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Um mau resultado para a Inglaterra

Miguel Monjardino (www.expresso.pt)

David Cameron desapontado. Gordon Brown aliviado. Nick Clegg perplexo.

Os conservadores tiveram um resultado menos bom do que estavam à espera. Os trabalhistas acabaram por ter um resultado menos mau do que era temido. Os liberais-democratas naufragaram depois de terem pensado que estavam à beira da terra prometida.

Três grandes virtudes caracterizam normalmente as eleições inglesas. A primeira é uma campanha eleitoral curta. A segunda é um resultado claro em termos de maioria parlamentar. A terceira é uma transição de governo extremamente rápida. Numa situação de mudança de poder, as coisas resolvem-se na manhã seguinte às eleições. Nas horas que se seguem, o novo primeiro-ministro forma o seu governo e começa logo a trabalhar.

As eleições inglesas são normalmente como as corridas de cem metros - rápidas e com um vencedor claro no fim. São também um voto a favor da estabilidade. O problema é que as eleições desta semana produziram um resultado muito diferente. Em vez de uma renhida corrida de cem metros tivemos o começo de um longo jogo de críquete, um jogo adorado pelos ingleses mas que pode durar dias até se conseguir perceber quem é que realmente ganhou.

Acho que o resultado das eleições é mau para a Inglaterra. A principal razão tem a ver com a economia e a sociedade do país.

A Inglaterra é uma das grandes economias mundiais. O país precisa de continuar a ser atractivo para as empresas e para o investimento. As empresas baseadas em Inglaterra precisam de ser mais competitivas e inovadoras. Só assim haverá mais emprego e riqueza. Só assim é que haverá meios para financiar o sistema nacional de saúde e a segurança social.

Uma das coisas mais interessantes na campanha eleitoral e no discurso político inglês foi a pouca atenção dada às questões económicas. Ao contrário do que foi sugerido por quase todos os políticos ingleses, a inovação e a criação de empregos qualificados não é uma coisa que se decrete. É, isso sim, uma coisa que se apoia e encoraja em termos de regras legais e fiscais e de atitudes políticas e sociais. Infelizmente, a atitude política dominante em Inglaterra parece-me ser claramente antiempresarial e populista em termos de discurso e propostas. O mesmo se passa no resto da Europa, onde é cada vez mais perigoso e deprimente ouvir os líderes políticos falar de economia e finanças.

Se olharmos para as finanças públicas, vemos que Inglaterra está com um défice orçamental perto dos doze por cento e com uma dívida pública extremamente elevada. Algumas regiões do país estão numa situação de completa dependência em relação ao orçamento. Do ponto de vista dos mercados financeiros internacionais esta situação é insustentável. Algo precisa de ser feito depressa.

O valor da libra em relação ao dólar e ao euro e as taxas de juro dos títulos de dívida pública inglesa a dez anos nos últimos dias sugerem que os investidores internacionais confiam na Inglaterra. Este voto de confiança assenta em duas coisas: na expectativa de que um novo governo será formado rapidamente e que este governo terá o apoio político social e parlamentar e a determinação para começar a pôr ordem nas finanças públicas inglesas.

O resultado eleitoral sugere o contrário. Mesmo que David Cameron ou os trabalhistas consigam um acordo parlamentar com os liberais, o novo governo inglês terá enormes dificuldades políticas em concretizar o pacote de austeridade que o país precisa de pôr em prática se quiser continuar a controlar o seu futuro. Tal como todas as capitais europeias, Londres precisa de levar a cabo uma profunda transformação económica e financeira nos próximos anos. Uma transformação deste tipo exige uma base de apoio política bastante alargada. Esta base de apoio parece não existir.

Suspeito que a Inglaterra terá de ir a eleições outra vez num prazo relativamente curto.

NÚMERO 6 de Maio produziu um mau resultado político para a Inglaterra. O novo governo terá muita dificuldade em reduzir o défice orçamental e a dívida pública e levar a cabo profundas mudanças económicas e financeiras. Londres está num impasse.

SOLUÇÕES + O discurso de Angela Merkel na quarta-feira no Parlamento alemão em defesa da zona euro. - Qual é a posição de Yukio Hatoyama, primeiro-ministro japonês, em relação à base de Futenma em Okinawa?

Karzai em Washington

O Presidente do Afeganistão estará em Washington na próxima semana. A visita de Hamid Karzai tem dois objectivos políticos. O primeiro é ser visto no Afeganistão e nos EUA como um líder credível. Esta imagem é crucial para o sucesso da campanha militar que o general Stanley McChrystal vai levar a cabo em Kandahar. O segundo é acelerar a transição política e militar para as forças afegãs controladas por Cabul. Para Washington o preço desta transição é o regresso da influência do Paquistão ao Afeganistão.

miguelmonjardino@gmail.com

Texto publicado na edição do Expresso de 8 de Maio de 2010