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Tancos. "Nunca o Exército deu garantias de que o material recuperado correspondia ao material furtado"

MANUEL DE ALMEIDA/LUSA

Chefe do Estado-Maior do Exército (CEME) reconhece que o Exército não pode garantir que todo o armamento furtado em Tancos foi recuperado, até porque o material militar continua sob a custódia da PJ.

Rovisco Duarte, chefe de Estado-Maior do Exército (CEME), reconheceu esta terça-feira, no Parlamento, que o Exército não tem, neste momento, capacidade ou legitimidade para garantir se há ou não material militar em falta em relação ao que foi recuperado na sequência do assalto aos paióis de Tancos.

No Parlamento, o general lembrou que o material militar encontra-se sob custódia da Polícia Judiciária e, como tal, é impossível para o Exército avançar com qualquer tipo de “peritagem”.

Em outubro, Rovisco Duarte deu uma conferência de imprensa em que explicou que tinha sido possível recuperar uma caixa de petardos a mais - atribuindo a discrepância a falhas na inventariação -, mas que permaneciam por recuperar munições de 9mm. Depois de o Expresso ter noticiado que o Ministério Público acredita que há mais material em falta, como granadas de gás lacrimogéneo, uma granada de mão ofensiva e cargas lineares de corte, sobravam várias questões, com esta à cabeça: saberia o CEME, em outubro, que havia material militar em falta?

Na audição parlamentar desta terça-feira, Rovisco Duarte explicou o porquê de ter dito o que disse: só assumiu a falta das munições de 9mm porque já tinha sido avançado pela comunicação social; e só referiu a questão da caixa de petardos a mais porque a cadeia de comando já tinha dado indicações nesse sentido. Como tal, o CEME não podia simplesmente omitir estas duas informações.

Coisa diferente, alegou Rovisco Duarte, é atribuir ao Exército informações que não transmitiu. "Nunca o Exército deu garantias de que o material recuperado correspondia ao material furtado”, frisou o general.

Confrontando pelo CDS com o que dissera a 21 de novembro numa audição parlamentar à porta fechada (o desaparecimento das munições 9mm era "um caso isolado"), Rovisco Duarte respondeu com o mesmo argumento: "O Exército foi fiel depositário do material. Enquanto não o devolverem, o Exército não se pronuncia [sobre as alegadas discrepâncias]."

Ora, os democratas-cristãos não foram os únicos a insistir nesta questão. Também Jorge Machado, deputado do PCP, desafiou o general a explicar a aparente contradição: como é que foi capaz de garantir, ao detalhe, que existia uma caixa de petardos a mais e munições de 9mm a menos, e agora não é capaz de explicar com clareza se há ou não material em falta. O comunista não teve sorte diferente. "A minha base de trabalho foi sempre a informação da PJM de que o material tinha sido entregue. Sem prova em contrário, tomámos aquilo como facto", limitou-se a dizer Rovisco Duarte.

Com PSD e BE a exigirem igualmente mais esclarecimentos, o general voltou a lembrar que a participação do Exército na operação foi muito limitada. Assim que o paradeiro do material militar foi comunicado, esclareceu o CEME, "o Exército enviou uma equipa de EODs [Equipas de Inativação de Explosivos]", composta por "dois sargentos", para verificar se o “material podia ser transportado e manuseado”. Garantido o transporte, a intervenção do Exército “acabou, finito”, sublinhou Rovisco Duarte. A partir daí, a perícia e a investigação pertenceram à Polícia Judiciária Militar e, principalmente, ao Ministério Público. Ou seja, repetiu o general, é impossível para o Exército garantir se há ou não material militar em falta.

“Não sei o que estou aqui a fazer”

Perante a insistência dos deputados de PSD, CDS, BE e PCP para que Rovisco Duarte esclarecesse as alegadas discrepâncias entre material roubado e recuperado, e com o PS a questionar as motivações dos restantes partidos (sobretudo as do CDS), o general foi taxativo: “Não sei o que estou aqui a fazer. Não aconteceu nada de relevante neste processo que justifique a minha presença.”

Na mesma audição, Rovisco Duarte reconheceu, no entanto, o impacto que o caso “Tancos” teve no “prestígio” e na “credibilidade” da instituição. “O Exército sentiu o peso da ocorrência, fez diligências e respondeu perante a tutela”, assumiu.

Nesse sentido, continuou o CEME, não há ninguém mais interessado do que o Exército em apurar toda a verdade dos factos. “Este furto não doeu a mais ninguém do que ao Exército. Sentimos esse peso. Como tal, o Exército e o principal interessado em apurar toda a verdade. Tancos não pode existir nunca mais”, insistiu o general.