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Macron, Sanchez e Costa reúnem-se em Lisboa para acabar com a “ilha energética” ibérica

Sean Gallup/Getty

Os três líderes encontram-se esta sexta-feira para a II Cimeira das Interligações Energéticas, em conjunto com o comissário europeu e a vice-presidente do Banco Europeu de Investimento. A ideia é dar “impulso político” a um projeto particularmente caro à Península Ibérica

Luísa Meireles

Luísa Meireles

Redatora Principal

São três líderes europeus empenhados em mais Europa que se encontram esta sexta-feira em Lisboa: Emmanuel Macron, António Costa e Pedro Sánchez. O pretexto é a cimeira das interligações energéticas, na qual os chefes de Governo português e espanhol contam com a nova disponibilidade do Governo francês para que a Península Ibérica deixe de ser uma “ilha energética” na União Europeia.

Em cima da mesa está a identificação de novos projetos ou alternativas para atingir esses objetivos, nomeadamente a concretização de uma nova ligação entre Portugal e Espanha pela Galiza e da Espanha e França pelo Golfo da Biscaia e os Pirinéus, já em estudo.

Em causa está um investimento superior a 570 milhões de euros para uma primeira fase, parte já concedida pela Comissão, mas que globalmente exigirá também o financiamento adicional do Banco Europeu de Investimento (BEI). As interligações energéticas são linhas de alta tensão ou gasodutos que permitem transportar eletricidade ou gás entre as redes de dois países.

São as interligações que, ao permitirem a importação de energia quando esta é mais escassa ou cara internamente, ou a sua exportação, no caso desta ser mais abundante, podem promover a competitividade e a sustentabilidade e fazer baixar o custo da energia.

As metas do mercado da energia

São conhecidas as metas e objetivos do mercado comum da energia. As normas europeias no âmbito da política energética estatuem já que o transporte transfronteiriço de energia (as interligações energéticas) deve atingir pelo menos 10% em 2020 e 15% em 2030 da potência instalada em cada país.

Mas, para além disso, os 27 também acordaram que, em 2030, 32% da energia consumida na União deve ser oriunda de fontes renováveis – um objetivo risonho para Portugal, que está na vanguarda dos países europeus na produção deste tipo de energia.

A questão é a de que, se entre Portugal e Espanha o nível de interligações está muito próximo do objetivo, entre a Península Ibérica e França – que a conecta à Europa – está muito longe. Com os três países a puxar no mesmo sentido, o chamado mercado comum de energia pode chegar à península e, esta, por outro lado, pode contribuir mais substancialmente para o abastecimento em energia da Europa e a sua menor dependência de outras fontes.

Um projeto caro à Europa

Assim, entre Portugal e Espanha essas interligações alcançam já os 8,8%. Entre Espanha e França, porém, entre as quais se ergue uma enorme barreira natural, os Pirenéus, essa percentagem não passa dos 5,8%. Se nos ativermos à média das interligações entre a Península Ibérica e a Europa, o valor baixa para 2,6%.

O compromisso dos três países em seguir na mesma direção já foi assumido, pela primeira vez, em 2015, numa primeira cimeira, então realizada em Madrid. Desde então mudaram os protagonistas, incluindo circunstancialmente Jean-Claude Juncker que, devido à sua deslocação a Washington, teve de ser substituído pelo comissário para a Ação Climática e Energia, o espanhol Arias Cañete. A vice-presidente do BEI, a também espanhola Emma Navarro, estará igualmente presente.

O projeto do mercado comum da energia é caro à União Europeia e Juncker fez dele uma das suas bandeiras. O Plano que tem o seu nome é um dos instrumentos de financiamento dos projetos do mercado comum de energia.

A viragem para o verde

Na cimeira de 2015, todos se comprometeram com os objetivos, tendo em vista a identificação de projetos para alcançar as metas previstas. Agora, os três novos dirigentes de Portugal, Espanha e França querem renovar os seus votos nas interligações e traçar um roteiro comum para a aceleração da transição energética.

Para Portugal, que em determinados momentos produz mais energia renovável do que a que pode consumir, é um “dois em um”. A energia excedente que hoje é desperdiçada pode ser exportada e, se juntarmos a componente do gás (que também faz parte do mercado comum de energia), será, até, um “três em um”, com o alargar das potencialidades do porto de Sines, que já acolhe 30% das exportações de gás liquefeito americano para a Europa.

Em Espanha, o novo Governo acentuou também essa viragem. Se o Governo de Rajoy já era a favor, o socialista Sanchez criou um Ministério da Transição Ecológica, à semelhança do que existe em França, que reúne a energia e o ambiente. A prioridade das políticas verdes face ao nuclear e ao carvão é assumida sem constrangimentos, apesar das dificuldades políticas criadas sobretudo a nível regional e local pela decisão de calendarizar o encerramento das centrais nucleares.

Abastecer 50% das necessidades europeias

De acordo com os estudos, a Península Ibérica no seu conjunto, com capacidade suficiente para armazenar o gás liquefeito e com interligações adequadas, teria condições para assegurar o abastecimento à Europa em 50% das suas necessidades, com as vantagens inerentes para todos e a vários títulos, económicos e de independência.

Paris, por seu turno, foi uma das capitais mais entusiastas quanto aos objetivos climáticos. E o Governo de Emmanuel Macron acentuou ainda mais a viragem, ao alterar o mix energético nacional. Se antes, a energia nuclear devia assegurar 75% do total, doravante será apenas 50%, abrindo assim campo às energias verdes e renováveis.

A Europa é o primeiro importador de energia do mundo – importa 53% da sua energia, sendo que 94% dos transportes são garantidos através de produtos petrolíferos, 90% dos quais importados. Seis Estados-membros são dependentes de um fornecedor externo único, a Rússia, que assegura 27% do consumo da UE.