Siga-nos

Perfil

Expresso

Rui Ramos

Uma amizade incómoda

O embaixador de Israel em Lisboa fez há dias, na televisão, a pergunta fatal: tem o Ocidente meios para garantir que o fim do bloqueio não deixaria o Irão reforçar o Hamas? E concluiu: Israel prefere receber mensagens de protesto do que mensagens de condolências.

Rui Ramos (www.expresso.pt)

Falemos de Israel. Ao pé da porta, quase só conta inimigos. Mas também tem, ao longe, alguns amigos - e estes amigos queixam-se: Israel não lhes facilita a vida. Primeiro foi o Líbano, agora Gaza. Os amigos reconhecem a Israel o direito de "fazer alguma coisa" perante ataques e provocações. Mas Israel, excessivo e desastrado, nunca parece fazer a coisa certa. Por mais razão que tenha, fica sempre mal na fotografia. Não é uma boa vítima - fraca e paciente -, como a imprensa ocidental gosta. Sendo o único Estado de direito e democrático no Médio Oriente, dá invariavelmente aos seus inimigos a oportunidade de serem eles a invocar o direito e a comunidade internacional. Porque não troca a superioridade militar pela superioridade moral?

Sou um dos tais amigos, e desconfio de uma coisa: longe da região, no nosso conforto ético e jurídico, todos devemos parecer um bocadinho obtusos aos israelitas. Incomoda-nos a desproporção de forças, incapazes de compreender que sem essa desproporção Israel já não existiria. Preocupa-nos o 'isolamento' de Israel, esquecendo que, apesar do auxílio americano, teve de combater quase sempre sozinho nas batalhas decisivas para a sua sobrevivência, perante o embaraço e a irritação dos amigos. Em 1967, por exemplo, não esperou pela ofensiva egípcia, atacando primeiro, para agastamento dos EUA (a quem, por erro, atacou então um navio).

Israel não fica na Escandinávia, entre a Suécia e a Noruega. Sobrevive entre poderes hostis, que regularmente se fazem campeões dos árabes da Palestina, não para melhorarem a sorte destes, mas para legitimarem aspirações de hegemonia regional: ontem era o Egipto de Nasser, agora são o Irão e uma Turquia tentada pela via imperial otomana. Os placards das marchas anti-israelitas desta semana não enganam: o objectivo é a "libertação da Palestina do rio até ao mar". Recentemente, todas as concessões se voltaram contra Israel: retirou do sul do Líbano e de Gaza, apenas para ver o Irão convertê-los em bases de mísseis.

Nós, os ocidentais, somos amigos estranhos. Damos prioridade ao nosso conforto moral. Convinha-nos que Israel levantasse o bloqueio a Gaza e aceitasse passivamente os bombardeamentos do Hamas, limitando-se a filmar os mortos e a preencher o devido impresso de reclamação na ONU. Seria assim mais fácil redigir artigos pró-israelitas. Mas o embaixador de Israel em Lisboa fez há dias, na televisão, a pergunta fatal: tem o Ocidente meios para garantir que o fim do bloqueio não deixaria o Irão reforçar o Hamas? E concluiu: Israel prefere receber mensagens de protesto do que mensagens de condolências.

O Médio Oriente não é terra para ingénuos. Se, amanhã, a vantagem militar passasse para o Hamas, não haveria Israel no dia seguinte. Eis o problema: Israel é incómodo porque nos lembra que o mundo não é como gostaríamos que fosse, e que a nossa força e o nosso direito não chegam para o mudar. Também Israel - nem sempre hábil ou justo, às vezes demasiado agressivo ou azarado - não é como deveria ser? Pois não, mas nós, no seu lugar, como seríamos?

Texto publicado na edição do Expresso de 5 de Junho de 2010