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O dia de todas as más notícias para os professores. “O objetivo é manipular as pessoas. Nem sequer é original”

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Aumentos mais pesados. Carreiras mais caras. O dia foi de notícias negativas para os docentes, numa altura em que o Governo avança com uma solução unilateral para recontar os anos de serviço congelados. Para os sindicatos, a estratégia é óbvia: virar a opinião pública contra os professores. E, se possível, deixar o problema nas mãos do próximo Executivo

Números negativos na imprensa, dados inconvenientes cedidos pelo Governo e até um confronto improvisado, mas direto, com o primeiro-ministro. Não foi um dia fácil para os professores. Em menos de 24 horas, as notícias que podem pintar a classe como a má da fita junto da opinião pública sucederam-se, numa altura em que os docentes exigem que os anos de serviço congelados sejam contados para efeitos de progressão na carreira e o Governo insiste que não vai ceder. Para os sindicatos, tudo isto é concertado, numa estratégia com intenção clara: “Faz parte destes processos lançar números que possam confundir as pessoas”. Objetivo: “Manipular as pessoas”, idealmente empurrando todo este processo para o próximo Governo.

A primeira notícia a colocar os professores sob estado de alerta saiu na edição desta terça-feira do “Jornal de Negócios” e fez manchete: “Professores pesam 25% nos gastos com progressões”. Isto é, mesmo sem contar com a reivindicação dos docentes - ter em conta os anos que ficaram para trás (mais de nove) durante o período de congelamento das carreiras - só o facto de o relógio ser de novo posto a contar, coisa que vai acontecer em todas as carreiras da função pública, vai sair mais caro na área da docência. Segundo o jornal adiantava, com base em números fornecidos pelo ministério das Finanças, cada professor terá um aumento salarial implícito de 3,6%, comparado com os 3,1% para o resto da função pública.

Por outro lado, foi também esta terça-feira divulgado o relatório Education at Glace, da OCDE, que pintava um retrato também pouco favorável às aspirações dos professores: os docentes portugueses, concluía-se, são uma classe envelhecida e com salários mais altos do que os auferidos pela média dos trabalhadores que também têm qualificações superiores, ao contrário do que acontece na maioria dos países.

Tiago Miranda

O problema, argumentam Mário Nogueira, secretário-geral da FENPROF, e João Dias da Silva, líder da Federação Nacional da Educação (FNE), é que estes números não mostram o cenário completo, retratando os professores como uma classe privilegiada e levando a opinião pública a colocar-se contra os docentes. É que “a realidade é muito diferente das estatísticas”, garantem em declarações ao Expresso. Confrontado com o estudo da OCDE, João Dias da Silva dá exemplos: “O relatório também diz que os professores portugueses ganham menos do que os colegas de outros países. E também diz que é uma classe envelhecida - ora se a maior parte está em patamares mais avançados da carreira, o peso salarial será maior. Um professor em início de carreira ganha 1200 euros brutos e muitas vezes nem sequer tem horário completo”.

Também Mário Nogueira defende que é preciso desmontar as notícias que saíram nas últimas horas: o facto de os professores, compondo o maior grupo da função pública e estando tão envelhecido, pesarem 25% nos gastos com os descongelamentos é “absolutamente normal”. “Quando vi a notícia até fiquei espantado: só isso?”.

A conclusão é, para os dois dirigentes sindicais, clara: os números estão a ser apresentados de forma enviesada para enfraquecer a posição negocial dos professores. “Enquanto esta matéria estiver em discussão, vão sair outras notícias. O objetivo é manipular as pessoas. Nem sequer é original!”, afirma Mário Nogueira. Também Dias da Silva lamenta que se tente “dizer que os professores são muito bem pagos e trabalham muito pouco”, quando esta é apenas “uma leitura das estatísticas”.

Nuno Botelho

As suspeitas dos docentes chegam numa altura em que há um pico de tensão entre professores e Governo: das negociações da semana passada não saíram nenhuns avanços, pelo que o Executivo vai avançar num decreto-lei com a recontagem de dois anos e nove meses de serviço, e não com os nove anos e dez meses reivindicados pelos docentes. Uma decisão que a FNE censura e que discutirá numa reunião do seu secretariado nacional esta quarta-feira, estando a ponderar pedir uma negociação suplementar com o Executivo, adianta Dias da Silva ao Expresso.

Já Mário Nogueira, que critica a falta de “seriedade negocial” do Governo - segundo o sindicalista, só soube pela rádio, depois de deixar a reunião da semana passada, que o Executivo decidira unilateralmente avançar com a recuperação de apenas dois anos e nove meses - teve a oportunidade de discutir o assunto diretamente com o primeiro-ministro esta terça-feira, quando o encontrou em Paredes de Coura, durante um protesto. E encetou um debate de improviso, captado pelas televisões. Criticou Mário Centeno, que por vezes parece “Deus”. Costa respondeu que o Governo não é só “dos professores”. Só concordaram em que “não há acordo possível”.

Questionado pelo Governo sobre a leitura que fez deste seu encontro imediato com o primeiro-ministro depois de um dia quente para os professores, Mário Nogueira concluiu apenas que o Executivo “está a brincar”. E diz saber porquê: para a FENPROF, Costa está empenhado em empurrar os descongelamentos para o próximo Governo que vier, deixando também para essa altura alterações ao estatuto docente. Ou seja, para esta legislatura, temem os sindicatos, nada feito.