello Caetano, foi no outono de 1966, quando ouviu do professor distante e amigo da família uma introdução à história da escola — um método que seguiria sempre depois nas suas primeiras aulas com turmas de caloiros.

José Carlos Carvalho

Como cristão, Marcelo acha que os seres humanos nascem para cumprir uma missão terrena e acredita na parábola dos talentos, em que cada um deve descobri-los e pô-los a render. Rebelo de Sousa costuma dizer que o seu talento fundamental é “ser um pedagogo”. Transmitir conhecimento aos outros, suscitar reflexões como professor e comunicador. Marcelo dirá sempre que a política é acessória na sua vida. Na essência, é um professor e a sua grande paixão é a faculdade

Doutoramento entre o Direito e a Ciência Política

Embora já desse aulas desde 1972, o doutoramento foi sendo atrasado pelas circunstâncias da vida e pelo facto de querer sempre fazer tudo ao mesmo tempo: a revolução e a fundação do PPD, a Constituinte, o Expresso e o jornalismo, a ida para o Governo, a política e a luta partidária no PSD foram-lhe adiando o objetivo central. Sempre hiper-ocupado, na fase de redação da teses, decidiu que só saindo de Lisboa e do seu escritório na Lapa, conseguia terminar o texto. Assim, desde o início de 1984 que para adiantar trabalho se refugiava em lugares como Póvoas das Quartas, perto de Oliveira do Hospital ou num velho hotel na Urgeiriça, perto de Viseu. O trabalho final ficou concluído com 676 páginas: “Os Partidos Políticos no Sistema Constitucional Português”, editado pela Livraria Cruz, de Braga. Estava no limbo entre o Direito Constitucional e a Ciência Política e analisava o sistema partidário desde 1820 até à Constituição de 1976 e revisão de 1982.

O evento era académico, como o desta quinta-feira, mas Marcelo era Marcelo. E se enchia salas nos tempos em que fazia orais às cadeiras da licenciatura, agora até lá estava a televisão. Só havia uma, a RTP em 1984. Agora estará lá o país mediático em peso para ouvir o Presidente 'pop star'. Há 34 anos, irritado, o presidente do júri teve de mandar três vezes o operador de câmara da televisão pública sair da sala. Os elementos do júri eram Marques Guedes, que tinha sido presidente do Tribunal Constitucional; Afonso Queiró, da Universidade de Coimbra; Diogo Freitas do Amaral, ex-colega de Governo; e Jorge Miranda, com quem trabalhara na Constituinte. Marcelo Rebelo de Sousa havia de responder com irreverência às críticas contundentes. Afonso Queiró discordava que a Constituição de 1933 não permitisse a formação de partidos. Mas seria aprovado por unanimidade com distinção e louvor.

Embora a opção mais evidente de indumentária pudesse ser o traje académico Marcelo Rebelo de Sousa apareceu de casaca. Era uma tradição da casa. Jorge Miranda, o único que estivera naquela situação no pós-revolução, também tinha ido de casaca. Sofia Galvão, ainda aluna de licenciatura, que mais tarde viria a ser sua assistente, acompanhou a prova e fixou aquele detalhe. “Fez uma tese que, sendo interessante, no meio académico alguns acusaram de ser mais jornalística do que jurídica”, haveria de recordar Sofia Galvão. “Ele havia de se vingar, fazendo a monografia das provas de agregação sobre o valor jurídico do ato inconstitucional, que é um livro importante e dogmático do ponto de vista da ciência jurídica.”

“Só fiz elogios à tese de doutoramento de Marcelo Rebelo de Sousa” — recordaria mais tarde Diogo Freitas do Amaral — pois não foi arguente. E das críticas que lhe fizeram os arguentes como o Prof. Afonso Queiró, Freitas não se lembra de que “tal crítica fosse feita”, de se considerar a tese menos dada ao Direito que à Ciência Política. “Aliás — continuaria Freitas do Amaral — se há aspetos consensuais adquiridos na escola de Direito público de Lisboa, desde o Prof. Marcello Caetano, um dos mais importantes é, justamente, o de que é praticamente impossível aprofundar o Direito Constitucional sem o contributo decisivo da Ciência Política.” Jorge Miranda havia de ter a mesma opinião: “Não é possível fazer Direito Constitucional sem uma boa base histórica em Ciência Política e ele conjugou muito bem os elementos jurídicos com a história dos partidos políticos.”

Rui Duarte Silva

Marcelo estava feliz. A Nova Esperança — Durão Barroso, Santana Lopes e José Miguel Júdice — havia de participar na comemoração do doutoramento do chefe de fila com um almoço no restaurante Quinta de São Vicente. A partir daí, o jurista que era presidente do Conselho de Administração do jornal "Semanário" passaria a ser tratado de modo mais formal como “professor” Marcelo Rebelo de Sousa.

Começou a dar aulas com os gorilas

A estreia de Marcelo Nuno a dar aulas foi num ano de contínua agitação estudantil. Em outubro de 1972, quando Marcelo iniciou a vida como assistente, o estudante maoísta Ribeiro dos Santos era morto pela PIDE no ISCEF, onde ainda estudava o seu irmão António Rebelo de Sousa. Na Faculdade de Direito, este é o ano em que aparecem os chamados “gorilas”, os seguranças contratados para controlar os estudantes de tendências revolucionárias e manter a academia sem sobressaltos, uma decisão politicamente ruinosa do ministro da Educação Nacional, Veiga Simão — um velho conhecido de Marcelo e da família Rebelo de Sousa por causa da sua relação com Moçambique.

A contestação chega ao ponto de o Citroën de Pedro Soares Martínez — um dos professores mais conservadores e à direita — ser incendiado. Rebelo de Sousa e os professores mais jovens não aceitam a medida: os assistentes eram todos contra os "gorilas", e tomaram uma posição. Para além de Marcelo, os assistentes eram Jorge Miranda, Rui Machete, Carvalho Fernandes, Ribeiro Mendes, Robin de Andrade, Germano Marques da Silva, Baião Nascimento, José António Veloso e Braga de Macedo.

Como assistente de Economia Política — uma cadeira de Soares Martínez, um dos professores menos amados pelos alunos — Marcelo sentava-se na mesa do professor ao lado de Jorge Braga de Macedo, ambos colaboradores do velho catedrático. Enquanto o professor lia as aulas, de cada vez que virava uma folha, 400 alunos viravam em uníssono a sua página. Contam-se histórias tornadas lendas da faculdade sobre Marcelo e Braga de Macedo a fazerem caretas nas costas do académico, para grande diversão das turmas. Enquanto o professor declamava matéria, Marcelo esbugalhava os olhos azuis e rodava o indicador junto à cabeça... Toda a gente ria, contam antigos alunos que dizem ter assistido a esses momentos. Nessa turma, estão sentados Pedro Rebelo de Sousa, seu irmão mais novo, e Francisco Motta Veiga, seu cunhado, alunos razoáveis. Quando Marcelo é escalado para os exames orais, pede escusa para não os fazer – embora uns anos mais tarde acabe por avaliar e prejudicar Pedro numa das últimas cadeiras do irmão. Já lá vamos.

Marcelo não examina os familiares, mas faz uma oral a Ana Gomes, uma das líderes maoístas da escola, que na época pertencia aos Comités de Luta Anti-Colonial. Ele pergunta-lhe sobre Keynes, mas a aluna estava a leste de todos os temas de teoria económica. Na estatística, escorrega. Ana Gomes recorda o episódio, mas garante que se preparou: “Para quem fosse ativo no MRPP, era questão de honra ser bom aluno. Eu estudei para o exame e lembro-me que correu bem.”

Correu até melhor do que devia. Mas só depois de Marcelo conduzir a oral para a história das doutrinas económicas e para o marxismo. Então, a aluna brilha e Martínez entusiasma-se, percorrendo vários autores inspirados em Marx, enquanto ela faz um exame glorioso. Quando discutem a nota, Martínez quer dar-lhe 14 e Marcelo 12, porque de Economia não sabia nada. Mas o catedrático insiste no 14. Ana Gomes havia de reconhecer: “Não estava à espera de 14 porque sabia que nós [os revolucionários] éramos taxados por baixo. Esperava no máximo um 13.” Se não fosse a ignorância de Soares Martínez, teria mesmo sido taxada por baixo. Um dia depois da oral, quando Marcelo e Martínez se cruzam na sala dos professores, o velho catedrático acorda para o mundo: “Dr. Rebelo de Sousa: fomos vigarizados, ela é maoísta, ela é maoísta…”

Rui Duarte Silva

Como assistente de André Gonçalves Pereira em Direito Internacional Público, aparece-lhe uma jovem chamada Rita Amaral Cabral. Marcelo tinha-lhe atribuído apenas 11 valores no primeiro exame escrito e, ao que parece, ela tinha razão em reclamar uma nota mais alta, alegando que a correção do professor estava errada. Por teimosia, Marcelo mantém o 11. Estava longe de imaginar a importância que aquela mulher viria a ter, até hoje, na sua vida…

Da segunda vez que se encontraram, Marcelo fazia as orais de uma cadeira de Economia, com instruções rigorosas do professor para não lhe dar mais do que 15 valores (que queria dar 16 ao melhor aluno da turma). Marcelo prepara um exame difícil. Mas Rita Amaral Cabral está preparadíssima para responder e alcança um excelente desempenho, escolhendo para tema de desenvolvimento a falta de controlo dos gestores, de John Kenett Galbraith. No fim da oral, Pinheiro Farinha — o juiz que presidia ao júri — acha que a rapariga merece 18. Marcelo diz que tem instruções para dar 15, portanto, mesmo desrespeitando as ordens superiores não vai além do 17.

Com Durão Barroso nas orais

Como em tudo no país, mas sobretudo nas universidades, há um antes e depois do 25 de abril. A revolução mudou tudo. Na Faculdade de Direito, foram precisos anos para recuperar e Marcelo teve um papel nisso. No mesmo dia em que Marcelo escreveu o comunicado com o anúncio da criação do PPD, a 6 de maio de 1974, os professores da Faculdade de Direito de Lisboa comprometidos com o regime foram saneados da universidade. Uma assembleia geral de alunos afastou professores como Marcello Caetano (entretanto exilado no Funchal antes de partir para o Brasil), Paulo Cunha, Inocêncio Galvão Telles, Raul Ventura, ou Manuel Gomes da Silva. Numa primeira fase, o PCP domina a escola através da UEC — União de Estudantes Comunistas. Depois, será o MRPP a comandar a universidade revolucionária, com a participação de estudantes como Durão Barroso, Ana Gomes ou Maria José Morgado.

Com os cursos paralisados, é montado um plano de emergência com aulas no verão. Numa fase inicial, as passagens são administrativas. A faculdade está ao rubro. Ao mesmo tempo que desenvolve a implantação do PPD no terreno — tem a responsabilidade pelo sul do país, os bastiões comunistas — Marcelo fica com a responsabilidade de ministrar os cursos intensivos de verão das cadeiras cujos professores tinham sido saneados. Ensina as chamadas cadeiras sumaríssimas. Dá Economia e acrescenta-lhes disciplinas que nunca tinha lecionado, como Finanças e Direito Fiscal. É tudo feito à pressa, resumindo a matéria de um ano inteiro em apenas dois meses. A circunstância obriga-o a estudar Finanças e Direito Fiscal, pelo menos o mínimo ético para apresentar as matérias.

As regras das antigas e solenes provas orais de fato e gravata transformam-se radicalmente: não havendo professores, são feitas por assistentes; não havendo juízes a presidir ao júri, passa a ser um aluno do ano seguinte ao do examinado a fiscalizar a prestação do examinador. Quem calha sistematicamente a Marcelo no júri como aluno é Durão Barroso, que ele não conhece, de cabelo comprido e vestido com uma camisa sem gola. O voto do professor desempata a nota, mas se o aluno não concordar com as avaliações ou achar que há uma injustiça, a nota pode ser levada ao conselho de turma. Apesar de José Manuel Durão Barroso ser então um temível e palavroso militante do MRPP, Marcelo não se queixa do futuro companheiro de partido. O estudante radical terá concordado sempre com as avaliações do assistente.

Rui Duarte Silva

Embora ambicionasse evoluir depressa na carreira académica para depois fazer política, a revolução arrasta-o. O doutoramento só será concluído uma década depois. As prioridades invertem-se. A política é número um, o Expresso vem a seguir, a faculdade salta para as calendas. O ambiente revolucionário e a velocidade dos acontecimentos arrastam Marcelo. Mais um desgosto para os pais, que além de fugirem para o Brasil, vêm Marcelo a não apostar numa vida sólida na academia. Mas naqueles anos não havia nada que fosse sólido. O jovem Rebelo de Sousa, então com 25 anos, vive num limbo de incertezas: se o PCP toma conta do poder, poderá ser obrigado a abandonar o país e recomeçar a vida noutro lugar.

O professor excêntrico que vai à discoteca com os alunos

A diferença dos anos 70 para os anos 90 é total. Uma das únicas constantes é a excentricidade de Marcelo Rebelo de Sousa como professor. Em 1992, com a política reduzida à vereação na Câmara de Lisboa e a colaborações irregulares na comunicação social, Marcelo dedica-se à faculdade. Entretanto, um dos irmãos Pinto Barbosa tinha-o convidado para ensinar na Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa: há uma cadeira de Direito Comunitário e outra de Ciência Política, poderia ser ele a dar as duas. Marcelo tem o coração na FDL, gosta da Católica como de uma família, mas havia de achar a Nova a melhor de todas em termos de organização.

Como professor, Rebelo de Sousa é um académico com um comportamento fora do padrão – chega a dar uma aula num court de ténis – e de quem, por norma, os alunos gostam. Todos os anos organiza ou participa nos jantares das suas turmas. Começara a fazê-lo nos anos 70, mas na década seguinte o número de estudantes que adere aumenta, jantam na Churrasqueira do Campo Grande, na Real Fábrica no Largo do Rato, no David da Buraca, na Casa do Alentejo, na Portugália da Almirante Reis. O professor chega a organizar jantares conjuntos entre os betos da Católica engravatados com o pessoal da Clássica mais à vontade. Cada um pagava no fim, era o combinado, mas o professor frequentemente ficava com a carteira mais leve, como daquela vez, em 1996: sempre a pensar em política, mandou instalar telas gigantes na Real Fábrica, para os jovens assistirem ao debate presidencial entre Jorge Sampaio e Cavaco Silva. Os dois andares estavam ocupados, eram mais de 300 participantes... mas, no fim, umas dezenas desapareceram sem pagar e o Marcelo teve de assumir a despesa.

A seguir aos jantares, divide-se pelos estudantes cujas diferenças tribais não permitem partilhar a mesma discoteca: os da Católica iam para discotecas mais queques, outros para o Plateau, o Kremlin ou a Kapital. Marcelo percorre as capelinhas com agrado e paga copos aos alunos.

Enquanto foi presidente do Conselho Diretivo da FDL, teve de conviver com várias listas estudantis de orientações antagónicas, do CDS a alunos próximos do anarquismo. Nesses anos, o batizou os anfiteatros com o nome de vários professores mais antigos. Quando não havia verbas, pagou obras na faculdade com o seu dinheiro.

Na prática do ensino, os estudantes mais novos ficavam fascinados por aquela figura célebre, cheia de histórias e originalidades, um aperitivo para continuarem a marcar presença nas aulas. Desde o início dos anos 80 que Marcelo era “um professor muito especial aos olhos dos alunos do primeiro ano”, descreveria Sofia Galvão, que foi aluna e assistente, com quem escreveria, em 1999, o manual de Introdução ao Direito. No primeiro ano, as turmas eram tão grandes que tinham de ser divididas ao meio, metade para Jorge Miranda, até à letra jota, e para Marcelo o resto do alfabeto.

Nuno Botelho

Quanto a notas, é conhecido por ser duro mas justo. No entanto, o sobredotado que teve 19 de média no curso, a quem o mítico Marcello Caetano deu 19 em Direito Administrativo, nunca atribuiu a mesma nota em toda a sua carreira académica a um aluno de licenciatura: deu muitos 18, mas nenhum 19 ou 20, reconheceria Marcelo. Avaliou milhares de alunos ao longo de 40 anos, conheceu outros sobredotados, mas nunca considerou que algum pudesse chegar àquele nível.

Para os assistentes, tem uma vantagem por comparação a qualquer outro professor, porque os liberta de corrigir todas as provas escritas. Na faculdade corre a lenda de que, na realidade, Marcelo não corrige os pontos, até pela rapidez com que aparece com os resultados. Ninguém corrige exames à sua velocidade: “No meu ano, 600 ou 700 pessoas em duas cadeiras diferentes fizeram o exame na quinta-feira e na terça-feira estava tudo corrigido”, recorda um aluno mais recente da Faculdade de Direito.

Marcelo achava ser dos poucos professores que viam todos os testes e exames escritos com prazer. Para publicar as notas tão depressa, fazia diretas sucessivas, porque, explicava, “quanto maior for a distância temporal entre a correção dos primeiros pontos e a dos últimos, maior a probabilidade de injustiça relativa”.

A bola enganada na agregação
A evolução na vida académica teve um momento decisivo em 1987, três anos depois do doutoramento. Estava no Alentejo, em Serpa, a visitar a casa da família do conde de Ficalho, com um grupo que incluía Freitas do Amaral, quando decidiu começar a trabalhar para as provas de agregação. O fundador do CDS perguntou-lhe:

– Então, academicamente, como é?

– Olhe, tomei hoje a decisão e vou começar a trabalhar na minha monografia de agregação… — respondeu Marcelo.

Jorge Miranda tinha realizado as provas em 1986 e Rebelo de Sousa era o terceiro na fila de espera. Passou nove meses a trabalhar, aproveitando as visitas a Munique a Rita Amaral Cabral — onde esta se encontrava também a fazer investigações. Enquanto ela trabalhava em Direito Privado, ele dedicava-se ao Direito Público, numa ótima biblioteca, com tudo o que havia de fundamental no direito alemão, impossível de encontrar em Portugal.

A agregação foi consumada em 1988, com uma tese sobre “O valor jurídico do ato inconstitucional”. Compreendia ainda duas provas adicionais: o relatório de regência de uma cadeira, que Marcelo fez sobre Direito Constitucional I; e uma lição sobre A Natureza Jurídica da Universidade, para mostrar as suas qualidades pedagógicas, um tema que se enquadrava no Direito Administrativo.

Rui Ochôa

“Na agregação houve um único incidente”, recordaria Jorge Miranda mais tarde. “A votação do júri era secreta e apareceu uma bola preta, ou seja, um voto contra, e as pessoas acharam estranho e pediram ao reitor para repetir. Supõe-se que tivesse sido um professor mais velho que se enganou.” A seguir repetiu-se a votação e a aprovação foi por unanimidade, em todo o caso bastava a maioria. “Temos tido votações à tangente, mas era desagradável, tendo em conta a qualidade dele”, diria Miranda.


Menos um ponto na oral ao irmão: só por ser irmão
Nos anos pós-revolucionários, o assistente Marcelo Rebelo de Sousa reencontra alunos como o seu irmão Pedro ou o então cunhado Francisco Motta Veiga. No final de um ano letivo, no dia 30 de julho, dia de anos da mãe, Marcelo faz uma oral ao seu próprio irmão. Pedro Rebelo de Sousa tinha realizado um trabalho de grupo para a cadeira, e tinha contribuído mais do que os colegas para o resultado final, pelo que alimentava expectativas de ter uma nota melhor. Marcelo acha que o irmão faz um bom exame e que merece 16 valores, mas, no afã de parecer que não favorece a família — uma vez que tinha por regra não avaliar familiares —, dá-lhe apenas 15 valores.

Pedro Rebelo de Sousa recorda-se de abordar Marcelo e de lhe perguntar:

– Não compreendo a nota, professor, por que é que não…

– O senhor merece 16, mas como é um Rebelo de Sousa dou-lhe 15 – responde-lhe o assistente.

Pedro cala-se e sai. Está licenciado. É a última cadeira do curso. Dez anos mais tarde, já a viver em Nova Iorque, o advogado dirá ao irmão mais velho que aquele valor a menos foi responsável por lhe baixar a média do curso. Marcelo não tinha noção das notas de Pedro. Com a educação que tinham recebido em casa, também não seria normal Pedro dizer a Marcelo que precisava da nota para manter a média. Mas se o irmão lhe tivesse dado o 16, seria justo. O Rebelo de Sousa achará que o irmão lhe fez uma injustiça.

Por esses anos de estabilização da democracia, surge a ideia entre os assistentes, de eleger uma comissão de planificação eleita pelos alunos para reorganizar a faculdade, com o objetivo não revelado de correr com o MRPP. No início de um ano letivo é formada a comissão, que já inclui professores saneados: Isabel Magalhães Colaço, João Castro Mendes, Paulo Pitta e Cunha, António Sousa Franco e os assistentes Miguel Galvão Telles, Sousa Brito, Pereira de Almeida e Marcelo Rebelo de Sousa. Mota Pinto desce de Coimbra para ajudar. São também acrescentados dois nomes: Vítor Constâncio, por causa da componente económica, e Manuel Lucena, que ainda está a acabar o curso.

A comissão é apresentada ao ministro da Educação, o socialista Mário Sottomayor Cardia, velho amigo de Marcelo dos tempos de estudante (quando Cardia era comunista e chefe de redação da Seara Nova). Ele acha a ideia boa, mas um ministro não pode aceitar que a comissão de reestruturação de uma faculdade seja eleita em Reunião Geral de Alunos. Pega então na lista e nomeia ele próprio a comissão de reestruturação da FDL, deixando cair os nomes de Vítor Constâncio e de Manuel Lucena.

Alberto Frias

A comissão refaz o curso de Direito, acaba com o ensino marxista, e Marcelo sente-se de vida cheia outra vez, preenchido pela faculdade. Entretanto, muda para a área da sua verdadeira vocação: deixa as cadeiras económicas e aposta no Direito Constitucional e no Administrativo. Participa na comissão de reestruturação do curso e nos órgãos de gestão provisória da escola. Vai para o conselho diretivo e é eleito para a assembleia de representantes, onde volta a encontrar Rita Amaral Cabral, que faz parte da sensibilidade mais à direita, embora não seja militante do CDS. Um dia, já nos anos 80, saem juntos e iniciam uma relação que dura até hoje. Só a vida de Marcelo na faculdade dava um livro. A cerimónia desta quinta-feira é só a última aula. De alguma maneira continuará ligado à sua casa de sempre.

Vítor Matos é autor da biografia de Marcelo Rebelo de Sousa e este texto reproduz ou adapta partes do livro. As citações que constam no texto foram feitas ao autor no âmbito da realização da biografia