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“Tiro no pé” e “descaraterização ideológica”. Críticas a Rio já chegaram à direção do PSD

José Carlos Carvalho

Regular a especulação imobiliária, ainda vá. Mas colar-se ao Bloco de Esquerda, nunca. O apoio de Rio à "taxa Robles" fez alastrar as críticas ao líder do PSD, dos seus opositores internos aos seus vice-presidentes. Antes do Conselho Nacional, a Comissão Política também foi dura para Rui Rio

Nuno Morais Sarmento falou de "tiro no pé". Castro Almeida, de "descaraterização ideológica". Mas o desconforto foi geral. Tirando Elina Fraga e Salvador Malheiro, todos os vice-presidentes de Rui Rio se demarcaram em tom mais ou menos crítico da forma como o líder do PSD se deixou colar à polémica "taxa Robles", lançada pelo Bloco de Esquerda.

Foi quarta-feira à tarde, na reunião da Comissão Política do partido que antecedeu o Conselho Nacional da noite. Rui Rio chegou disposto a abordar o tema que há 24 horas dominava as atenções dos media: a sua frase de que a ideia de o BE taxar as mais valias imobiliárias "não é assim tão disparatada". E depois de explicar que não tinha tido oportunidade de falar previamente com os membros da direção, pediu-lhes que dissessem o que pensavam. Rio queria ouvir-lhes a opinião.

O que ouviu não foi pêra doce. Apenas Elina Fraga e Salvador Malheiro defenderam o líder. De resto, todos os membros do seu núcleo duro manifestaram profundo desagrado com a colagem do PSD ao BE numa questão fiscal que ao pretender taxar mais os lucros imobiliários é conotada com a esquerda pura e dura. Ao que o Expresso apurou, as duas intervenções mais ásperas foram precisamente dos dois dois vice-presidentes que há mais anos estão próximo do atual líder do partido.

Morais Sarmento e Castro Almeida não pouparam nas palavras. E se o primeiro aconselhou Rio a demarcar-se rapidamente do Bloco de Esquerda e a falar sobre os problemas concretos dos portugueses, o segundo foi mais longe: só a ideia de penalizar investidores é contra-natura e uma "descaracterização ideológica" do PSD.

Com maior ou menor violência, as críticas foram quase generalizadas entre os membros da Comissão Política. Álvaro Almaro, líder dos autarcas sociais-democratas, Margarida Balseiro Lopes, presidente da JSD, André Coelho Lima ou Maria da Graça Carvalho, ambos vogais da direção nacional, fizerem reparos à estratégia gizada por Rio. Até David Justino, coordenador do Conselho Estratégico Nacional e vice-presidente do PSD, questionou, de forma mais contida, a forma como o líder geriu todo o processo.

Foi o presidente do PSD a tomar a iniciativa de ouvir o seu núcleo duro. Inicialmente, Rio terá reconhecido que não comunicou a ideia de forma hábil, colando-se em demasia ao Bloco de Esquerda. Mas, à medida que as críticas foram subindo de tom, o líder social-democrata começou a demonstrar alguma frustração, segundo apurou o Expresso junto de fontes que estiveram nessa reunião.

A verdade é que Rio acabou por seguir o conselho de Morais Sarmento: ainda antes de entrar para o Conselho Nacional, fez questão de fazer declarações à TVI, para esclarecer que a proposta do PSD contra a especulação imobiliária era muito diferente da do Bloco.

Minutos depois, à entrada para o Centro de Congressos das Caldas da Rainha, repetiria todo o discurso à restante comunicação social: a "Taxa Robles" é uma coisa, o "Imposto Rio" é outra. Ou seja, uma coisa é criar uma nova taxa, como pretende o Bloco, outra coisa é agravar a taxa do IRS já existente sobre mais-valias, penalizando aqueles que vendem imóveis num curto espaço de tempo, como repetiu à exaustão Rui Rio.

A vontade de se afastar dos bloquistas foi tal, que o líder social-democrata até antecipou uma demarcação virtual: o Bloco ainda “não colocou nenhuma proposta em cima da mesa”, mas, quando o fizer, estará “provavelmente nos antípodas do que o PSD defende”. Tarde demais?