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Um agradecimento, uma ideia nova e uma crítica (pouco) velada: Marcelo em Monchique

Miguel A.Lopes

Marcelo Rebelo de Sousa esperou até o fogo de Monchique estar controlado para visitar a população afetada por seis dias seguidos de um incêndio que, depois de dado como quase dominado, voltou a varrer em força dezenas de casas e milhares de metros quadrados de arvoredo. O Presidente agradeceu aos bombeiros e à Proteção Civil e não deixou passar em branco a polémica sobre as declarações de António Costa

Marcelo Rebelo de Sousa não visitou Monchique enquanto o fogo ainda lavrava forte pela montanha. Os responsáveis da Proteção Civil advertiram contra a visita de figuras políticas ao cenário e, por isso, os afetos foram adiados para este sábado. O Presidente da República esteve reunido com as pessoas afetadas pelo fogo que durou seis dias e que deixou uma pessoa em estado grave, meia centena de casas ardidas e milhares de hectares de verde feitos em cinza.

Assim que saiu da reunião com a Proteção Civil, Marcelo foi interpelado por algumas pessoas que deram a entender algum desconforto com as palavras utilizadas por alguns responsáveis políticos para descrever a operação. O nome de António Costa não foi diretamente mencionado por nenhuma das pessoas que Marcelo ouviu ou, pelo menos, nenhuma das que tenham sido apanhadas pelas câmaras de televisão, mas a crítica ao “sucesso” do combate aos fogos, frase do primeiro-ministro, ouviu-se algumas vezes.

Costa quis dizer que o facto de ainda só se ter registado um incêndio de grandes dimensões este ano era prova do “sucesso” das medidas preventivas instaladas no terreno mas algumas vozes críticas falaram em “insensibilidade” do primeiro-ministro.

Quando falou, Marcelo disse que “é preciso ter uma grande compreensão”, rejeitando comparações com outras tragédias. “Não vale a pena comparar com outros incêndios porque isso não diz nada aos próprios. Se eu disser a uma pessoa que perde uma casa, ou perde os seus bens, ‘olhe, console-se porque no ano passado nos fogos houve muito mais casas ardidas, houve muito mais bens perdidos, houve muito mais empresas atingidas’, não consola porque para aquela pessoa aqueles bens são únicos”, afirmou o Presidente, depois de ter passado algum tempo com vários cidadãos das vilas e aldeias afetadas. Os cidadãos disseram ainda ao Presidente que, no entender da população, foi notória a descoordenação total na forma como foram combatidas as chamas.

Marcelo sublinhou que não é a ausência de vítimas mortais que traz "consolo" à população, recusando entrar em "triunfalismos" injustificados em relação ao incêndio. "O que eu sugeriria humildemente era o seguinte: sem triunfalismos, que não se justificam, sem juízos negativos definitivos já, mas sim preocupações, desabafos e sugestões para o futuro. Vamos terminar esta batalha, esta guerra e esta época", afirmou o chefe de Estado.

José Chaparro, vereador na Câmara de Monchique, disse a Marcelo que as pessoas foram retiradas "a mal" das suas casas pela GNR e apontou que "máquinas de rasto, militares e civis" estiveram três dias sem entrar ao serviço por "falta de indicações" do comando da Proteção Civil. "Houve descoordenação total. As pessoas que estavam à frente das operações nos 'briefings' não eram da terra e não conhecem o terreno. Andava tudo completamente às cegas", afirmou.

Um empresário, cujas propriedades e casas "arderam", queixou-se que na estrada do Alferce não foi visto qualquer carro dos bombeiros a ajudar ao combate e também deixou críticas à atuação dos elementos da GNR durante a evacuação das localidades. "No geral estiveram bem, mas devia ter havido um pouco mais de bom senso na atuação junto dos populares", afirmou.

Sobre esta matéria, Marcelo Rebelo de Sousa começou por dizer que o papel dos operacionais e da população foi "fundamental" para não haver vítimas mortais, sublinhando que a opinião pública está hoje "muito mais exigente em termos de segurança". "Têm de compreender que, sem querer antecipar nenhum juízo, houve uma definição de uma prioridade que foi, na medida do possível, proteger populações", afirmou, sublinhando que essa definição tem consequências, levando a "certas intervenções".

O Presidente alertou depois para o eventual cenário em que um operacional deixa de intervir atempadamente, tendo como consequência a morte de alguém: "’O senhor tinha a obrigação de intervir e evitar aquele morto ou aqueles mortos', é o que se dirá".

"Imaginam o que é o dilema de cada pessoa que intervém ponderar o grau e a forma de intervenção. Visto depois, com frieza, as pessoas dizem, atendendo às condições e situações, 'o tipo de intervenção foi drástico demais, incisivo demais, coercivo demais'?", acrescentou, defendendo que estas questões sejam analisadas posteriormente. O chefe de Estado sublinhou ainda que "o tempo disponível para tirar as lições" dos incêndios do ano passado e para "montar mecanismos preventivos" era "muito limitado".

Um cidadão ligado à área da cortiça questionou Marcelo sobre se considera que a operação de combate ao incêndio tinha sido um "sucesso", mas o Presidente da República acabou por devolver a pergunta: "Como alguém que viveu por dentro, qual é a sua opinião?". "A minha opinião é que não. Isto ardeu tudo, nós perdemos o concelho. Considero que foi uma derrota de toda a gente", respondeu.

Antes de dar início à sua visita, Marcelo Rebelo de Sousa deixou uma mensagem de gratidão aos operacionais que combateram o fogo, em nome de todos os portugueses. “Todos os portugueses acompanharam de perto ou de longe estes dias mais difíceis nas vossas vidas e que pela minha boca vos agradecem aquilo que foi uma dedicação, se possível, mais exigente, mais complexa, mais difícil, mais extenuante, que foi a dos últimos 10 dias”, disse o Presidente.

“Nós não esquecemos o vosso papel, mas como sabemos estamos ainda longe de ter terminado esta época de verão. A gratidão está sempre presente e também a sensação dos portugueses de que é bom haver quem esteja disponível para colocar as suas vidas em risco durante uma vida ao serviço deles”, acrescentou.

Marcelo propõe comissão independente permanente

O Presidente da República propôs, durante a sua visita a Monchique, a criação de uma "comissão independente permanente", sob alçada da Assembleia da República, para fazer a avaliação da época de incêndios e "ajudar" o Governo, o próprio chefe de Estado e instituições.

Marcelo Rebelo de Sousa fez esta proposta enquanto falava com populares, que lhe apresentaram, à saída de um 'briefing´ no posto de comando da Proteção Civil instalado no centro da vila de Monchique, diversas queixas relacionadas com a operação de combate ao incêndio naquele concelho do Algarve. "[Esta comissão] ajuda o Governo, ajuda o Presidente da República e ajuda todas as instituições", afirmou.

Segundo o chefe de Estado, a comissão poderia debruçar-se sobre as ignições e fogos registados e analisar se a "forma de prevenção" ou se as respostas resultaram ou não.

Marcelo Rebelo de Sousa sugeriu que a comissão permanente seja a mesma que existiu em relação aos grandes incêndios de junho e outubro do ano passado e que vá "acompanhando, em diálogo" com a Agência para a Gestão Integrada de Fogos Rurais, as instituições governamentais e outras, "o que aconteceu ano após ano".

A comissão técnica independente criada no ano passado para analisar aqueles fogos, nomeada pela Assembleia da República e que produziu dois relatórios, foi liderada pelo investigador João Guerreiro, antigo reitor da Universidade do Algarve.

"Já se percebeu que o grau de exigência dos portugueses é muito alto. Já se percebeu que as alterações climáticas são cada vez mais complexas. Já se percebeu que o que sucede levanta problemas cada vez mais complexos. Vamos fazendo o balanço e aprendendo a lição ano após ano", acrescentou, já em declarações aos jornalistas.

O incêndio rural, combatido por mais de mil operacionais e considerado dominado na sexta-feira de manhã, deflagrou no dia 3 de agosto à tarde, em Monchique, distrito de Faro, e atingiu também o concelho vizinho de Silves, depois de ter afetado, com menor impacto, os municípios de Portimão (no mesmo distrito) e de Odemira (distrito de Beja).

A Proteção Civil atualizou o número de feridos para 41, um dos quais em estado grave (uma idosa que se mantém internada em Lisboa). De acordo com o Sistema Europeu de Informação de Incêndios Florestais, as chamas consumiram cerca de 27 mil hectares. Em 2003, um grande incêndio destruiu cerca de 41 mil hectares nos concelhos de Monchique, Portimão, Aljezur e Lagos.

Na terça-feira, ao quinto dia de incêndio, as operações passaram a ter coordenação nacional, na dependência direta do comandante nacional da Proteção Civil, depois de terem estado sob a gestão do comando distrital.

O ministro da Administração Interna, Eduardo Cabrita, já tinha afirmado que "a grande vitória" da operação de combate ao incêndio de Monchique é a inexistência de vítimas mortais, acrescentando estar satisfeito por poder "celebrar" o facto de ninguém ter morrido. Questionado depois pelos jornalistas sobre estas declarações, o Presidente da República recusou falar sobre o que, a seu ver, "não é essencial".

"É prematuro, neste momento, estar a olhar para uma batalha que está perto da conclusão mas que não está concluída e uma guerra que está longe de estar concluída e fazer um balanço daquilo que aconteceu globalmente", sublinhou.