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"Poliamor" - porque surgem novas palavras

Publicação de pedido de Direito de Resposta por efeito de uma deliberação do Conselho Regulador da Entidade Reguladora para a Comunicação.

"Henrique Monteiro (HM) afirma que eu tentei impor o meu modelo (que não é "meu") como superior. Segundo ele, isto fundamenta-se no facto de eu ter dito que vivemos numa sociedade mononormativa. Na medida em que a monogamia é o único modelo relacional contemplado na lei, com privilégios legais, fiscais, e de reconhecimento social a ele ligados, isto implica que vivemos numa sociedade que privilegia a monogamia. Falar em mononormatividade não é criticar a monogamia: é dizer que o modelo associado tem privilégios e beneficia de um grau de imposição social. O poliamor não é superior à monogamia. E, ainda assim, ser não-monogâmico de forma consensual, responsável e igualitária tem um preço de discriminação a pagar.



Afirma HM que o poliamor é algo antigo. Uma rápida investigação teria permitido a HM distinguir poliamor (conceito criado no princípio dos anos 90 e que tem como base uma visão igualitária e feminista das relações românticas/íntimas/sexuais) de várias formas de poligamia (que englobam poliginia e poliandria) e que, regra geral, têm marcas de profunda desigualdade de género, e em que as famílias crescem em torno de um núcleo (geralmente, um homem) ao invés de, como é frequente no caso de relações poliamorosas, rizomaticamente. Talvez o ajude ler a breve historiografia da palavra que eu autorei em contexto académico, aqui.



HM fala em "condições de sucesso", recorrendo a uma visão que se aproxima do darwinismo social, equiparando evoluções culturais se processam a evoluções genéticas. As condições de sucesso são sempre relativas - sucesso para quem? O esclavagismo serviu muito bem as pretensões colonialistas portuguesas, mas os escravos mortos não chamariam a isso sucesso. HM pretende fazer surgir de uma História Naturalista acultural as práticas humanas que depois são traduzidas em produtos culturais (como a religião), pressupondo que essa 'natureza' comprova a superioridade do seu próprio modelo.



HM considera que o poliamor trará involução social: "as sociedades em que as relações são monogâmicas, no geral tiveram maior sucesso e são mais evoluídas do que aquelas em que são poligâmicas" sem ter a preocupação (académica) de substanciar o que diz. A Idade Média era tecnicamente monogâmica e ainda assim bem menos desenvolvida do que a cultura muçulmana do mesmo período histórico, só para dar um exemplo; a própria ideia de sociedades mais evoluídas é, de resto, outro exemplo de darwinismo social e uma expressão antropologicamente descredibilizada. Além do mais, falar de poligamia e de poliamor como se fossem a mesma coisa é totalmente equívoco; nunca existiu uma cultura poliamorosa, na medida em que nunca existiu uma cultura inteira a identificar-se com um conjunto de normas, valores e ética que não surgiram senão no fim do século XX.



Henrique Monteiro pede-me humildade. Mas é justamente por uma questão de humildade que eu sou obrigado a referenciar cada coisa que digo. Ao invés de fazer, como Henrique Monteiro fez, um artigo de opinião que aparenta ignorar a década e meia de investigação internacional sobre o assunto, que despacha em meia dúzia de parágrafos. Aconselho a leitura da minha tese de mestrado ("Amando vár@s") como ponto de partida para encontrar mais bibliografia sobre o assunto.



Uma pequena nota final: é uma prática preocupante citar ou comentar alguém sem identificar a fonte, "porque ele [eu] mais tarde pode arrepender-se de ter sido tão explícito (por exemplo, quando falar com uma filha)". Ainda que eu algum dia tenha uma filha, ter vergonha da minha vida seria ter vergonha das pessoas que amo - isso sim, algo que seria digno de ser criticado".



Daniel Cardoso

www.danielscardoso.net