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Vices de Rio vão à Universidade e afinam a estratégia: jogar ao centro e com “humildade”

Foto Lusa

Nuno Morais Sarmento e Salvador Malheiro estiveram na Universidade de Verão do PSD e desenharam o guião para as próximas eleições: desvalorizar os críticos internos e apontar ao coração do Governo socialista

Relativizar, apostar as fichas ao centro e atirar ao alvo certo. Nuno Morais Sarmento esteve na Universidade de Verão do PSD, em Castelo de Vide, e deixou o manual de instruções que o partido tem de seguir para enfrentar as próximas eleições: desvalorizar a oposição interna, deixar a disputa eleitoral à direita para Pedro Santana Lopes e vincar as diferenças para o PS.


Numa aula em que se esforçou por traçar a história e o percurso do PSD desde a sua fundação, o antigo ministro de Durão Barroso e de Pedro Santana Lopes recordou que as convulsões internas fazem parte da génese do PSD e, como tal, devem ser vividas sem sobressaltos de maior. “Não há nenhum líder do PSD que não tenha andado a desgastar o anterior”, lembrou o vice de Rio, recordando líderes como Francisco Sá Carneiro, Cavaco Silva, Marcelo Rebelo de Sousa, Durão Barroso ou Pedro Passos Coelho, que, enquanto challengers, tudo fizeram para derrubar o líder em funções. “É um partido que tem dentro de si esta lógica”, notou Morais Sarmento. Recado nas entrelinhas: oposição interna sempre existiu; não serão os ataques a Rio a fazer mossa.

FOTO Nuno Botelho

E a Aliança? Nuno Morais Sarmento não ignorou a nova vida de Pedro Santana Lopes, recordando que o ex-primeiro-ministro sempre teve uma “posição coerente na margem direita do PSD”. “Não me faz nenhuma confusão as movimentações todas que aí acontecem”, resumiu o vice social-democrata. Além disso, notou o dirigente, o sistema político-partidário português está, desde 1974, desequilibrado à esquerda, pelo que o surgimento de partidos à direita é uma evolução natural. Mesmo que, provocou Morais Sarmento, à boleia de Santana Lopes, que surge agora nas vestes de “homem providencial”. Uma provocação, que sintetiza a forma como o PSD vai definir a sua estratégia também em função da Aliança: os sociais-democratas vão disputar as eleições ao centro, porque é aí, acredita Rio, que se ganham as eleições; Santana, ao leme da Aliança, só servirá para fazer do líder do PSD o campeão do centro. Pelo menos, assim espera a direção do partido.

Uma estratégia que fica completa com a colagem do PS à extrema-esquerda, apontou Morais Sarmento. “A linha de separação entre PSD e PS é tão clara hoje como era em 1974. Vivemos os últimos quatro anos sem um único desígnio nacional sem uma única ideia que fosse para todos os portugueses”, começou por criticar o dirigente social-democrata, antes de atirar diretamente a António Costa, Catarina Martins e Jerónimo de Sousa. “O nosso país está reduzido a viver as consequências da disputa semanal de partidos a trabalhar para sindicatos de votos, [refém] do ego do raio do primeiro-ministro que está em funções”. Resumindo: para lá de crises existenciais fabricadas ou de adversários externos que não devem fazer sombra, o PSD tem de atacar a “frente esquerda”.

“O que temos pela frente não é um combate com o PS, é um combate com a frente esquerda. Um combate com Catarina, com Jerónimo e, também, com António Costa. Aquilo que temos de fazer é apresentar uma solução completa, coerente e a pensar no país”, rematou Morais Sarmento.



Salvador a ministro, com fé na “humildade” de Rio

Durante a manhã, foi Salvador Malheiro, também ele vice-presidente do PSD, a vestir o fato de professor universitário. O presidente da Câmara Municipal de Ovar agarrou-se à cábula e fez uma longa exposição sobre aquelas que devem ser as prioridades do país em matéria de política energética, evitando falar dos curto-circuitos que se vão registando no interior do partido. Mas, com a oposição interna a acusar Rio de estar a servir de muleta a António Costa, Malheiro não resistiu a fugir ao guião e saiu em defesa do líder: só os mais “humildes” sabem “colocar verdadeiramente o interesse do país acima de tudo”.

Foto DR

“Tiro o chapéu à humildade do presidente do nosso partido [por] estar a colocar verdadeiramente o interesse do país acima de tudo, mostrando que é tão importante o líder do governo como é o líder da oposição quando estão em causa interesses nacionais”, elogiou o dirigente social-democrata, referindo-se à vocação de Rio para celebrar acordos de regime, mesmo quando uma parte considerável do PSD exige um combate cerrado ao Governo socialista.

Para Malheiro, aliás, essa é a estratégia vencedora. “Por vezes quem mais cede é quem mais ganha. Temos de olhar para o futuro com esperança, que só pode existir se tomarmos atitudes sérias e corretas. E o povo português está atento e gosta desta forma de fazer política”, defendeu o dirigente social-democrata. Já depois da aula, e confrontando pelos jornalistas sobre se o elogio às cedências de Rio ao PS é ou não transversal no partido, Malheiro contornou a questão e devolveu em jeito de mantra: “Neste momento é fundamental a existência de consensos para podermos implementar no país reformas estruturais.”

Deixando as convulsões internas do partido em suspenso, Salvador Malheiro aproveitou o tema da conferência -- a política energética -- para apontar ao coração do PS: “O Governo não tem avançado com o plano nacional de energia e clima porque está mais preocupado em distanciar-se dos erros que aconteceram no passado, designadamente com a governação de Manuel Pinho [ex-ministro da Economia] neste setor”, provocou o social-democrata.

O caminho, foi explicando Salvador Malheiro, passa por uma aposta decidida numa política energética mais “eficiente”, “verde” e “descarbonizada”, a única forma de contornar os “elevados custos da energia em Portugal. E, neste ponto em concreto, o social-democrata pôs-se ao lado de BE e PCP: é preciso baixar o IVA na eletricidade. "A questão que se coloca é porque é que a redução da taxa de IVA não aconteceu anteriormente, quando estamos já com três anos com ajuda externa fora do nosso país", criticou Malheiro.

Já perto do final de uma exposição que durou quase duas horas, houve quem visse em Salvador Malheiro, doutorado em Ciências para a Engenharia, no ramo de Energia, Térmica e Combustão, a aura de futuro ministro do Ambiente. Os alunos lançaram o mote e Salvador Malheiro não torceu o nariz. “Tenho a certeza de que vamos ganhar as eleições, não tenho a certeza de quem vai ser o ministro do Ambiente. Não troco este cargo [de presidente da Câmara] por qualquer coisa”. Malheiro resistiu, mas ficou a dica.