Siga-nos

Perfil

Expresso

Política

Santana, o grande conciliador: "Ó Rui ... o PPD/PSD é uma pessoa"

TIAGO MIRANDA

Nem sombra do "menino guerreiro" que encostou Rui Rio às cordas na recente disputa interna. Numa clara demarcação de Luís Montenegro e dos "Chicos espertos", Pedro Santana Lopes foi ao Congresso na pele do grande conciliador. "Sentido de responsabilidade" é a sua nova palavra de ordem. Até 2019, há convergência politica

Tiago Miranda

Tiago Miranda

Fotojornalista

Não foi politicamente tão sexy como noutros tempos, nem tão surpreendente, nem tão "Menino guerreiro". A sala não vibrou como dantes. Mas ouviu atentamente. E Pedro Santana Lopes ficará para a história do Congresso do "Rioismo" como "o" protagonista da mais inédita reconciliação da vida do PSD.

Santana deu a taça a Rui Rio - "a iniciativa coube-lhe a ele" - mas se o perdedor (e Santana perdeu, com 45% de votos nas diretas) não estivesse disponível, o PSD tinha vivido este Congresso literalmente partido ao meio. A escolha de Pedro Santana Lopes foi outra. Optou pelo "sentido de responsabilidade" para slogan do momento. E foi em nome do sentido de responsabilidade que justificou a viragem.

Depois das sessões de socos que desferiu ao agora líder nos debates e na campanha que o deixou a dois passos da vitória, Santana assumiu o papel de co-autor duma "convergência política" que ambos, Rui e Pedro, se comprometem a levar até às próximas legislativas.

"Ó Rui ...". Foi assim, num intimismo à medida, que Santana se foi referindo ao novo líder do partido, agora uma espécie de companheiro de uma empreitada comum - e Santana chamou-lhe mesmo "o meu companheiro Rui Rio". "Somos um partido só", "O PPD/PSD é uma pessoa", foram frases num discurso pensado para um cerimonial de quase comunhão com que o ex-líder do partido e ex-primeiro-ministro planeou e conseguiu gerir a derrota.

"A Rui Rio - disse - cabe a legitimidade para liderar, a nós cabe ajudar nesta tarefa tão difícil que ele tem pela frente". E difícil porquê? Porque Rio escolheu um caminho que Santana assumiu diferente do seu e que inclui dizer em voz alta que admite viabilizar um Governo do PS.

"Eu confesso que fiquei tranquilo por ouvi-lo dizer que viabilizar um Governo PS não é um Bloco Central", confessou, como se Rio tivesse dito diferente na campanha interna. Numa prova de recuperação política recorde, Santana Lopes mostrou que já digeriu o tema que mais o inflamou contra o recente adversário e está "disposto a ajudá-lo a ganhar as legislativas".

Santana avisou, mesmo assim, que há questões dificeis pela frente. Por um lado, porque "o mundo mudou", a geringonça não é vista como a anormalidade que parecia e "o grande desafio é saber como é que se vai integrar o PSD neste mundo de questões novas" . Mas Pedro Santana Lopes está pacificado. Por terem escolhido "um líder corajoso, sem medos e que enuncia prioridades que defendem a integridade". E porque, ao contrário de outros, não gosta "de Chicos espertos".

Foi o momento de demarcação, quer de Miguel Relvas (Santana lembrou os que dão entrevistas a dizer "que este é um lider para dois anos"), quer de Luís Montenegro, que reagiu aos que o acusaram de calculismo por não se ter candidatado e vir agora assumir-se como candidato à sucessão: "Eu não caio nessa conversa de calculismos. Mas cada um sabe de si e só Deus sabe de todos".

A pacificação atingiu um cúmulo tal que Santana chegou a dizer sentir-se "mais feliz do que se tivesse ganho". "Nós podemos discordar, mas ... por amor de Deus, o líder acabou de ser eleito", afirmou. "Unamo-nos!", foi uma espécie de grito de guerra. Perdão, de grito de paz. Até quando?