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Ricardo Robles não se demite. "Nada fiz de condenável"

José Caria

Vereador em Lisboa já não vai vender a sua parte do imóvel em Alfama que foi avaliado em 5,7 milhões de euros. E defende que a sua atuação neste caso teve "toda a coerência"

Ricardo Robles, vereador do Bloco de Esquerda na Câmara Municipal de Lisboa, não vai demitir-se na sequência da polémica que rebentou esta sexta-feira, por causa do negócio imobiliário que envolve um prédio em Alfama, Lisboa, e que chegou a admitir vender com um lucro de perto de cinco milhões de euros. Na sequência da polémica, Robles decidiu mesmo arrendar as suas frações do prédio, desistindo assim da venda.

Uma das grandes bandeiras de Robles durante a campanha para as últimas autárquicas foi a da Habitação, tendo-se manifestado contra o "carrossel da especulação" repetidamente. Mas, para o vereador bloquista, o facto de ter comprado com a sua irmã um prédio, em 2014, por 347 mil euros, e de ter admitido vendê-lo depois de fazer obras por 5,7 milhões de euros (entretanto foi retirado do mercado), não representa nenhuma incoerência: "Nada fiz de condenável e nada tenho a esconder", garantiu na tarde desta sexta-feira, numa conferência de imprensa na sede do Bloco de Esquerda.

Admitindo que o seu comportamento pode trazer "dúvidas" (e já trouxe um pedido de demissão do PSD Lisboa), Robles explicou as circunstâncias que rodearam o negócio: com uma irmã migrada na Bélgica desde 2011 e com intenções de regressar em 2014, os dois irmãos decidiram comprar, com "crédito bancário e apoio dos pais", o prédio em Alfama. A intenção seria que a sua irmã habitasse uma das frações e que as restantes se destinassem a arrendamento. Mas, segundo as explicações do vereador, a sua irmã casou-se no ano passado com um alemão e desistiu de voltar a Portugal, tendo os dois decidido "colocar o imóvel à venda, com a avaliação feita por uma agência imobiliária". A tal avaliação que resultaria num valor de 5,7 milhões de euros, após umas obras de reabilitação que terão custado perto de 650 mil euros.

Neste momento, o vereador do BE não só já não quer vender o prédio como decidiu constituir propriedade horizontal para poder responsabilizar-se pelas suas frações, que afinal não ficarão à venda. "Esta decisão não foi especulativa. Não venderei a minha parte do imóvel e colocarei as minhas frações no mercado de arrendamento. Compreendo as razões da minha irmã para não voltar e arrendar", explicou esta tarde.

Depois de ter insistido que não há incoerência na sua política anti-despejos, uma vez que os únicos inquilinos que residiam no prédio (os outros andares destinavam-se a comércio) continuam a residir ali "por um preço que a lei não permite", Robles foi repetidamente questionado sobre a decisão de vender e revender a um preço tão elevado, e portanto com um potencial lucro tão elevado, o imóvel. Acabou por responder, mas lembrando que a agência foi a responsável pela avaliação: "Não faço nenhuma avaliação sobre a justiça do valor. Eu não ia fazer uma venda direta".

O vereador aproveitou ainda, já no final da declaração que fez aos jornalistas, para mandar uma farpa ao PSD Lisboa, insistindo que atuou neste processo de forma "coerente" e "exemplar": "Defendo a existência de regras de proteção aos inquilinos e políticas de habitação a custos controlados. Em oposição frontal encontrei sempre o PSD". E rematou: "Estou a exercer enquanto proprietário aquilo que defendo para a cidade".

Mais valia de milhões

A edição em papel do Jornal Económico trazia esta sexta-feira a história de dois irmãos que, em 2014, compraram um prédio em Alfama por 347 mil euros. A seguir, reabilitaram-no por 650 mil euros e chegaram a acordo com a maioria dos inquilinos para a rescisão dos contratos de arrendamento. Os proprietários decidiram colocar o prédio à venda, com uma avaliação de 5.7 milhões de euros. Ou seja, a mais-valia potencial seria de 4.7 milhões.

O twist nesta história é este: um dos irmãos é Ricardo Robles, o ex-candidato do Bloco à CM de Lisboa e atual vereador para a Educação e Assuntos Sociais, um dos mais dedicados opositores à ‘lei Cristas’ e especulação imobiliária.

De madrugada, perto das 3h da manhã, já depois da primeira página do jornal andar a circular nas redes sociais, Robles escreveu no Twitter o seguinte: “Comprei um imóvel com a minha irmã, em 2014, como parte de um negócio de família. Absolutamente ninguém foi despejado: a única família que lá vivia, lá continua, agora com casa recuperada e contrato em seu nome, por 8 anos e renda de 170€. Todos os direitos protegidos”.

E adicionou: “A decisão de venda, ainda não concretizada, obedece a constrangimentos familiares que não dependem apenas da minha vontade. Todas as minhas obrigações legais, fiscais e de transparência foram cumpridas”.

Enquanto alguns elementos do BE partilharam a publicação de Robles, o PSD reagiu no início da tarde, exigindo a demissão do vereador, acusando-o de “falta de ética”.

“O PSD Lisboa exige a demissão do vereador Ricardo Robles ​por manifesta falta de ética, de seriedade e de credibilidade política para permanecer no cargo de vereador na cidade de Lisboa", pode ler-se num comunicado dos sociais-democratas.

O partido liderado por Rui Rio diz que o BE “manipula os eleitores e se proclama publicamente contra a “especulação imobiliária” quando um dos seus principais eleitos faz negócios milionários à sua custa".