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Eleição de Vitorino para a liderança da Organização Internacional das Migrações testa poder dos EUA

Governo está “moderadamente otimista” na eleição para diretor-geral. O grande rival para o dia 29 é um evangélico polémico, dos Estados Unidos. Mas a organização, em nove diretores, já teve oito americanos

Luísa Meireles

Luísa Meireles

Redatora Principal

António Vitorino conhece bem os temas da migrações desde que foi comissário europeu da Justiça

António Vitorino conhece bem os temas da migrações desde que foi comissário europeu da Justiça

alberto frias

A velha máxima de “prognósticos só no fim do jogo” volta a aplicar-se à diplomacia portuguesa, que desde o princípio do ano tornou a bater a todas as portas para tentar garantir um cargo internacional para mais um português — António Vitorino, como diretor-geral da Organização Internacional das Migrações. A OIM nasceu em 1951 mas está desde 2016 integrada na estrutura multilateral das Nações Unidas.

O ministro Santos Silva confia “num bom resultado” para o português, mas reconhece que a eleição, marcada para 29 de junho, “é difícil”. Não apenas porque o principal rival é um americano — e uma candidatura dos Estados Unidos nunca é para desvalorizar — mas também porque a eleição, qualquer que seja o resultado, vai servir de teste à credibilidade deste país na cena internacional.

Ken Isaacs é um candidato polémico (ver perfil), mas nem por isso a máquina dos Estados Unidos deixou de puxar por ele para esta eleição. A OIM, criada para resolver a situação dos refugiados europeus no pós-guerra, tornou-se uma organização de vocação mundial, embora pouco conhecida.

O diretor-geral foi quase sempre um americano (oito em nove), regra geral embaixador — o que teve origem em decisões não escritas do pós-guerra. A exceção, o holandês Bastiaan W. Haveman (1961-1969), foi eleito com o apoio dos Estados Unidos. Estes reclamam ser o principal contribuinte desta organização de 169 Estados-membros (embora a União Europeia reclame o mesmo estatuto de financiador número um) e um orçamento de mil milhões de dólares.

Tal facto dá aos EUA força acrescida, tanto mais que há quem tema que se o candidato americano não for eleito, o país congele a contribuição, como fez com a UNESCO em 2011, da qual se retirou no final de 2017.

Competência vence?

Agora, num momento particularmente marcante na vida da organização, em que esta se tornou parte do sistema multilateral da ONU, é a primeira vez que não-americanos desafiam o poder americano. António Vitorino é um deles, a outra é a atual diretora-geral-adjunta, a costa-riquenha Laura Thompson. Mulher e conhecedora da máquina, garante a continuidade, mas também pode tornar-se a candidata do ‘desempate’ entre Vitorino e Isaacs.

A diplomacia portuguesa crê que há um reconhecimento de que Vitorino é o candidato mais competente mas, como diz ao Expresso a especialista e analista sénior da Open Society Foundation, Guilia Laganà, “a este nível de escolhas nem sempre a competência vence” e há agora “uma oportunidade para mudar”. Na gestão dos equilíbrios internacionais, por outro lado, pode contar o facto de o ACNUR ser dirigido por um europeu, que sucedeu a António Guterres.

Para já, a audição que os candidatos prestaram a 17 de maio perante a Assembleia Geral da OIM, no mesmo processo que foi adotado para a eleição do secretário-geral da ONU, correu bem a António Vitorino — cuja candidatura foi aceite à partida com alguma desconfiança nas Necessidades. Na “casa da diplomacia”, houve quem temesse as repercussões a prazo do “excesso” de candidaturas portuguesas, o que pode ser visto como uma sobrerrepresentação do país.

Vitorino considera que é possível trazer para a resolução do problema das migrações a sociedade civil, os media e os empresários. “As migrações são uma aposta triplamente vencedora, para os países de origem, de destino e para os próprios migrantes, para o que é preciso criar confiança e uma imensa cooperação internacional”, afirma no pequeno vídeo da sua candidatura.

A partida joga-se em África

A uma semana da votação final (que tem de ser ganha sempre por dois terços, em sucessivas voltas), “há a esperança de que António Vitorino possa ganhar, porque a OIM precisa de uma liderança competente”, disse ao Expresso Guilia Laganà. Em 1945, havia 11 milhões de migrantes. Em 2018, são 258 milhões. A OIM, sozinha, lidou com 20 milhões.
Mas nada é certo. Para esta especialista em migrações, pode haver uma onda de antipatia face ao candidato americano devido ao seu perfil polémico, mas os votos podem dispersar-se por Vitorino e Thompson. “Na Europa, os dados estão lançados” diz, apontando África como o continente decisivo. “Os EUA estão a fazer uma forte campanha neste continente, que detém mais de 50 votos”, afirma. Dito de outro modo e por uma fonte portuguesa, “o estranho candidato americano anda a fazer estragos”.

PERFIL 
KEN ISAACS

Foi uma surpresa quando a Casa Branca anunciou a candidatura deste gestor a diretor-geral da Organização internacional das Migrações (OIM). Vice-presidente da organização cristã evangélica de ajuda humanitária Samaritan’s Purse (cuja missão é “ajudar em nome de Jesus”), suscitou de imediato forte polémica. Apesar do trabalho humanitário desenvolvido pela sua organização em muitos países, Isaacs tornou-se conhecido pelas suas boutades.

No Twitter, logo após o ataque terrorista na ponte de Londres, em junho de 2017, escreveu que “se lerem o Corão, é exatamente isso que a fé no Islão instrui os seus fiéis a fazer”. Isaacs declarou-se mais tarde arrependido e o tweet passou a privado. Em 2015, a propósito do Acordo de Paris sobre alterações climáticas, considerou-o “uma anedota”. Sobre os refugiados, manifestou-se também sobre quem deve ser ajudado em primeiro lugar: “Há dois grupos de refugiados. Alguns podem regressar a casa e outros não. Os cristãos não poderão regressar. Têm de ser a primeira prioridade”. Ainda governava Barack Obama e foi a propósito da abertura deste em receber nos EUA mais refugiados sírios. Apesar da sua longa carreira em operações humanitárias o que, no terreno africano, lhe tem valido apoio, Isaacs não tem qualquer experiência diplomática. Na Administração Bush, foi um dos responsáveis pela agência de desenvolvimento USAID.