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Expresso

Cartas dos leitores

Uma Sociedade de dever e compromisso

Carlos Raimundo

Nunca, como hoje, o sentido de responsabilidade marcou tanto a agenda da nossa Sociedade. Prudência e consciencialização são palavras de ordem num cenário em que não apenas se vive, mas sobrevive-se.

É ser-se demasiado economicista pensar que não há mais vida para além do défice. Há mais vida para além do défice. Há mais vida para além da dívida pública. No actual cenário português, o combate ao défice orçamental não deve ser a nossa única prioridade. O combate ao défice intelectual e à dívida da responsabilidade têm de ser o principal motivo de mobilização dos portugueses para superar os desafios que se aproximam.

Despertar para o dever

E por Português entenda-se todo aquele que nasce para o ser, por direito e dever, que nasce para servir a pátria e que nasce para partir em busca de novos horizontes. Não é admissível que cada um se tente demarcar das suas próprias responsabilidades como que depositando no outro, no próximo ou naquele que deseja vir em seu nome, a culpa do seu egocentrismo social. Compreende-se que se tenha esgotado o limite da sanidade colectiva mas é inadmissível que se continue a aprovar um individualismo quase que inato ao português. Não há adjectivação suficientemente rica para expressar a indignação que grita dos pulmões de uma alma lusitana. Onde está a mão invisível? Onde está o Português que faz o melhor para si mesmo e que é o melhor para a Sociedade onde vive? Eu quero-o! Quero-o para que restaure, a quem digno desse direito, o interesse por aquilo que lhe pertence e herdou. Não podemos continuar a lidar passivamente com os temas da Sociedade corrente, omitindo opiniões e manifestos só porque o tema não nos entra pela casa dentro ou só porque nos é menos fatigante banalizar esse tema.

Nem todo o cidadão pode considerar-se audaz para acusar aquele que pratica a política quando não o é, em boa conta, para assumir o dever de demarcar-se como alternativa. Apela-se à opinião, mas opinar por opinar com fundamentos vazios de conteúdo é mais do mesmo: uma mão cheia de nada!

A política ao serviço do povo

E o político? Aquele que, pomposamente vulgarizado, diz respeito ao exercício do poder é mais político do que representante? Quando orgulhosamente virgem, o político apela ao povo a sua representação, de corpo e alma sãos. À partida, não há como tirar o crédito a quem assume o compromisso de representar a vontade popular e de aceitar o desígnio eleitoral. Afinal, há mais nobre função do que esta? A partir do instante em que o político - que já não é virgem - faz uso do compromisso que assumiu para manipular ou influenciar abusivamente uma decisão a seu próprio favor, ainda que por conta de outrem, passa a depender da política e está perdido o seu carácter político. A política devia ser suficientemente autónoma para escolher os melhores e rejeitar os que fazem uso dela para sobreviverem, seja de que maneira for. Com toda a certeza que quem partilha deste sentimento sente o dever de romper com estas e quaisquer promiscuidades políticas porque a política deve estar ao serviço de todos e não ao serviço de cada um.

E como pode cada um de nós sentir-se representado quando o representante ou corrompe ou é corrompido?

Nesta fase, é inútil aparecerem novas gerações políticas com os mesmos apelos de sempre. O apelo já não tem crédito. Agora, resta-lhes fazer diferente.

Moderar a expressividade

Parecendo que tudo isto não seja já suficientemente pérfido, há, ainda, a necessidade de abordar uma última questão. Ao longo dos últimos meses, muitos têm sido os representantes que, em vanglória, perdem o seu sentido de responsabilidade, representação e de mútuo respeito profissional em plena "casa-mãe" da Democracia. A competência de "elogios" insultuosos entre os nossos representantes vai desde a arte circense à arte taurina. E já não há eufemismos que salvem metáforas hiperbolicamente demonstradas pelos nossos representantes. Não é propósito do artigo culpabilizar seja quem for, mas seria sugestivo responsabilizar quem tem de ser responsabilizado e proceder a um auto-juízo de consciência.

Parece chegada a altura, mais do que necessária, para cada um de nós reflectir sobre o seu papel na Sociedade e sobre a responsabilidade que cada um de nós tem no futuro que diariamente constrói.