Siga-nos

Perfil

Expresso

Política

Bloco adia discussão sobre SNS e dá segunda oportunidade ao PS

MIGUEL A. LOPES/LUSA

Os bloquistas confrontaram o PS com a memória de Arnaut e exigiram clarificação. Socialistas foram ambíguos. Proposta de Lei de Bases bloquista não foi a votos

O Bloco de Esquerda decidiu não levar a votos a sua proposta de revisão da Lei de Bases da Saúde e atirou a discussão para os próximos meses. A decisão foi anunciada por Pedro Filipe Soares, líder parlamentar do Bloco, mesmo no final do debate desta sexta-feira, acabando com todas as dúvidas que se foram gerando durante a manhã. Os bloquistas evitaram assim mais um choque frontal com o PS, mas não sem uma provocação final: quando chegar o momento, os socialistas terão de decidir se honram a memória de António Arnaut ou se dão a mão a Rui Rio, sugeriram os bloquistas.

O anúncio de que o Bloco decidira baixar o seu próprio diploma à comissão de Saúde sem votação para que possa ser discutido e trabalhado na especialidade chegou pela voz de Pedro Filipe Soares e foi servido num tom particularmente amargo: “[Adiamos a votação] para que não seja o PS a ajudar a direita a chumbar a proposta de António Arnaut e de João Semedo. Para não defraudar os bloquistas, os socialistas que acreditam no Serviço Nacional de Saúde e o país que acredita no Serviço Nacional de Saúde”, afirmou o bloquista.

Depois de um debate em que os socialistas se viram numa posição complexa - fazer contenção de danos à esquerda, sem hostilizar gratuitamente a direita -, foi Pedro Filipe Soares, na sua intervenção final, a colocar o dedo na ferida: hoje, disse, o Bloco não sabe se a direção do PS se revê na proposta de um dos seus fundadores ou se prefere “virar as costas a António Arnaut para dar a mão a Rui Rio”. “Esperemos que [no futuro] haja uma maioria que não lhe vire as costas”, desafiou o bloquista.

Com esta decisão, o Bloco aproxima-se do calendário definido pelo Governo: em setembro, é esperada a entrada de um diploma inspirado nos contributos da comissão presidida por Maria de Belém Roseira, a mulher escolhida por António Costa para estudar a reforma do SNS. Ainda antes do verão, o PSD entregará a sua própria proposta para rever a atual lei. Resumindo: os socialistas terão de decidir se voltam à esquerda ou se continuam ao centro.

Até que as PPP e as taxas moderadoras nos separem

O debate potestativo tinha sido agendado pelo Bloco, que deu o tiro de partida: na intervenção inicial, o deputado Moisés Ferreira declarou guerra às Parcerias Público-Privadas (PPP), exigiu o fim das taxas moderadoras na Saúde e lembrou António Arnaut por cinco vezes. O objetivo era claro: confrontar o PS com as suas próprias contradições.

Com os comunistas a excluírem-se do debate - “a resolução dos problemas não depende de qualquer alteração à Lei de Bases”, chegou a dizer a deputada Carla Cruz - e com os democratas-cristãos mais concentrados em denunciar a radicalização do Bloco -, a discussão sobre o SNS fez-se a três.

O Bloco pressionava, o PSD tentava seduzir os socialistas e o PS respondia como podia: prometendo diálogo à esquerda e puxando os sociais-democratas para o centro.

A estratégia do PS foi cumprida a duas vozes. Primeiro, António Sales. O deputado socialista tomou a palavra para lembrar que era “absolutamente crucial olhar para o setor privado e social como complementares”, que não devem existir “preconceitos ideológicos” na hora de olhar para os investimentos na Saúde e que as taxas moderadoras “devem ser vistas como elemento de moderação da procura”. Respostas diretas ao Bloco e ainda mais um aviso: “António Arnaut era o fundador do partido. Não precisamos de intérprete das palavras de António Arnaut”, chegou a dizer António Sales.

Depois, foi a vez de Maria Antónia Almeida Santos, a nova porta-voz do PS, e os decibéis baixaram consideravelmente. “Estaremos preparados para fazer um trabalho de consenso. O debate de hoje é apenas mais uma etapa de um caminho trilhado por todos. Saibamos construir os necessários compromissos. Com o empenho de todos, será possível fazer uma nova lei de bases”, afirmou a deputada socialista. Já antes, a também deputada Catarina Marcelino tinha garantido que é “mais o que une” as propostas [dos dois partidos] do que aquilo que as separa

Ao polícia mau e polícia bom, juntou-se a figura do inquiridor. Foram vários os deputados socialistas a desafiarem o PSD a esclarecer o que quer e ao que vem. O deputado social-democrata José Matos Rosa seguiu o guião e, ora denunciava o caráter “radical” e “demagógico” da proposta do Bloco, jurando oposição frontal, ora prometia disponibilidade para “colaborar e para dialogar” com o PS. Será que o canto de sereia do PSD seduz os socialistas?