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Expresso

Nuno Presa Cardoso

Último dia

Todos nós já tivemos um último dia.

Último dia de férias, último dia da universidade, último dia de solteiro, último dia num emprego. Mesmo quem não teve nada disto, já teve, pelo menos, um último dia do ano.

O último dia de emprego é o mais estranho de todos os últimos dias (se nunca teve, aconselho). É um dia de sensações fortes. È como fazer bungee jumping, escalada, queda livre, rappel e sair à noite no Porto, tudo ao mesmo tempo.

O último dia de vida parece que também é intenso mas até agora ninguém escreveu sobre isso.

Há quem se prepare dias, meses, anos (no caso da função pública, décadas) para aquele dia em que se decide largar o emprego. Aproveito para manifestar o meu repúdio pela profusão de portas rotativas e deslizantes (ideia certamente do patronato) que está a acabar com esse pequeno prazer que consiste em bater com a porta na cara do chefe. Afinal a Constituição não defende assim tanto os trabalhadores. Enfim.

Treina-se ao espelho, escrevem-se mails e cartas. Pagam-se almoços atrasados, recuperam-se pequenas dívidas. Há quem volte aos tempos da escola e torne a escrever cábulas para saber o que dizer no momento certo.

Qual Deep Blue, antecipam-se todas as palavras do chefe, todos os movimentos, gestos e possibilidades. O que ele vai pensar, o que ele vai dizer, o que ele não vai dizer. Tudo é meticulosamente preparado. O último dia demora em média três meses a ser preparado. Até que finalmente chega o dia. O dia D. O dia de se despedir.

De manhã sente-se um certo paternalismo pelos futuros ex-colegas. Uma idiota sensação de superioridade. Quem se despede pensa que tem uns óculos especiais que permitem ver o que mais ninguém vê.

- Coitados, vão continuar por aqui... Não sabem o que perdem, as possibilidades que há lá fora. Os ordenados fabulosos, os horários flexíveis, os cinquenta dias de férias...

Quem se despede pensa que vai para o paraíso sem morrer.

Depois, à medida que se aproxima a hora d (eu sei que se escreve hora h mas não batia certo com despedir) os sentimentos vão mudando. Começa-se a colocar tudo em causa. Voltam as dúvidas, as incertezas. Teme-se até ser despedido por se estar a despedir. As pernas tremem. O coração bate mais depressa. Esquece-se tudo o que se havia decorado. As verdades que se iam dizer. A gargalhada que se ia dar na cara do chefe. Arranjam-se desculpas para ir adiando.

- Coitado, o chefe está cheio de trabalho, é melhor deixar para a tarde, ou para amanhã, ou para o mês que vem...

Mas pronto. As pernas parece que ganham vida própria e lá se aproximam do local do sacrifício. Entretanto a boca perde contacto com o cérebro e começa a soltar disparates. O cérebro grita, esperneia, tenta reatar a ligação mas não há rede. A boca fica por conta dela própria e, regra geral, só sai asneira.

É a altura da metafísica. O corpo permanece em frente ao chefe enquanto a outra parte vagueia pelos corredores, pelos gabinetes, pelo bar, até pelo parque de estacionamento.

O regresso à normalidade só acontece quando as pernas se amotinam contra a boca e decidem arrastá-la dali para fora. Tudo volta então a estar interligado. O cérebro reassume o controlo, mas nunca se saberá o que aconteceu verdadeiramente. O que se disse e o que se ouviu.

Não interessa. A partir daí é a felicidade.

É rir, correr, saltar, rebolar e subir paredes. É voltar ao oito anos. É como um balão cheio a esvaziar-se num repente. Dura pouco mas é uma sensação única.

Depois, bom depois existe também quem faça tudo isto de uma forma rápida e indolor, mas isso é outra história.

Há dias piores, há dias melhores mas o último é um dia estranho.

Até para o Bill Gates no seu último dia na Microsoft.

http://www.youtube.com/v/i1M-IafCor4&rel=1