Siga-nos

Perfil

Expresso

Política

O debate de rua entre António Costa e Mário Nogueira: “Não há acordo possível”

Arménio Belo/Lusa

Primeiro-ministro e líder da FENPROF enfrentaram-se no meio da rua e trocaram acusações, numa altura em que o Executivo avança com uma proposta unilateral para recuperar o tempo de serviço dos professores. “Pense bem em nós”, pediu um grupo de docentes em protesto. O ministro da Educação assistiu ao debate improvisado sem participar

As negociações entre Governo e FENPROF a propósito das carreiras dos professores deram esta terça-feira um salto inesperado. É que em vez de se limitarem, como de costume, a uma sala fechada, desta vez aconteceram na rua, quando o primeiro-ministro e o líder do principal sindicato dos docentes se encontraram. Em plena hora de almoço, rodeados de professores em protesto e de um ministro da Educação que permaneceu durante a discussão atrás de Costa, calado, os dois envolveram-se numa discussão sobre a recuperação das carreiras. Com uma conclusão comum: por agora, “não há acordo possível” para recuperar o tempo de serviço perdido.

Em Paredes de Coura, onde Mário Nogueira liderava um protesto de professores, deu-se o embate, captado pelas televisões e recheado de acusações de parte a parte. Cada um dos dois defendeu a sua posição: para Costa, o Governo cumpriu a sua parte quando descongelou as carreiras que não tiveram progressões durante a crise, e oferece agora a recontagem de parte desse tempo aos professores sem arriscar a estabilidade orçamental; para Mário Nogueira, tendo em conta que os docentes perderam “nove anos, quatro meses e dois dias” de tempo de serviço que agora não conta para salários, a proposta do Governo de recontar apenas dois anos e nove meses é curta.

“As pessoas depositaram neste Governo grandes expectativas... não é justo”, lamentou o sindicalista, que em resposta aos repiques de Costa acusou o primeiro-ministro de ser “habilidoso com as palavras”. E Costa insistiu: o Governo já descongelou as carreiras da função pública e não pode privilegiar carreiras em particular. “Não somos só o Governo dos professores. Somos das forças armadas, dos portugueses em geral...”

Após uma discussão técnica sobre o que será possível recuperar para cada carreira, Mário Nogueira conseguiu lançar uma farpa ao ministro das Finanças, Mário Centeno: é que, para o dirigente sindical, as propostas que o Governo traz às negociações “não caem do céu mas caem do Ministério das Finanças, onde às vezes dá ideia que está Deus”. E, de novo, a discussão que tem ocupado - sem conclusão nenhuma - os dois lados da contenda: afinal, o Governo prometeu ou não, quando inscreveu no Orçamento do Estado um artigo em que prevê a recontagem do tempo do serviço, a recontagem de todo esse tempo? Para Mário Nogueira, sim, porque “a maioria relativa [no Parlamento] obrigou a outros compromissos”. Para Costa, não, porque só ficou prometido que logo se veria o tempo e o modo como a recontagem seria feita.

A conclusão das duas partes foi só uma: “Não há acordo”, segundo Costa, por responsabilidade dos professores, liderados por um sindicalista “instransigente”; e “não há acordo possível”, confirma Nogueira, porque o Governo não cumpre o que prometeu. Acabou assim o encontro imediato de Costa, Nogueira (com o ministro lá ao fundo) e um grupo de professores que para Costa guardaram um apelo: “Pense bem em nós!” Costa afastou-se, sem mais declarações, enquanto Mário Nogueira deixava um aviso, insinuando que não vai deixar cair o assunto: “Ainda vai correr muito...”

Na semana passada, os professores e o Governo voltaram a reunir-se para negociar a recuperação do tempo de serviço que ficou congelado para trás, mas não houve avanços e o Executivo decidiu avançar unilateralmente com um decreto-lei para contar com dois anos, nove meses e dezoito dias. Os sindicatos dizem estar à espera de ver se o “decreto surpreende”, com alguma descrença: afinal, o objetivo continua a ser recuperar integralmente o tempo perdido.