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Cartas dos leitores

Nota Mínima sobre o que em estudo razoado se poderia vir a chamar Tratado da Cunha

Os pedidos de favor, que evoluíram no tempo para o que hoje, comummente, chamamos de "cunha", são conhecidos em documentos que chegaram até nós desde a Antiguidade Pré-Clássica - das tábuas de argila aos hieróglifos murais, por conseguinte já identificáveis nas Civilizações Mesopotâmicas e ao longo das várias Dinastias Egípcias. Os abundantes autores da Antiguidade Clássica, falamos portanto das Civilizações Grega e Romana, deixaram-nos sobre o tema um tão variado leque de situações, que poderíamos aí recolher matéria que consubstanciaria o tal Tratado.

Vejamos, porém, acolhidos à pesquisa em quatro dicionários da Língua Portuguesa, o que nos reservam para o termo "cunha" com sentido figurado, desde o de Cândido de Figueiredo, de 1913, até ao de Houaiss, de 2005, passando pela Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira e o famoso exemplar, enfim publicado, no ano de 2000, pela Academia das Ciências de Lisboa.

Cunha (com sentido figurado) :

- Recomendação, pedido especial feito por alguém a favor de uma outra pessoa ;

- Pessoa que intercede por outra, que faz essa recomendação;

- Recomendação ou pedido de pessoa influente;

- Empenho ou pessoa que serve de empenho;

- Pessoa que tem influência, que intercede ou é susceptível de interceder em favor de outrem.

Importa então perceber porque teria a palavra ganho este sentido figurado. Na verdade a cunha, que é uma peça de forma prismática, cuja secção é um triângulo isósceles e que se emprega para elevar ou nivelar um objecto, cedeu o sentido de servir para elevar .

A aplicação de sucessivas cunhas em estrutura de peso elevado, à qual não é possível colocar um elemento com rodas, permite também, promover o seu avanço, o seu progresso ao longo de uma superfície, utilizando o desnível criado, para alterar o centro de gravidade do móvel e proporcionar-lhe um desequilíbrio que gera um movimento restabelecedor da estabilidade. Assim sendo, a cunha introduzida pode promover um progresso, como que, por sucessivos "empurrões". É esta última acepção que também vem a ser utilizada com sentido figurado.

Ilustraremos agora tão-só dois exemplos na nossa História pátria - um de grande visibilidade mas mal conhecido como tal, e um outro praticamente desconhecido, mas bem curioso.

O primeiro é contemplado no último parágrafo da famosa Carta de Pero Vaz de Caminha, sobre o "achamento" do Brasil, a que o historiador brasileiro Capristano de Abreu chamou "diploma natalício lavrado à beira do berço de uma nacionalidade futura ". Vejamos então o que lá o autor deixou escrito :

"[...] E pois que, Senhor, é certo que, assim neste cargo que levo, como em outra qualquer cousa que de vosso serviço for, Vossa Alteza há-de ser de mim muito bem servida, a Ela peço que, por me fazer singular mercê, mande vir da Ilha de São Tomé Jorge de Osório, meu genro, o que dela receberei em muita mercê. [...] "

O galardão, ou benefício, que qualquer súbdito espera do seu Senhor, em recompensa de um serviço prestado, é aqui invocado por Pero Vaz de Caminha, ao terminar a Carta que dirigiu a el-rei D.Manuel I . Pediu com coração de pai, em nome de uma filha, amargurada no reino pelo degredo a que estava sujeita sem marido, Jorge Osório, na Ilha de São Tomé.

O outro exemplo, praticamente desconhecido, é uma carta original, autógrafada, do futuro marquês de Pombal, Sebastião José de Carvalho e Melo, para seu irmão, Francisco Xavier de Mendonça Furtado, Governador e Capitão-General do Estado do Grão-Pará e Maranhão. Encontra-se depositada na Colecção Pombalina da Biblioteca Nacional de Portugal, com a Cota PBA 626, a fl. 113 (f.348), e reza assim :

"Meo Irmão do meo Coração. A Memoria inclusa he de hua Criada da estimação da Rainha Nossa Senhora que se interessa pelo Tenente Joseph Pedro da Costa Souto-maior. Terei hum grande gosto em que acheis occasião de o favorecer em tudo o que a justiça der lugar para o seo adiantamento.

E sempre me acheis para servir vos com a mais affectuosa e cordial vontade.

Deos vos guarde e felicite como ardentemente dezejo. Bellem, 6 de Julho de 1756.

Irmão mto. amte. do Coração

Sebastiam Joseph de Carvalho e Melo"

Estamos, neste caso, em presença dum pedido de favor veiculado por um ministro, próximo no convívio do rei e da rainha, e dirigido ao representante do monarca num Estado ultramarino que, só por acaso, é seu irmão. A natureza da solicitação é distinta da anteriormente apresentada, já que a pessoa donde vem pressupõe uma interpretação comum a estas situações, para quem os pedidos são, afinal, quase ordens.

O favor pretendido é, por certo, uma promoção que os familiares desejavam para um oficial, aparentado com uma dama da casa da rainha, e por conseguinte colocada num nível elevado da hierarquia social do reino, a merecer o cuidado e o empenhamento pessoal do futuro marquês de Pombal.

Quisemos trazer aqui dois exemplos distintos de pedidos de favor, colocados ao mais alto nível das figuras do Estado, já que em ambos os casos se dirige, ou ao seu máximo representante - o rei, ou a um seu representante máximo - o governador.

Sublinharemos, a terminar, a elegância humilde de um pedido de mercê - quem sabe se Pero Vaz de Caminha só escreveu esta Carta para ter ocasião de o formular? Mas também a firme determinação de Sebastião José ao advertir o irmão de que tal gosto só poderia considerar-se se a justiça o justificasse - ou seja se, na verdade, o tal tenente tivesse qualidades para ser promovido.

À laia de conclusão podemos ainda evidenciar o facto de que o pedido de favor pode assumir a forma de uma recomendação, de um simples empenho ou interesse demonstrado, de uma mera pergunta que alguém dirige a outra, sobre terceiro que pretende beneficiar.

Aquilo a que chamamos as gerações profissionais ou as dinastias industriais e financeiras, são por si só o reflexo da importância de uma informação que, pré-existindo, pode favorecer. Quantas vezes ouvimos dizer a um militar de carreira que assim é na sua família desde o seu trisavô, estando já um seu filho também destinado a essa actividade das armas. O mesmo acontece na magistratura, na diplomacia e na política, bem como em algumas profissões liberais, tal é o caso frequentemente dos médicos e dos advogados, e ainda no campo artístico, especialmente com actores e músicos.

As corporações medievais de ofícios, estendem-se até aos nossos dias, especialmente nas grandes ourivesarias, mas também em alfaiates, pasteleiros e na construção civil e naval. Lembremos, mais recentemente, o caso da Fábrica dos Pastéis de Belém, ou o caso da empresa que confeccionou, nos últimos 300 anos o vestuário dos papas.

As dinastias financeiras e industriais reflectem a perpetuação do negócio respectivo, e não raro, tal como nas dinastias reais e imperiais, introduzem numeração após o nome, como Henry Ford IV ou Paul Getty III.

Como já referimos acima, a informação que o nome de família carrega, prefigura uma responsabilidade, mas também funciona, na maioria das vezes, como recomendação, por analogia ao reconhecimento público da qualidade de serviços ou dos produtos que àquele nome estão ligados.

É o que podemos considerar como uma "cunha" natural, esse apelido de família, que tantas portas pode abrir. Há sempre, porém, um reverso da medalha, e não raro se pode assistir a situações de prejuízo, de perseguição, ou de desdém, face a uma marca ou a um apelido.

Neste último caso diz-se, na gíria: " meteu a cunha errada".