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O adeus a João Semedo, o homem que “lutava pelo direito à felicidade”

JOSÉ COELHO/Getty

Uma multidão acompanhou a última marcha, do Passeio das Virtudes até ao cemitério do Prado do Repouso, de um homem que, nas palavras de Francisco Louçã, “lutava pelo direito à felicidade”

Um cartaz anuncia animação, todas as sextas, pelas 19h, com o “Pôr do Sol nas Virtudes”, mas quando os ponteiros do relógio já passam das 13h desta quarta-feira apenas o silêncio se instala por defeito entre a multidão vestida de negro. Imóvel, numa sombra de pesar esbatida junto à Cooperativa Árvore. O grasnar das gaivotas, a esvoaçar o céu coberto com um manto cinzento, sobrepõe-se às palavras sussurradas e aos abraços que dizem saudade. A luz extinguiu-se para João Semedo aos 67 anos e, ali, na associação artística fundada no Porto em 1963, onde o político, médico e homem da cultura semeou humanismo e cultivou a proximidade com o outro - valores transplantados de todos os lugares por onde passou - centenas de pessoas disseram adeus a uma personalidade reta e transversal, livre no pensamento e firme nas convicções.

Quando às 13h30 a urna foi transportada para o carro fúnebre, uma salva de palmas calou o silêncio. Catarina Martins, Francisco Louçã, Marisa Matias, Mariana Mortágua ou José Soeiro eram alguns dos mais notáveis bloquistas, lado-a-lado com muitas outras figuras da vida social e política portuguesas, provenientes dos mais variados quadrantes. O presidente da Assembleia da República, Ferro Rodrigues, ou o presidente do PS, Carlos César, eram outros dos notáveis, todos unidos para acompanhar a última marcha, desde o Passeio das Virtudes até ao Prado do Repouso, de um homem que nunca virou as costas à luta. A batalha contra o cancro nas cordas vocais durou cinco anos e a doença acabou por vencer uma das vozes mais graves e fortes, colocada invariavelmente ao serviço dos temas mais agudos e das franjas sociais mais frágeis.

Uma pessoa “muito livre, aberta, unitária e fraterna”. É assim que Francisco Louçã descreve, em declarações ao Expresso, o amigo João Semedo. "Deixa-nos tarefas enormes, daquilo que foram os combates da sua vida, como o amor ao próximo ou a defesa do Serviço Nacional de Saúde. Era um homem de fazer coisas concretas e de construir as pontes para essas maiorias de transformação", frisa o fundador do Bloco de Esquerda, lembrando o antigo deputado como alguém que “lutava pelo direito á felicidade”, sempre com “a preocupação de estabelecer o diálogo e de abraçar ideias diferentes”.

“Deixa um grande vazio nesta vacuidade que é a política portuguesa”

Foi na Cooperativa Árvore, da qual João Semedo era sócio de longa data, tendo integrado os órgãos sociais, onde o historiador portuense Germano Silva teve a oportunidade de privar, “muito antes do 25 de abril”, com João Semedo. "Era um homem extraordinário, muito alegre e que encarou sempre a vida de frente. Foi um grande democrata e dedicado às causas sociais", enaltece o antigo jornalista e cronista, lembrando o período em que o “lutador permanente e com uma voz muita ativa” dirigiu o Hospital Joaquim Urbano, tratando as pessoas com “muito humanismo”. Habituado a enquadrar a realidade, Germano Silva não tem dúvidas. "Marcou uma presença extraordinária e deixa um grande vazio nesta vacuidade que é a política portuguesa", afirma o doutor Honoris Causa da Universidade do Porto.

João Semedo nasceu a 20 de junho de 1951, em Lisboa, cidade onde frequentou o Liceu Camões. Iniciou a vida política aos 16 anos - ligado ao movimento estudantil gerado para apoiar as vítimas das cheias de 1967 - e licenciou-se, na Faculdade de Medicina de Lisboa, em 1975. Numa entrevista concedida jornal ao “Observador”, em abril de 2017, afirmou preferir a política à medicina, pelo facto de a primeira tratar "a sociedade mais do que as pessoas".

Ainda durante os tempos de ditadura, aproximou-se do PCP em 1972 e, um ano mais tarde, esteve preso em Caxias, durante duas semanas, por distribuir panfletos a reivindicavar eleições livres. Tornou-se funcionário do partido em 1975, onde militou até 1991, quando abandonou o Comité Central, divorciando-se da estrutura partidária. João Semedo virou a página, mas manteve-se à esquerda. O casamento político com o Bloco foi consumado em abril de 2007. Até que a morte os separou.

Fica a marca indelével na política nacional, tendo assumido funções como deputado na Assembleia de República entre 2006 e 2015, com um percurso onde nunca perdeu de vista as artes e a medicina. Esteve associado a campanhas de alfabetização no pós-25 de Abril, integrou a direção do Festival Internacional de Teatro de Expressão Ibérica e foi fundador do Sindicato dos Médicos do Norte.

O antigo coordenador bloquista (quando a força política optou por uma direção bicéfala, repartida com Catarina Martins) morreu esta terça-feira, aos 67 anos, vítima de cancro, depois de ter travado uma batalha contra a doença diagnosticada em 2013. Sempre interventivo, acérrimo defensor da despenalização da eutanásia, nunca deixou de ser uma voz ativa.

Afastou-se dos grandes palcos da vida política, mas aceitou, ainda assim, o último desafio de ser candidato do BE à Câmara Municipal do Porto - cidade onde atracou há mais de quatro décadas - nas autárquicas de 2017, tendo abandonado a corrida eleitoral para dar lugar a João Teixeira Lopes.

Esta quinta-feira, pelas 21h, realiza-se uma cerimónia de homenagem a João Semedo no Teatro Municipal Rivoli, com intervenções, testemunhos e momentos culturais.