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A hipocrisia que alimenta a política

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A política sem uma dose moderada de hipocrisia não funciona. Não haveria coligações partidárias nem adversários em paz. Mas o cinismo que salva relações políticas também pode ser letal. Como sucedeu a Ricardo Robles, na semana mais negra do Bloco de Esquerda, que foi ao limite do mandamento: não faças em casa o contrário do que defendes em público

Vítor Matos

Vítor Matos

Editor de política

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á uma anedota britânica que resume tudo. “Pelo menos eu não sou tão hipócrita quanto tu”, diz um político. “Bom, se calhar és, se realmente acreditares nisso”, responde-lhe o outro. É fatal. Sem hipocrisia não há política. E todos os políticos têm as suas máscaras. Quando era deputado, David Cameron, então líder conservador britânico, ia de bicicleta para o Parlamento para demonstrar como era autêntica a sua política ambientalista. Chegou a ter um slogan “Vote blue, go green” e parecia viver de acordo com esses valores.

Um dia, foi desmascarado. Afinal, enquanto Cameron pedalava, seguia atrás dele uma viatura oficial que lhe transportava a pasta e as caixas com os papéis, e que como todos os outros carros enchia a cidade de Londres de monóxido de carbono. Na verdade, Cameron fingia. Pior do que isso, enganava os eleitores. Fazia exatamente o contrário do que mostrava em público. Foi acusado de hipocrisia. Um político fazer na sua vida privada o contrário do que diz em público é a forma mais comum e letal de hipocrisia. O pequeno escândalo da bicicleta desacreditou David Cameron, mas quatro anos depois, o ciclista verde-conservador chegaria a primeiro-ministro do Reino Unido. A dose do cinismo de Cameron não foi politicamente mortal, como sucedeu ao bloquista-especulador Ricardo Robles, que sobreviveu apenas 76 horas entre a notícia dos seus investimentos imobiliários e a demissão do cargo de vereador da Câmara Municipal de Lisboa.

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