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Rui Ramos

Outra Europa

A Europa deixou de ser um mito: é agora apenas uma realidade, complexa e limitada. Não esperemos demasiado. Se as instituições da integração aguentarem e contribuírem para preservar a paz, a democracia e os mercados no continente durante a agonia inevitável do actual Estado Social, já não seria nada mau. Ou antes: seria mesmo muito bom.

Rui Ramos (www.expresso.pt)

Passados 25 anos, ninguém está na mesma, a não ser os amigos mais simpáticos. Também Portugal e a Europa, um quarto de século desde a cerimónia de 12 de Junho de 1985, estão diferentes. Mas não era essa a ideia? Transformar Portugal e a então CEE? Acontece que tudo mudou, mas não como estava previsto. Somos outro Portugal, integrado noutra Europa, situada noutro mundo. E daí as inesperadas intimações de divórcio este ano.

O anúncio posto nos jornais, antes de 1985, era assim: país jovem, recentemente rural, exportador de gente e t-shirts procura pequeno clube rico de potências ocidentais para prosperar e confirmar opção democrática. Era um assunto sério. Havia mais de vinte anos que Portugal convergia economicamente com o Ocidente. O Estado Novo, embora ditatorial e tropicalista, encaixara o país nos círculos europeus de defesa e comércio, ao ponto de o PREC não ter conseguido extraí-lo de lá. Faltava a 'integração' para consumar a convergência total.

Nada, como sabemos, se passou como era esperado. O colapso do comunismo em 1989 e a chamada 'globalização' desviaram as aguardadas deslocalizações industriais para o Leste e sujeitaram a nossa China minhota à concorrência da verdadeira China. A classe política respondeu com uma fuga para a frente: mercado único, Euro, não houve nada que não subscrevesse. Tratou-se de fazer o país aprender a nadar pelo sistema de o atirar à água. Mas mais uma vez, pouco decorreu como devia ser. Entre as 'reformas estruturais' e o crédito barato do euro, os portugueses não hesitaram. Os gregos e os espanhóis também não.

É fácil ser moralista agora. Mas que governo nos poderia ter impedido de abusar da boleia dos juros alemães? Tinham-nos oferecido a Europa como a passagem instantânea para a terra da abundância. E eis a questão, depois da crise de Maio de 2010: como irá o país reagir quando descobrir que, afinal, a união europeia só se poderá manter afirmando as diferenças entre o Norte e o Sul, que era suposto abolir, e abrindo a porta ao FMI, que era suposto manter de fora?

A tentação de morder a mão europeia vai assim ser grande. A Europa já não está no centro do mundo, que se deslocou para outras paragens. Muitos dos problemas portugueses são europeus, derivados das limitações de sociedades envelhecidas e dependentes de Estados falidos. Nunca fizemos parte do posto de comando, que a presente crise, desfazendo a mitologia dos tratados, revelou existir e ser franco-alemão. Tudo isto ajudará à aragem soberanista que começa a soprar nos corredores de Lisboa. Eis que já ninguém quer a 'agenda de Bruxelas' - a única que, desde 1985, temos tido, por consenso geral. Preferem a agenda do FMI, sem diluições europeias?

A Europa deixou de ser um mito: é agora apenas uma realidade, complexa e limitada. Não esperemos demasiado. Se as instituições da integração aguentarem e contribuírem para preservar a paz, a democracia e os mercados no continente durante a agonia inevitável do actual Estado Social, já não seria nada mau. Ou antes: seria mesmo muito bom.

Texto publicado na edição do Expresso de 12 de Junho de 2010