Siga-nos

Perfil

Expresso

Política

Aquele olhar penetrante e doce

Alberto Frias

A notícia da morte de João Semedo desagua no telemóvel ao amanhecer. Pouco antes acabara de ler, com um esforço proporcional ao despudor de quanto ali é narrado, o tema de capa da última edição da Revista E, do Expresso, intitulado “Chique a valer”. Aquele mesmo texto onde se fala de um mundo à parte, a gravitar à volta de uma pornográfica ânsia de luxo sequiosamente vivenciado por quem está disponível para gastar dez mil euros num fim de tarde num clube privado de Lisboa, despender outro tanto ou mais numa manhã de compras em lojas de roupa na Avenida da Liberdade, oferecer mais de 20 mil euros por um relógio ou alugar casa a 1750 euros por dia.

Não há, no apontar desta coincidência, a procura de uma qualquer metáfora simplista ou um inócuo e indesejado simbolismo. Não tenho mesmo a certeza que não seja ofensivo para a memória de João Semedo iniciar um texto evocativo do seu legado pessoal, moral, ético e político com a referência a um trabalho jornalístico sobre a desfaçatez. Terei como atenuante a noção de que, se a sua infinita capacidade de humor o levava a tentar sempre descodificar o absurdo, daí resultava não raras vezes admitir a existência de absurdos tão absurdamente absurdos, que até o absurdo ficaria com vergonha dos seus próprios paradoxos.

Isso percebia-se-lhe no olhar. Também no sorriso, é claro. Mas o olhar, aquele olhar esboçado com a mesma intensidade, a mesma e acutilante ironia contida na torrente de palavras não ditas e, no entanto, percebidas numa forma muito própria de ver e perceber o mundo.

Os olhos de João Semedo falavam. No silêncio do seu estar, discreto, mas atento, conciliador, mas incisivo, fraterno, mas rigoroso e exigente, revelava um muito sincero fascínio pelo pensamento outro, pelos desafios contidos no exercício intelectual de questionar os saberes adquiridos ou os conhecimentos tidos como definitivos. Viveu no Porto anos cruciais para a formação de uma personalidade intensa, muito curtida no convívio com estruturas, organizações e associações culturais da cidade, às quais se entregava com uma energia tão estimulante, quanto contagiante.

O seu coração situava-se à esquerda. Toda a sua mundividência se plasmava numa constante procura de supostos impossíveis, para ele tidos como indispensáveis à edificação de uma sociedade assente em valores de justiça, equidade, solidariedade, e respeito pela diferença.

Se a esquerda era o seu universo de referência, características pessoais únicas proporcionavam-lhe uma inigualável facilidade de diálogo em todos os quadrantes. Não fechava portas a ninguém, e até quantos dele estavam politicamente a muitas galáxias de distância lhe reconheciam a autoridade e seriedade de posicionamentos e argumentos.

Como nunca a ingenuidade foi um dos seus atributos, percebia muito bem o quão ténue e frágil podia ser a linha divisória em que a boa fé de uns é subtilmente subvertida pelo aproveitamento oportunístico de outros. Só percebendo esta dicotomia se entende o dilema com que teve de lidar a partir da sua rutura com o PCP.

Porque tinha a exata noção de que a direita política e a generalidade da imprensa estava sempre ávida de aproveitar o posicionamento crítico de quantos questionavam o percurso ideológico do partido a que pertencera durante décadas para impor a sua agenda, João Semedo tratou sempre com pinças um divórcio que, ainda assim, assumiu com firmeza do ponto de vista pessoal e político. Entendeu trilhar novos caminhos e esse percurso levou-o a ajudar a fundar o Bloco de Esquerda. Assumiu novos rumos, mas nunca à custa de um qualquer ressentimento ou necessidade de afirmação em relação a um passado jamais renegado.

Não é fácil e não está ao alcance de qualquer um. Assim, quando na noite de segunda-feira, no salão da cooperativa Árvore, ao lado da Luísa Meireles, da Rosa Pedroso Lima e da Carolina Reis, minhas camaradas de redação do Expresso que, ao fim da tarde, se tinham disposto a encetar uma correria entre Lisboa-Porto-Lisboa para uma última homenagem a alguém que conhecêramos de diferentes maneiras e em circunstâncias díspares, cada um de nós, tal como todos quantos por ali iam passando, terá derramado um olhar muito particular sobre o amigo que partia.

Cada um, dele terá as suas memórias. Todos teremos em comum a felicidade de ter partilhado aquele olhar penetrante e doce. Nisso está o tudo e o nada do sentido que a vida tem.