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Noite tensa no PSD. Críticos de Rio vão a jogo e tentam isolar o líder, direção desvaloriza

CARLOS BARROSO/LUSA

O líder social-democrata foi muito criticado na reunião do Conselho Nacional do PSD. Hugo Soares, antigo líder parlamentar, chegou a dizer que não aceita “lições de militância ou de moral de ninguém”. Mas Rio deixou críticos sem resposta

“Um general sem soldados”. Um dirigente máximo que convida militantes a saírem do partido, quando ele próprio traiu o PSD em batalhas recentes. Um líder que persegue adversários internos, sob o lema de correr com os prevaricadores, e que se rodeia de maus exemplos no seu núcleo duro. Um presidente que ganhou o partido por pouco e que está cada vez mais isolado. Rui Rio esteve nas Caldas da Rainha, para um Conselho Nacional que se antecipava tenso, e não foi poupado pela maioria dos militantes que pediu a palavra para intervir. O líder social-democrata ouviu e fez o que já tinha prometido fazer: ignorou, desvalorizou e esvaziou. Mas o desconforto e a tensão eram evidentes: a reunião do órgão máximo entre congressos do partido foi tudo menos um passeio para Rio.

Na noite de quarta-feira, as facas iam sendo afiadas à medida que as horas passavam. O ambiente já estava toldado à partida: na TSF, Luís Montenegro tinha acusado Rui Rio de provocar gratuitamente os que dele discordavam; à chegada, o líder do PSD disse estar “cheiinho de medo” dos recados dos seus adversários.

De facto, houve críticas — e duras. Nos bastidores, todas as versões que circulavam apontavam no mesmo sentido: “Rio foi arrasado”; “não há memória de uma reunião assim”, “nem os fiéis o apoiaram”. Não terá sido exatamente assim, mas Rio acabou efetivamente isolado. Dos nove militantes que pediram a palavra, apenas dois defenderam Rui Rio: Alberto Machado, recém-eleito líder da distrital do PSD/Porto e homem de confiança do presidente; e Rodrigo Gonçalves, ex-líder da concelhia do PSD/Lisboa e um dos homens fortes do aparelho social-democrata — sendo que Gonçalves, que apoiou Rio nas últimas diretas, chegou a admitir que era preciso uma oposição “mais forte ao PS”.

Num Conselho Nacional sem os barões de outrora e com ausências de peso, acabou por ser Hugo Soares a sintetizar todas as críticas que têm sido dirigidas ao presidente do partido nos últimos meses. O ex-líder parlamentar do PSD, que Rui Rio dispensou numa rescisão nada amigável, acusou o líder social-democrata de estar a falhar praticamente em toda a linha. Na questão da “Taxa Robles”, Rio pôs-se ao lado do Bloco e à esquerda do PS, numa medida que está nos antípodas daquilo que é, em teoria, a orientação ideológica do PSD. Na recondução ou não de Joana Marques Vidal, Rio desmentiu o seu secretário-geral no próprio dia em que José Silvano defendeu a permanência da Procuradora-Geral da República no cargo e ignorou os apelos de figuras como Paulo Rangel, Miguel Poiares Maduro, José Eduardo Martins e de vários deputados do PSD. Ou na forma como está a perseguir os candidatos do partido às últimas autárquicas que gastaram além da conta, num gesto que o Hugo Soares (e outros sociais-democratas) considera ser desleal. O ataque, neste ponto, foi quase pessoal: o ex-líder parlamentar do PSD acusou Rio de entregar a Hugo Carneiro, secretário-geral-adjunto e delfim do antigo presidente da Câmara do Porto, a tarefa de pressionar e “dar lições de moral aos autarcas do PSD”, quando, em 2013, o mesmo Hugo Carneiro esteve com Rui Moreira na disputa contra Luís Filipe Menezes, com o alto patrocínio de Rio.

Os ataques de Hugo Soares não ficaram por aqui. De acordo com o que o Expresso apurou junto de vários conselheiros que participaram na reunião, o antigo líder da JSD questionou mais uma vez a estratégia de aproximação do PSD ao PS e desafiou Rui Rio a corrigir os ataques que fez aos críticos da atual liderança. “Não recebo lições de militância de ninguém. Nos últimos seis anos, estive na linha da frente do combate político, a salvar o país e a combater o PS, mas nunca disse que aqueles militantes que todos os dias criticavam o Governo e o PSD eram a muleta do PS”, terá dito Hugo Soares.

Uma intervenção muito dura e em tudo semelhante à de Virgínia Estorninho. A histórica militante social-democrata acusou Rio de querer ser “um general sem tropas”, hostilizando abertamente as estruturas do partidos. Mais: de atacar candidatos que excederem os limites financeiros nas campanha autárquicas e, ao mesmo tempo, ter a seu lado dirigentes partidários que fizeram exatamente o mesmo. Estorninho foi ainda mais longe: o mesmo Rio que apoiou Rui Moreira contra Luís Filipe Menezes e que promoveu ataques contra Pedro Passos Coelho, vem agora exigir lealdade absoluta aos militantes do PSD, condenou a militante social-democrata. Tudo somado, Virgínia Estorninho deixou uma sentença: se nas últimas diretas houve 46% de militantes que não votaram em Rio, depois dos últimos meses, “serão agora muitos mais”.

Noutra fase do debate, também José Matos Rosa foi a jogo e para responder diretamente ao presidente do PSD, que acusou a anterior direção de ter deixado as contas do partido em estado de sítio. “Não admito que ponham em causa a minha seriedade. Não sou mais sério do que os outros, mas não há ninguém mais sério do que ninguém”, terá afirmado o ex-secretário-geral do PSD. Três intervenções que resumem bem o estado de espírito de uma parte do partido.

Rio reage com frieza e esconde trunfo

O líder do PSD deixou todos os críticos sem resposta, limitando-se a responder às perguntas concretas que lhe foram colocadas e reservando longos minutos para explicar a validade da proposta que o partido vai apresentar para combater a especulação imobiliária — que não será uma nova taxa, como pretende o Bloco, mas sim uma diferenciação da taxa do imposto IRS sobre as mais-valias, que já existe atualmente, e que, como pretende o presidente social-democrata, deve passar a penalizar quem vende uma casa num curto espaço temporal e privilegiar quem mantém o imóvel por muito tempo.

Quanto ao resto, nem uma palavra de Rui Rio — até porque o líder social-democrata continua a insistir que as declarações que lhe são atribuídas foram deturpadas e que nunca convidou qualquer crítico a deixar o partido. No final do Conselho Nacional, seria Paulo Mota Pinto a resumir o estado de espírito do núcleo duro do líder. “O PSD é um partido plural, houve intervenções mais críticas, outras de alerta, outras de defesa. Saio plenamente satisfeito. Não penso que o PSD saia dividido, muito menos mais dividido deste Conselho Nacional", garantiu o presidente do Conselho Nacional, aos jornalistas.

Com ou sem divisão no partido, Rio acabou por esconder o trunfo que pretende usar para marcar esta rentrée política: o pacote de medidas que o PSD vai apresentar para a Saúde. O documento estratégico tornou-se controverso antes de o ser, com vários dirigentes sociais-democratas a sugerirem que o partido se preparava para cometer um gigantesco erro político ao apresentar um programa altamente liberal e de maior apoio aos privados. A polémica foi tal, que terá levado dois membros do núcleo duro de Rio a ameaçarem com a demissão. A direção do partido desmentiu sempre essas notícias, mas decidiu não entregar a versão final do documento aos conselheiros nacionais antes de a apresentar formalmente nas Caldas da Rainha.

A expectativa era grande, portanto. Mas durou pouco. Rio quase não falou das medidas e entregou a missão Luís Filipe Pereira, coordenador do Conselho Estratégico Nacional do PSD para esta área. O dirigente social-democrata apresentou um 'powerpoint' sobre o tema e, mais uma vez, não foram distribuídos documentos escritos aos conselheiros, nem à comunicação social — não fosse haver fugas de informação. O texto só será formalmente divulgado esta quinta-feira, numa conferência de imprensa agendada para 17h00, na sede nacional do partido, em Lisboa. Só aí, os opositores terão a possibilidade de organizar uma resistência formal. Até lá, Rio controlará o calendário e a agenda política.