Siga-nos

Perfil

Expresso

Política

Manuela Ferreira Leite. O “pior” que sucedeu ao PSD foi o rótulo de direita que lhe ficou colado

José Sena Goulão/Lusa

Antiga líder do partido elogiou o recentramento do partido e o regresso ao reformismo e ao personalismo

Manuela Ferreira Leite afirmou apreciar o recentramento do PSD que está a ser conduzido por Rui Rio e considera que uma das coisas piores que aconteceu ao partido foi o rótulo de direita que lhe foi colado durante a liderança de Pedro Passos Coelho, potenciado por situações como a ida às eleições legislativas de 2015 em coligação com o CDS, com uma sigla "sem as setas". No espaço de comentário que mantém na TVI 24 e que vai para o ar às quintas-feiras, a antiga ministra das Finanças elogiou aquele que considera ser o percurso atual de regresso ao reformismo, ao personalismo e à defesa de uma política social e humanista que está de acordo com os valores históricos do PSD.

Questionada sobre a entrevista que Rui Rio deu, nesta terça-feira, à mesma estação de televisão, e se o atual líder social-democrata teria vincado as diferenças que o separam de António Costa, Manuela Ferreira Leite argumentou que, na política económica e orçamental, não existe liberdade na escolha dos caminhos e que as opções são ditadas por Bruxelas. "Até o Bloco de Esquerda e o PCP, que renegam a presença no euro, acabam por estar submetidos", afirmou, em alusão ao apoio que estes dois partidos têm dado ao Governo através da aprovação de sucessivos Orçamentos do Estado que têm como meta central a redução do défice público.

"Não se pode esperar que seja quem for possa fazer coisas diferentes", disse a ex-líder do PSD, que acrescentou ser apenas possível dar mais incidência a alguns aspetos e menos a outros. Ainda assim, considerou relevante o facto de Rui Rio defender uma estratégia para o crescimento da economia distinta daquela que foi a aposta do Governo socialista, apostando no aumento do investimento e das exportações, em detrimento do consumo, o que considera ser exequível por via de uma política fiscal "simpática" para as empresas e pela "estabilidade" na legislação laboral. "Quando se pensa que se deve apostar mais no investimento, não se pode pensar em política do PS apoiado pelos partidos de esquerda", comentou Ferreira Leite.

A propósito da pressão de diversos setores, entre eles o dos professores, para que o Governo tome decisões com forte impacto orçamental, a ex-ministra das Finanças referiu ter havido "promessas que foram feitas como se não houvesse restrição orçamental" e adiantou: "mas existe e está em vigor". E Ferreira Leite admite que "o ministro das Finanças não abdique dela nunca". Mário Centeno "ganhou credibilidade", acrescentou, "mas provavelmente não ganhou amigos dentro do PS e entre os que o estão a apoiar" porque a política orçamental não permite ir ao encontro das "reivindicações a que estamos a assistir a toda a hora".

Em divergência com os sociais-democratas que criticam a aproximação de Rui Rio a António Costa, Manuela Ferreira Leite afirmou que o caminho seguido pelo atual líder do PSD vai "obrigar o PS a aclarar a sua posição" face ao seu eleitorado, parte do qual não se revê na aliança com os partidos mais à esquerda. Também não vê em Rio o desejo de criar um novo bloco central. "A ideia que se lhe quer colar por apoiar o PS em nome do interesse nacional não tem nada a ver com bloco central, tem a ver com colocar-se os interesses do país à frente dos interesses do partido", acrescentou.

A respeito de apoios e de alianças, a antiga ministra das Finanças recordou, ainda, as posições que assumiu enquanto foi presidente do PSD. "Depois de ter perdido as eleições com o engenheiro Sócrates, evitei que o Governo dele caísse, em nome do interesse nacional", uma atitude pela qual disse ter-se batido "praticamente sozinha". Sem aquele apoio, "teríamos uma situação pior do que a da Grécia". Apesar de tudo isto, Ferreira Leite deixou a pergunta: "mas algum dia me passou pela cabeça fazer um bloco central com o PS daquela altura?".