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Expresso

Nuno Presa Cardoso

As mulheres que nós amamos

"Sim, podes comprar o plasma". É mais ou menos aqui que nós começamos aos saltos e a agradecer-lhes, beijando-as, fazendo juras de amor eterno, sugerindo até jantar em casa da mãe dela.

 

A isto chama-se WAF, que no linguajar internético significa Wife Acceptance Factor (WAF), ou numa tradução muito livre, Factor de Aprovação pela Senhora Nossa Esposa (olá querida).

 

Qual imperador romano dos tempos modernos, elas decidem, em alguns casos de polegar esticado outros com o dedo do meio, o destino não das pessoas mas das compras, numa manifestação exacerbada de poder.

 

Os fóruns da Internet são um óptimo observatório para as mudanças sociais que estão a ocorrer. Apesar de os homens ainda continuarem a ser considerados como a cabeça do casal, o WAF mostra que o poder das decisões domésticas está cada vez mais na mão das mulheres (ainda bem querida).

 

São milhares os blogues e os posts com desabafos e pedidos de ajuda por parte de homens cada vez mais desesperados pelo afastamento da cadeira do poder.

 

Apesar de em média os homens continuarem a levar mais dinheiro para casa, são elas que detêm o poder de decisão em mais de 80% das despesas domésticas. Escolhem a marca do azeite, do detergente, dos iogurtes, do sofá, do frigorífico e muitas vezes até das nossas cervejas (não é querida?).

 

Elas definem os timings das compras, as prioridades e as necessidades. E torna-se quase sempre humanamente impossível explicar-lhes porque é que temos que trocar o velho e antiquado DVD por um dos novíssimos blue-ray ou o porquê de uma playstation portátil quando já temos uma lá em casa.

 

E se enquanto publicitários e marketeers temos a obrigação de estar atentos a esta revolução, enquanto homens temos a obrigação de lutar contra ela (ainda por aí querida?).

 

As mulheres estão a começar a ter um papel de liderança em quase todos os mercados, e não apenas no ocidental. É notório também o aumento da influência em culturas tradicionalmente mais machistas. Na Índia, a indústria cinematográfica, a famosa Bollywood, começa a ser dominada por mulheres que estão à frente dos grandes estúdios e das maiores produtoras, derrubando assim cada vez mais barreiras na conservadora sociedade hindu. E isto acontece um pouco por todo o lado, da Àsia à América do Sul, onde o estereotipo da mulher latina sempre foi o de uma serena e silenciosa apoiante das decisões masculinas (isto é que era querida).

 

O que fazer? Os blogues dão-nos algumas pistas. Se a maior parte do dinheiro somos nós que o levamos por que não tomamos nós a maior parte das decisões? Parece justo. Comprem-se então plasmas em vez de frigoríficos. Troque-se de carro em vez de fazer obras em casa. A nova coluna Apple em vez de um novo tapete para a sala, vinhos em vez de chás, feijoada em vez de quiches. São pequenas atitudes que podem ajudar a inverter esta tendência tão negativa. Há já alguns sites americanos que oferecem autocolantes para que homens mais corajosos possam colar nas caixas do correio: "The Wife Acceptance Factor – Not in my house!" (Não fui eu que escrevi isto querida).

 

Nuno Presa Cardoso

Director criativo da BBDO