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Angelo Correia: "Há responsabilidade real e direta do Chefe do Estado Maior do Exército"

Luiz Carvalho

Ângelo Correia, coordenador para a Defesa do Gabinete Estratégico de Rui Rio, concorda com o Presidente da República: há falhas das instituições responsáveis pela investigação ao assalto de Tancos. Mas responsabiliza, antes de mais, o Chefe do Exército. Marcelo e Costa querem evitar mexer no topo da pirâmide

Ângelo Correia concorda com o diagnóstico do Presidente da República segundo o qual há um problema com as instituições responsáveis pela investigação ao caso de Tancos - Ministério Público, PJ Militar e PJ -, mas acha impossível poupar a cúpula do Exército.

Em declarações ao Expresso, o ex-ministro da Administração Interna, especialista em questões de Defesa e atual coordenador para esta área no gabinete estratégico criado por Rui Rio no PSD, aponta o dedo ao Chefe do Estado Maior do Exército (CEME), o general Rovisco Duarte.

"A existir um problema que significa que aquilo que se dizia sobre Tancos (que o material roubado tinha sido recuperado) afinal não corresponde à realidade, há uma responsabilidade real e direta do CEME", afirmou Ângelo Correia, sublinhando que "há responsabilidade de quem proferiu as primeiras declarações sobre a recuperação de material e esse é o Chefe do Estado Maior do Exército".

Ângelo Correia não quer comentar o facto de nem o ministro da Defesa, nem o Presidente da República estarem a apontar o dedo às chefias militares. Apenas refere que qualquer decisão nesse sentido exige uma "prévia concertação entre Governo e Chefe de Estado". Aparentemente, nenhum dos lados quer abrir um conflito com as Forças Armadas nesta altura.

Há um ano, quando aconteceu o roubo de material militar em Tancos, a questão chegou a colocar-se perante a gravidade dos factos, logo reconhecida por Marcelo Rebelo de Sousa. Na altura, com o primeiro-ministro de férias, o Presidente tomou, aliás, a dianteira no comando político da situação e arrastou o ministro da Defesa consigo para Tancos. Mas logo se percebeu que ambos queriam evitar a demissão do CEME.

Rovisco Duarte estava há pouco tempo no cargo, o seu antecessor, Carlos Jerónimo, tinha-se demitido na sequência de um conflito com o ministro relacionado com o Colégio Militar, e entendeu-se que deixar cair dois CEME em tão pouco tempo seria desestabilizar as Forças Armadas. O Presidente da República concordou com o Governo e Rovisco Duarte escapou de ser posto em xeque.

Agora, depois do Expresso ter noticiado que, afinal, ainda há relevante material roubado à solta, Marcelo Rebelo de Sousa foi rápido a reafirmar a necessidade de se apurar a verdade sobre Tancos. Mas manteve o foco nas instituições responsáveis pela investigação - fê-lo na nota que publicou no site da Presidência e também na reunião do Conselho Superior de Defesa Nacional que se realizou em Belém na sexta-feira. Para já, o PR poupa, quer os responsáveis políticos, quer a chefia do Exército.

Na nota colocada na página oficial da Presidência, "O Presidente da República reafirma, de modo ainda mais incisivo e preocupado, a exigência de esclarecimento cabal do ocorrido com armamento em Tancos".

Numa clara referência aos responsáveis pela investigação e às conhecidas guerras entre PJ e PJ Militar, Marcelo diz "ter a certeza de que nenhuma questão envolvendo a conduta de entidades policiais encarregadas da investigação criminal, sob a direção do Ministério Público, poderá prejudicar o conhecimento, pelos Portugueses, dos resultados dessa investigação".