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“Acreditem em mim, acreditem comigo!”: Cristas em campanha a todo o vapor

Rui Duarte Silva

Quer entusiasmar futuros eleitores e por isso tira fotografias, joga matraquilhos, ouve que lidera “o partido da mulher” e agradece, raramente se atrapalha. Pede que acreditem com ela. E jura que não tem ideias megalómanas, que os objetivos do CDS se traçam com realismo. Um dia na pré-campanha entusiástica dos centristas, para quem este sábado foi “o começo do calendário político português”

De um lado está Assunção Cristas, com uma expressão de entusiasmo e algum nervoso miudinho, ladeada por Nuno Melo, que nesta altura ainda mantém o casaco vestido e a postura formal. Reconhece de repente o oponente, João Almeida, que cumprimenta com fair play. São três dirigentes do CDS (a presidente, um dos seus vices e o porta-voz), separados fisicamente por uma mesa de matraquilhos mas prontos a jogar. Fazem-no durante uns minutos, minutos em que os nervos da partida tomam conta de todos (por ordem de Cristas, Melo chega a despir o casaco e “arregaçar as mangas” para ficar mais à vontade). No final, combinam o resultado e concordam que é empate – palavra em circunstâncias normais excluída do vocabulário de Cristas, que ultimamente só pensa em ganhar.

A cena é real e aconteceu este sábado, na festa de verão – batizada de “festa das famílias” – que o CDS organizou no Parque Urbano de Ermesinde para marcar a sua rentrée. Segundo o speaker que animou o evento, é a rentrée que “marca o começo do calendário político português”. Pode não ser verdade, uma vez que por esta altura já Rui Rio voltou ao trabalho em Pontal, já o Bloco de Esquerda fez a festa em Leiria, já António Costa discursou em Caminha e em Almada acontece em simultâneo mais uma edição do Avante. Mas o trabalho de um speaker é entusiasmar – e um speaker do CDS tem trabalho redobrado, uma vez que a rentrée dos centristas arranca já com um tom de campanha eleitoral ambicioso.

Rui Duarte Silva

Até Cristas chegar ao parque, o ambiente é relativamente calmo. Dir-se-ia em princípio que podia tratar-se de uma qualquer festa popular: há barracas de bifanas, de cervejas (a bem dizer, finos), e como é uma festa para famílias com filhos há insufláveis a imitar barcos de piratas e uma banca onde se fazem pinturas faciais aos mais pequenos. Só desbravando parte do caminho se começa a avistar as primeiras bandeiras azuis-claras, acompanhadas de muitos homens vestidos de camisas igualmente azuis-claras, como se se tratasse de uma espécie de uniforme.

A animação não tarda em chegar – até porque, frisarão Cristas e Melo mais tarde, não precisaram de “fretar comboios” como o PS para organizar uma festa bastante composta, com muitos simpatizantes e ainda mais barulho. A máquina está bem oleada e assim que Cristas, perto das 17h30, aparece na entrada do parque, abrem-se caixas e mais caixas de bandeiras e t-shirts, os membros da JP ali presentes vestem diligentemente as suas e rodeiam a líder, compõe-se uma comitiva para avançar e Cristas congratula-se: “Toda a gente quer as t-shirts!”

O que se passa de seguida é uma série de interações que acabam sempre de uma de duas formas: ou uma selfie ou um beijinho. Cristas caminha com rapidez mas para para conversar, pergunta a idade das crianças, come o seu pacote de pipocas (Adolfo Mesquita Nunes e Cecília Meireles partilham outro, mais atrás), prova o rissol que lhe oferecem, faz questão de dar mais uma volta para cumprimentar o senhor que toma conta das bifanas. À medida que avança, os elogios multiplicam-se, agradecem-lhe por estar ali, ouve que o CDS é “o partido da mulher” e agradece também.

Rui Duarte SIlva

O ambiente é, por isso, de um certo êxtase quando começa o período dos discursos e o speaker anuncia que o ano político começa ali mesmo. Quem abre as hostilidades é um perito em entusiasmar o público – Francisco Rodrigues dos Santos, líder da JP, consegue rondas de aplausos sucessivas enquanto faz trocadilhos com “Robles dos bosques” ou ensaia soundbites (“Não queremos ser mais uma boneca na matrioska que governa o país”). Como é habitual, os militantes da JP ali presentes quase abafam o discurso com o entusiasmo das palmas. E a mensagem está alinhada com a da líder, e de novo sem pensar em ponto pequeno: “Não queremos ser os perdedores orgulhosos em 2019, queremos ser os vencedores improváveis!”

O tom vai em crescendo, como o CDS também espera ir (uma sondagem da Aximage da semana passada coloca os centristas com uns simpáticos 9,2% nas intenções de voto, mas o partido tem um historial de erros nas sondagens e por isso, pelo menos em público, desvaloriza os números). Quando Nuno Melo discursa de forma inflamada contra a esquerda (com momentos como aquele em que lamenta ainda não ter visto Mariana Mortágua a grafitar ‘Aqui há facho’ no prédio de Ricardo Robles), o clima é de antecipação, as bandeiras agitam-se, os gritos de apoio sucedem-se. Declara Cristas como “a líder de facto da oposição”.

Rui Duarte Silva

É no meio desta aura que finalmente surge Cristas, já perto das 19h, pronta para discursar e se assumir líder da oposição e aspirante a primeira escolha no campo do centro-direita. Como tem feito desde o congresso de março do CDS, insiste, ignorando durante o discurso o PSD, que o CDS é o único “voto seguro”, uma espécie de apelo ao voto útil para quem quer evitar voltar a ver António Costa no poder.

Pode parecer, como apontaram comentadores e analistas depois do conclave do partido, que querer ser o principal partido da oposição é uma ideia megalómana para um partido com as dimensões do CDS. Mas Cristas jura uma e outra vez que acredita. Que estão “fortíssimos”, que o futuro da direita é ali. E pede: “Vamos a isto! Mãos à obra! Arregaçar as mangas! Acreditem em mim e acreditem comigo. Vamos unir esforços. Ninguém nos pára!” Pelo menos, os que a ouvem em Ermesinde parecem acreditar: quase não se ouve o fim do discurso da líder, tal é o entusiasmo das hostes, em plena posição de partida para a campanha - mesmo que ainda falte um ano para as eleições legislativas. É que, como Cristas costuma dizer, no CDS faz-se um trabalho de formiguinha.