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Expresso

Nuno Presa Cardoso

Use um latino

Tem olhos castanhos? Não precisa de pôr protector quando vai para a praia? Fala uma língua estranha que soa a russo? Não se preocupe. Você provavelmente é latino. E isso, que era uma coisa má, uma doença de pele incurável, um gânglio de um metro e setenta, passou a ser uma coisa boa, mesmo muito boa.

 

Nós já sabíamos que os latinos estão para os outros povos assim como o oxigénio está para a fogueira. Sem os latinos não havia combustão. Não havia chama. Não havia paixão.

 

Não é que o mundo fosse um lugar mau. Não. Era até um lugar porreiro, ordenado, arrumado, limpinho. Era assim um mundo mais lounge com muitos poufs espalhados pelo planeta. Existiriam igualmente pessoas com sentimentos, capazes de gostar e até de se apaixonar. De vez em quando, até seriam capazes de loucuras como oferecer uma flor ou escrever um postal de amor (uma carta talvez já fosse um demais).

 

Seria definitivamente um mundo mais cool se não existissem latinos.

Mas não. Sorry guys. Nós existimos. E por isso há gritaria, há confusão, há desarrumação. Há vizinhos histéricos, há palavrões no trânsito, há cuecas estendidas na rua, há telemóveis a tocar no cinema. E enquanto nós andávamos meio envergonhados por sermos como somos, e ultimamente também por sermos confundidos com os árabes, apareceram uns senhores americanos (sempre os americanos), os trendwatchers como eles gostam de se intitular, e chegaram à conclusão (desta vez brilhante) que nós (sim você e eu) somos uma tendência.

 

E os latinos, que sempre foram o ego do mundo, ficaram ainda mais inchados e ganharam novos motivos para celebrar. Foi a partir daqui que a caipirinha, o daikiri e a cuba-libre destronaram definitivamente o gin tónico, o vodka-laranja e o whisky de Sacavém.

 

Tudo bem, sou uma tendência, pensará você. Mas o que é que eu ganho com isso? Como é que os meus olhos castanho bota-de-camurça podem ficar a brilhar?

 

Calma. Acompanhem o raciocínio

 

Em Hollywood todas as estrela cintilantes querem aparecer nas festas de mão dada com um latino. Mais do que uns sapatos Blahnik ou uma mala Birkin é a companhia que define quem está in ou quem está out. E usar um latino é trendy.

O Latinware está rapidamente a espalhar-se por todo o lado. E mesmo nós portugueses que, até como latinos, éramos considerados de segunda, estamos a ser beneficiados. Em Inglaterra, Mourinho e Cristiano Ronaldo levam mães e filhas à histeria, enquanto Henrique Calisto provoca o mesmo efeito no Vietname, com as avós.

 

Ser latino está a tornar-se uma tendência à escala global. Uma global brand como gostam de afirmar os especialistas. The latin perfum prepara-se para vender biliões na Ásia. The Latin Look, uma marca de óculos escuros, está a ser testada (com sucesso) nas ilhas do Pacífico. É um processo imparável.

Portanto não façam nada. Não mudem de look. Não tirem as sandálias. Não cortem o bigode.

 

O Verão está a chegar. E com ele milhões de turistas. Pela primeira vez na História basta-nos ser nós próprios.

 

PS – Para os mais impacientes parece que voos para a Escandinávia estão mais baratos.

 

Nuno Presa Cardoso

Director criativo da BBDO