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Cartas dos leitores

Sexo a metro!

Aproveitei, no passado mês de Agosto, um pouco das férias no OFIR para dar umas bicadas na sociedade portuguesa do último quartel do século XIX. E para companhia obrigatória escolhi, entre outros, o nosso querido Eça, já que estando longe de mim, na arte de escrever, por estar mais perto do Sol, é um espírito alegre, pois escreve com graça e ironia, parecendo, como eu, sorver as gotas da vida com insaciável sede, com medo que a vida se acabe!

E a leitura que vinha mesmo a calhar não podia ser outra que não fosse Uma Campanha Alegre das Farpas que ele escrevera de parceria com esse, também não menos vulto da língua portuguesa, Ramalho Ortigão.

Afinal, decorridos mais de cem anos, constata-se que as críticas à sociedade e aos políticos do seu tempo, ainda hoje são actuais e pertinentes. Para Eça os políticos eram todos "corruptos, esbanjadores da Fazenda e a ruína do País". Os que estavam na oposição eram "os verdadeiros liberais, os salvadores da causa pública, os amigos do povo". Como hoje, eram os únicos detentores da verdade e possuíam na manga larga, a solução para todos os problemas! Os que detinham o poder eram os corruptos, os maus, os vendilhões da Pátria! "E o poder era detido pelos mesmos doze a quinze homens que alternadamente o iam possuindo"! Na oposição estavam os bons que deixavam de o ser logo que apanhavam as rédeas do poder.

A seguir fui ver como miavam e arranhavam os Gatos de Fialho de Almeida! E na verdade verifiquei que "miando pouco, arranhando sempre e não tendo medo nunca", cumpriram bem a missão felina, como era de esperar! Fialho era um depressivo. Exagerado na crítica mordaz. Tantas vezes injusta! A sua língua viperina cuspia veneno sobre políticos, artistas e escritores e não poupando sequer o Rei! As considerações, sem dó nem piedade, que ele tece a respeito da transladação dos restos mortais do poeta Guilherme de Azevedo, de Paris para Portugal, escandalizaram, sobretudo, o histórico grupo da nata dos nossos melhores escritores que constituía os "vencidos da vida", do qual fazia parte o próprio Ramalho que lhe havia já dedicado um capítulo das Farpas, no qual evoca as qualidades do poeta falecido em Abril de 1882. Faltava a Fialho a fina ironia e a bonomia do Eça que até parecia pedir desculpa, com um sorriso, às suas vítimas! Longe de serem tratadas como os ratos com que os gatos de Fialho brincam antes de os comerem! A sua vida, de certo modo, arrastou-se com certa frustração! Casou tarde e viuvou cedo! Foi médico, mas quase chega a não exercer! Criticou com ferocidade a monarquia e morre isolado aos 54 anos por ter dado uma cambalhota que o largou no colo do ditador João Franco! Quis deixar um romance mas parece não ter tido tempo para se deleitar com o prazer de dar largas à sua imaginação, como prosador. Dotado de um espírito panfletário, cedo enveredou, como já se viu, pela sátira impiedosa! Mas teve o mérito, antes da cambalhota, de socar sarcasticamente uma sociedade doente e decadente, no limiar de uma República que viria a pôr termo a oito séculos, quase todos vividos em regime de monarquia absoluta! E é com o Ultimatum Inglês, de 11 de Janeiro de 1890, que ele passa a hostilizar abertamente a monarquia, ao lado de, entre outros, Guerra Junqueiro que, no Finis Patriae, ataca implacavelmente as mazelas do país e a prepotência dos Ingleses.

E a sua revolta é tão grande que Fialho, nos Gatos, chega mesmo a voltar-se para a Nação irmã, defendendo um Iberismo de tendência republicana, para melhor fazer frente ao escandaloso e injusto comportamento dos Ingleses a quem antes havíamos ensinado caminhos e carreiros pelo sertão Africano, onde, ao contrário, dos recém chegados, já lá estávamos desde há séculos! Pena é que mais tarde viesse a corrigir a trajectória do tiro, pelejando a favor do já caduco sistema monárquico! Ele que até havia assumido o papel de activista contra a monarquia, insurgindo-se implacavelmente contra os vencedores da revolta do 31 de Janeiro de 1891!

Teve, contudo, o mérito, como crítico mordaz, de denunciar tudo e todos, sempre com o propósito firme de contribuir para uma nova sociedade mais justa e fraterna.

Mas, dos Gatos, tocou-me profundamente a alma a Educação do Povo, onde ele pinta com tintas fortes o quadro negro do "tráfico do amor infame" que grassa na Lisboa do seu tempo! Ali fala "daquela neta que a avó cedeu à mulher dum cocheiro, a qual ia todas as noites vendê-la, por essas casas de passe, aos apetites sádicos de meia dúzia de velhos devassos".

Fala das crianças, já sabidas, que não chegam a viver a santa inocência da sua tenra idade, com pressa de serem mulheres! Fala, também, no texto: O Luxo pelintra: Em Portugal todos querem parecer aquilo que não são, do pobre com mentalidade de rico; da desproporção entre as exigências de uma vida simples e uma vida sumptuária, ou seja "entre os recursos e os gastos"! Não poupa a aristocracia, referindo que, por ocasião do casamento de D. Carlos, não foram poucas as famílias da corte que penduraram no prego mobílias e talheres e algumas famílias ilustres, mesmo fogões de cozinha, "para acudirem à sua própria representação na cerimónia"! Fala ainda do homem do campo que não pretende mais que os filhos se agarrem à rabiça do arado e da filha do homem da esquina que, com a sua loja dos trezentos, daquele tempo, onde não faltava o livro de fiados, não quer também que ela venha a ser uma rapariga de balcão mas sim uma senhora da alta-roda da cidade!

E, decorridos cerca de cem anos, a doença febril de cada um viver acima das suas posses continua a dar espectáculo! É a exigência de uma sociedade de consumo que, através da publicidade enganosa, ilude o consumidor que, usando sem controlo, os processos de venda a prestações cujo preço dos produtos comprados, vem onerado com juros e encargos publicitários, o leva a comprometer antecipadamente os vencimentos ou salários que ainda não recebeu pelo facto de o mês não ter chegado ao fim! São as letras de favor que circulam nos bancos comerciais, a altos juros e os cheques sem cobertura que se acumulam nos tribunais à espera do julgamento! São as casas comerciais que abrem hoje de qualquer maneira, para fecharem amanhã, ficando para traz, por liquidar, créditos de fornecedores e rendas atrasadas por pagar ao senhorio, esquecendo que nem todos nascem com o espírito empreendedor de que fala Bill Gates, o homem surpresa da informática do século XX! Depois vem a penhora de bens mobiliários ou dos salários ou vencimentos que, no fim, vai agravar ainda mais o preço das compras feitas sem a garantia segura do seu pagamento. E assim uma compra que se podia comprar no mês seguinte a pronto por cem, vai ser paga no futuro pelo dobro ou coisa parecida! Continua a doença de imitação! Todos querem ser patrões, engenheiros, doutores, etc., etc. E se possível for, viver sem trabalhar, melhor ainda! Os cotas (a velhada) que paguem a factura!

A vida dos adolescentes de hoje não é garantia provável de uma sociedade melhor de amanhã! Bem ou mal, já vai longe o tempo em que se namorava aos olhos de toda a gente já na década de cinquenta; em que à noite a rapariga da janela falava para o namorado que, lá em baixo, empinado, tomava, como se dizia, gargarejos! Se uma ou outra descambava era isolada pela própria família e pela sociedade, passando a ser, para ela o casamento, uma mera miragem. Era lhe negado o direito de reabilitação! A sociedade rejeitava-a e, para sobreviver, ou mudava de terra ou o seu destino era o dos trabalhos mais rudes! Quantas vezes a prostituição! Ocorre-me aquela figura carismática conhecida pela alcunha da matrona, dos verdes anos da minha infância. Mulher já curvada pelo peso de muitos Janeiros que lhe haviam regelado a pele; sempre de pau na mão para afugentar os cães vadios que lhe podiam dilacerar as pernas já varicosas; de seios espalmados e pendentes a chegarem quase ao umbigo e olhos escondidos por entre as órbitas que já não distinguiam o dia da noite; ventre inchado a lembrar a mulher grávida já no fim do tempo; boca desdentada que lhe adulterava a voz cantante de tempos idos! Passava o dia a pedir de porta em porta. E quando alguém, do seu tempo de menina e moça, lhe lembrava com gestos maldosos a vida devassa que vivera com sofreguidão, apressava-se a benzer-se e a gritar bem alto: "Agora ando na lei de Deus".

Ainda bem que hoje a sociedade aberta em que vivemos é mais tolerante. A virgindade como símbolo da castidade pertence ao passado. Até se conta que, certo dia, do nosso tempo, estava já a decorrer a cerimónia do pedido da mão de uma noiva, com convidados, banquete e tudo, quando de repente os noivos se isolam e a noiva, feliz, cândida, na ânsia de fazer a surpresa da noite, se abre em êxtase para o noivo, segredando-lhe que estava virgem, donzela, ou seja pura como quando foi botada ao mundo! O noivo surpreendido salta e exclama irritado: "Fui enganado! Fui enganado! Se não serviste para os outros, também não serves para mim! Já não há casamento".

Está a assistir-se a um certo abastardamento das relações entre jovens de sexo oposto. Propositadamente evitei o termo namorados porque hoje os adolescentes não namoram! Falam e, quando se entendem, começam logo a acasalar-se! E fazem-no já na rua, dentro dos seus próprios carros ou a desoras na praia ou no monte. Nos acessos às praias aqui no Minho, é verem os carros, à noite, estacionados mesmo juntos ao passeio e à beira de um lampião, para que as pessoas, ao passarem, desprevenidas, os possam ver mesmo nus, a masturbarem-se, fazendo galhofa ainda de quem passa! Espectáculo degradante de ultraje à moralidade pública! A rapariga de hoje, salvo raras excepções a confirmarem a regra, rodada já por não sei quantos companheiros, entrega-se, para casar, quando a idade da luxúria vai passando, ao primeiro homem que lhe aparece e lhe dá sinais de alguma segurança! E depois são os filhos de casamento por conveniência que também não são filhos de uma relação de amor que nunca tiveram! Hoje a relação é mais carnal do que de sexo com amor. A multiplicidade de sexo a metro, com a alternância de parceiros imposta pela variedade e novidade, foi descaracterizando as relações entre parceiros e desvalorizando o papel da mulher como companheira fiel no bem e no mal e educadora dos filhos que, para crescerem saudáveis, precisam de um lar iluminado a jorros de raios de carinho e amor para amanhã reflectirem, quando chegar a hora de construírem o seu próprio lar. Os jovens de hoje não compreendem e até fazem troça da paixão arrebatadora da Teresa do Amor de Perdição, do nosso grande romancista Camilo Castelo Branco. Riem-se. Isso, a eles já não diz nada! Razão tem João Carlos Espada quando diz que hoje não se emprega a expressão "fazer amor" mas a expressão "fazer sexo" a qual "reduz a relação sexual a um acto mecânico, puramente físico, de onde foi removida qualquer alusão a romance, ou a envolvimento afectivo"! Claro a seguir vem a instabilidade e precariedade no casamento que, se para a geração de meus pais era ad aeternum, hoje é, cada vez mais, a prazo! E com o nosso Primeiro-ministro José Sócrates nem preciso é já a culpa como fundamento para o divórcio. Entende que nenhum dos cônjuges pode enriquecer à custa do outro. Verdadeiro socialista! O marido e mulher já vão tendo debaixo do travesseiro a cartilha dos direitos que a lei lhes confere e, ao menor atrito, é ver quem berra mais alto! Claro que esquecem os deveres e o respeito para com os filhos que, em caso de divórcio, são lançados, quantas vezes, ainda de tenra idade, a uma sociedade inexorável que os devora, explorando a sua precoce "orfandade"! Estou a lembrar-me da CASA PIA. A família, como célula de uma sociedade saudável, está a degradar-se dia após dia com a influência negativa dos órgãos de comunicação social! As cenas virtuais de certos programas da televisão que temos, a começar pelas telenovelas, são sugadas pelos sentidos das crianças, dos adolescentes e até de pessoas da terceira idade, que tomam por reais e vivem tais cenas, quantas vezes escabrosas e aberrantes! Quase sempre à volta dos temas aliciantes de violência e sexo! Chega-se a confundir a liberdade com libertinagem! E a violência representada sempre com requintes de crueldade!

Quousque tandem...? Até à ruptura com o vício, a violência e o sexo a metro. E até ao reencontro com uma sociedade livre sim, mas justa, fraterna, humana e solidária também.

Avelino Barroso, Braga

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