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Marcelo visita a terra da família de Marcello

Marcello Caetano, o último chefe de Governo do Estado Novo foi padrinho de casamento de Baltazar Rebelo de Sousa e Maria das Neves, pais do Presidente Marcelo Rebelo de Sousa

D.R.

Marcelo Rebelo de Sousa preside este sábado em Alvares, à sessão de entrega de uma doação de 60 mil euros para apoiar a reflorestação da zona que ardeu no incêndio de Góis. Acresce dizer que a família de Marcello Caetano, último chefe de Governo da ditadura era dessa freguesia.... e que Marcello foi padrinho de casamento dos pais de Marcelo

Marcello Caetano, último presidente do Conselho de Ministros do Estado Novo, não foi padrinho de batismo do atual Presidente da República. Mas podia ter sido: o ilustre catedrático de Direito foi uma espécie de mentor do médico Baltazar Rebelo de Sousa, 15 anos mais novo do que o sucessor de Salazar.

A relação de amizade entre os dois era tão sólida que Baltazar convidou Marcello José das Neves Alves Caetano para padrinho do seu casamento com Maria das Neves, e deu o seu nome ao filho mais velho do casal. Com o passar dos anos, os laços foram-se estreitando, bem como a relação entre Teresa de Barros (filha de João de Barros e mulher e de Caetano) e Maria das Neves, mãe do atual Presidente da República.

A amizade estendeu-se aos filhos, a ponto de Maria das Neves e Baltazar convidarem Miguel e Ana Maria Caetano, os dois filhos mais novos do “padrinho Marcello e da madrinha Teresa”, para padrinhos de Pedro, o irmão mais novo do PR.

Os pais de Marcello Caetano: Josefa Maria das Neves e José Maria Alves Caetano

Os pais de Marcello Caetano: Josefa Maria das Neves e José Maria Alves Caetano

Espólio da família Alves Caetano

A família de Marcello Caetano tem fortes ligações à freguesia de Alvares, que este sábado recebe o Presidente da República; foi nesta freguesia , na aldeia de Simantorta (concelho de Gois) que nasceu Ana Ritta, avó paterna de Marcello.

Ana Ritta viria a casar com Albino Alves Caetano, do lugar de Pessegueiro de Cima, e escolheu Simantorta para morada de família. O casal deslocou-se à festa de Pessegueiro de Cima quando Ana Ritta estava grávida de José Maria Alves Caetano, o pai de Marcello... que acabou por nascer em Pessegueiro de Cima, em 1863.

O pai do último Presidente do Conselho de Ministros da ditadura foi um homem dos sete instrumentos: Aos 12 anos veio a pé para Lisboa trabalhar como marçano. Gostava de escrever, teve uma enorme intervenção cívica nos bairros onde viveu e, entre 1911 e 1940, foi colaborador do jornal “A Comarca de Arganil” entre outros títulos da imprensa regional.

Em 2013, para assinalar o 150º aniversário do seu nascimento a 11 de outubro de 1863, a família fez uma reunião alargada. António, o seu filho mais novo, meio-irmão de Marcello, organizou um livro com os 300 artigos mais relevantes que José Maria publicou na imprensa regional entre 1911 e 1940, em parceria com Miguel, seu sobrinho, neto do homenageado, e filho mais novo de Marcello Caetano.

Muitos foram os textos que ficaram de fora; os organizadores só selecionaram “artigos cuja leitura nos pareceu ser pertinente”, na época em que vivemos: “Aqueles que estavam muito localizados no local ou na época não entraram", disse o investigador António Alves Caetano ao Expresso, em 2013.

Alvares, a freguesia onde nasceu a avó paterna de Marcello Caetano, teve o seu primeiro foral em setembro de 1281. O segundo foi conferido por D. Manuel em maio de 1514

Alvares, a freguesia onde nasceu a avó paterna de Marcello Caetano, teve o seu primeiro foral em setembro de 1281. O segundo foi conferido por D. Manuel em maio de 1514

D.R.

A mãe de Marcello, Josefa Maria das Neves, era natural de Colmeal, que à data do seu nascimento pertencia ao concelho de Arganil. A adeia de Colmeal era vizinha da do seu futuro marido, José Maria (Pessegueiro pertence ao concelho de Pampilhosa da Serra).

José Maria era quatro anos mais novo do que Josefa, a sua primeira mulher, mãe de Marcello e das quatro filhas deste matrimónio; o pai fez questão de assegurar que as quatro raparigas estudariam o suficiente para se bastarem a si própria em termos financeiros, porque não as queria dependentes da sorte ou do sustento do marido.

Marcello José das Neves Alves Caetano, o filho mais novo do casal nasceu em Lisboa a 17 de agosto de 1906; foi um aluno brilhante apesar de ter perdido a mãe aos nove anos, e viria a ser um ilustre catedrático de Direito.

Depois da morte de Josefa, José Maria voltou a casar; no total foi pai de nove filhos.

O grande repórter da Guerra de Espanha

O irmão mais velho de Josefa, chamava-se António Joaquim das Neves, e foi professor primário em Alvares, na sede da Junta de Freguesia do mesmo nome, onde casou com Emília das Neves e teve um filho, batizado com o nome de Hermano Neves.

Hermano, que nasceu em Alvares em 1884, era primo direito de Marcello Caetano pelo lado materno, foi médico, escritor e jornalista, e ainda hoje tem uma rua com o seu nome na sede do concelho que este sábado recebe a visita do PR.

Hermano era o pai de Mário Neves, seis anos mais novo do que Marcello, e o homem que organizou as primeiras ‘sebentas’ do primo quando este começou a dar aulas na Faculdade de Direito de Lisboa [sebentas eram manuais com compilações de lições para estudantes universitários].

Mário Neves era um democrata e um jornalista de referência. Em 1936, ao serviço do Diário de Lisboa, foi um dos primeiros jornalistas a entrar em Badajoz, com Reynolds Packard, da “United Press”, Jacques Berthet, do “Temps”: “Estes jornalistas, e mais tarde Jay Allen, correspondente do Chicago Tribune, foram os primeiros a denunciar a violência e a “inflexível justiça militar” realizada pelo Exército de África, comandado pelo tenente-coronel Yagüe”, lê-se no site da Fundação Mário Soares.

“Para Mário Neves significou a última oportunidade de apresentar a verdade, já que depois do seu artigo de 16 de Agosto de 1936, a crónica do dia seguinte foi integralmente censurada e ele próprio envolvido numa polémica internacional sobre a veracidade dos relatos”.

Teresa de Barros já estava doente quando o marido sucedeu a Salazar. Foi Ana Maria, a filha mais nova, quem acompanhou o pai em visitas oficiais e deu um toque moderno à ‘função’

Teresa de Barros já estava doente quando o marido sucedeu a Salazar. Foi Ana Maria, a filha mais nova, quem acompanhou o pai em visitas oficiais e deu um toque moderno à ‘função’

Arquivo A Capital

Este sábado é dia de festa em Alvares, sede da freguesia que recebe a visita do Presidente da República, para presidir à sessão de entrega de uma doação de 60 mil euros para apoiar a reflorestação daquela zona do concelho de Góis; de referir que a verba é doada pelos accionistas do jornal Observador, que também estão presentes.

Alvares acolhe o evento com empenho, informando no site da junta que a sessão tem lugar no “salão do quartel dos bombeiros a partir das 15h00 e contará também com a presença da presidente da Câmara de Góis, Lurdes Castanheira, nela participando representantes do Observador”. O responsável pela equipa científica que vai implementar o projecto, José Miguel Cardoso Pereira, do Centro de Estudos Florestais do Instituto Superior de Agronomia e os membros representantes do Núcleo Fundador da Zona de Intervenção Florestal da Ribeira do Sinhel, também está presente.

Acresce dizer que o PR deve conhecer muitas histórias sobre a freguesia de Alvares; enquanto jovem estudante da Faculdade de Direito de Lisboa, na década de 60, Marcelo Rebelo de Sousa jantava todas as quartas-feiras em casa de Marcello Caetano. Baltazar e Maria das Neves estavam em Moçambique porque, pouco depois de sucedido a Salazar na chefia do Governo, Caetano nomeou Baltazar Rebelo de Sousa para o cargo de governador-geral da então província ultramarina, onde permaneceu até 1970. Depois de regressar a Lisboa, foi nomeado ministro, tutelando sucessivamente as pastas da Saúde, Previência Social e Ultramar.

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