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Expresso

Nuno Presa Cardoso

Os reis da multitarefa

Os americanos andam excitadinhos com a descoberta da mais recente tendência do comportamento humano. Dizem eles que o cérebro humano está a registar progressos notáveis e que a última geração apresenta já sinais evidentes de mudança. Chamaram-lhes a geração multitasking num artigo amplamente difundido na revista "Time", a newsletter da América.

 

Mas uma vez mais, fazem muito barulho por nada. O nome pomposo até pode ser uma invenção recente dos adoradores de baseball, mas esta capacidade é apanágio desde há muito de um outro povo (lamento senhores).

 

Mas afinal que geração é esta? Ainda segundo os cientistas norte-americanos, é o resultado de uma evolução contínua das capacidades cognitivas do ser humano. Num português correcto é a capacidade de fazer várias coisas ao mesmo tempo. E é nas novas tecnologias que se tem expressado em toda a sua plenitude. E avançam com números para nos impressionarem.

 

57% dos internautas americanos afirmam utilizar o computador enquanto assistem ao seu programa de televisão preferido. 80% dos inquiridos dizem ter televisão e computador na mesma divisão. Mais. 60% dos jovens americanos afirmam trocar mails, escrever no msn, fazer downloads, navegar em sites e ouvir música, tudo ao mesmo tempo. E ficam eles impressionados com isto? Por favor...

 

Há muito que em Portugal multitasking está instalado. Em casa, na rua mas principalmente nos empregos. Será que algum trabalhador americano consegue fazer metade do que faz um português? Será que algum americano consegue ler a Bola, tomar café, discutir os resultados dos jogos, ligar para o primo, receber mails de mulheres nuas e, inclusivamente, trabalhar ao mesmo tempo? Não me parece.

 

Dizem eles que o multimedia tasking (lá estão outra vez com a mania dos nomes pomposos) começou nos anos 30 do século passado quando os automóveis começaram a ter rádios e os condutores começaram a ter acidentes. Pois nós já éramos o número um da Europa em acidentes de charrete muito antes de haver auto-rádios, o que só prova que o multitasking chegou a Portugal primeiro do que a qualquer outro lugar. É por essas e por outras, que é difícil perceber que seja ilegal conduzir e falar ao telemóvel ao mesmo tempo. Até se compreendia que multassem um ou outro condutor que na estrada Nacional 1 fosse a escrever mails, a ver DVDs, ou a corrigir relatórios em Excel, mas agora a falar. Logo nós que somos tão bons a falar. Não se percebe.

 

E não se percebe principalmente quando somos tão exigentes com a nossa classe dirigente. São os coitados dos nossos políticos e gestores públicos que têm que acumular cargos e funções para dar o exemplo. São poucos os que não têm a capacidade do multitasking. Vereador e consultor. Advogado, vice-presidente e administrador-não-executivo. Consultor-interno, administrador-externo e presidente do conselho fiscal. E todos os cargos desempenhados com total empenho e dedicação (já para não falar dos resultados). Agora digam lá, os americanos fazem isto, fazem? Não fazem.

 

Se fossem realmente bons no multitasking tinham ido à Lua e a Marte ao mesmo tempo. Deixem-se de coisas. Podemos ser um país republicano mas somos os reis do multitasking.

 

Nuno Presa Cardoso

Director criativo da BDDO