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Grupo de Arraiolos. “Quem sofre a desigualdade todos os dias não vai lembrar-se da democracia como primeira prioridade”

Marcelo Rebelo de Sousa com o Presidente da Letónia, Raimonds Vejonis, e a mulher, Iveta Vejone

Mateusz Wlodarczyk/Getty

Da Cimeira do grupo de Arraiolos saem vários recados para os líderes europeus. Em vésperas de eleições europeias, os chefes de Estado não-executivos falam do combate ao populismo. Alguns terão de aplicar a receita em casa

À volta da mesa, no Palácio letão de Rundale, estão 12 presidentes da União Europeia sem acesso às cimeiras de líderes em Bruxelas. Mas o “grupo de Arraiolos”, a que pertencem, destina-se, precisamente, a tentar contornar essa ausência de poder de decisão. Numa altura pré-eleitoral, de ameaças eurocéticas e de adeus ao Reino Unido, os sesu elementos ultrapassam as divergências e saem em defesa de um projeto comum.

"Temos de defender a União Europeia", diz aos jornalistas Prokópis Pavlópoulos. O presidente grego toca no braço de Marcelo Rebelo de Sousa, sentado ao lado dele na conferência de imprensa, e elogia a "visão europeia" do homólogo português. Ambos estão de acordo em que é preciso haver "mais Europa", numa altura em que se teme que as próximas eleições europeias abram as portas do Parlamento Europeu a um número ainda maior de deputados eurocéticos.

Mas, na Letónia, Marcelo não encontrou descrentes entre os chefes de Estado. "(Eles) sentem que nós, juntos, apesar das diferenças, fazemos mais do que separados e essa é uma grande lição", afirmou, mostrando-se surpreendido num encontro que junta presidentes da esquerda à direita, do norte ao sul. "Eu próprio fiquei surpreendido pela força do discurso nesse sentido", continua.

Os presidentes da Letónia e de Malta concordam com Marcelo Rebelo de Sousa, mas alertam para os "tempos de incertezas e ansiedades" que alimentam o euroceticismo. "As pessoas que sofrem a desigualdade todos os dias não vão lembrar-se da democracia como a primeira prioridade", diz Marie Louise Coleiro Preca. "Vão lembrar-se que precisam de comida, de trabalho e de uma vida digna". A presidente maltesa defende que é preciso dar à coesão social a mesma importância que se dá às questões económicas, sob pena de dar ainda mais espaço aos chamados "populistas".

Dizer "não passarão" não chega

No encontro de dois dias, primeiro no Palácio de Rundale e depois no Castelo de Riga, esteve o Presidente Italiano. Em junho, o democrata Sergio Mattarella acabou por dar posse a um governo formado pelos nacionalistas da Liga e os eurocéticos do Movimento 5 Estrelas. Nos últimos dois meses tem tentado ser contrapeso, através de um discurso europeísta, face a um executivo empenhado num braço-de-ferro com Bruxelas por causa das migrações.

Outro participante de Arraiolos é o austríaco Alexander Van der Bellen, que no final de 2016 , com o apoio dos Verdes, derrotou o candidato da extrema-direita nas eleições presidenciais. Mas, um ano depois, acabaria por ver os nacionalistas do FPO entrarem na coligação de governo liderada pelo conservador Sebastian Kurz. Van der Bellen tem desdramatizado a presença da extrema-direita no poder, mas mostra-se atento.

"A (UE) é um projeto que muitos na Europa não estão a perceber, ou estão a criticar ou estão a atacar", diz Marcelo, assumindo a questão como "uma preocupação comum". Mas quer o presidente português, quer o colega grego insistem que não basta dizer "que esses chamados populistas, esses hipernacionalistas, esses xenófobos não passarão" no voto dos europeus.

Pavlópoulos, tal como Marcelo, insistem na antecipação de respostas aos problemas económicos e no que está por fazer para garantir, por exemplo, segurança e emprego. O Presidente português diz que na Letónia todos concordaram que "é preciso criar condições para que não haja espaço para essas correntes e para essas posições ditas populistas ou radicais".

Portugal a salvo dos populismos?

O caso português não parece preocupar Marcelo. Para o presidente, o país tem travado o crescimento dos populismos que se multiplicam noutros estados-membros, graças a um "sistema político muito flexível", com capacidade de renovação dentro dos partidos; e a um "poder local que, com todos os seus problemas, é muito próximo das populações, e a um tecido social de instituições de solidariedade que em tempo de crise funcionam".

Mas "há fragilidades", admite também, e a nove meses das eleições para o Parlamento Europeu é preciso estar alerta. Por isso remata que "mais vale prevenir do que remediar".

Os chefes de Estado do grupo de Arraiolos voltam a reunir-se no próximo ano na Grécia. Em 2020, a reunião volta a realizar-se em Portugal, mas desta vez ocorrerá em Lisboa.