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Rui Ramos

O Norte

O Norte é, hoje, o nosso equivalente ao Sul italiano ou ao Leste alemão. Significa 3,8 milhões de portugueses que, em média, vivem com menos rendimento, mais desemprego e pior saúde do que os outros.

Rui Ramos (www.expresso.pt)

 Teremos ouvido bem? Uma "região à beira de se revoltar"? Risco sério de "levantamento popular"? Em Portugal? E não, não eram as viúvas do PREC à frente do PCP e do BE quem falava, mas pilares dos grandes partidos, como Rui Rio ou Defensor Moura, deputado e ex-presidente da Câmara de Viana do Castelo. Como é que, enquanto estávamos a olhar para a crise ou para o futebol, a velha hidra da insurreição ergueu a norte uma das suas cabeças?

Nas últimas décadas, o país seguiu por caminhos divergentes. Em 2004, "Lisboa" (Lisboa e a Península de Setúbal) exibia um PIB per capita acima da média europeia (105,8%); o "Norte" (os distritos acima do Douro) só chegava a metade (58,8%). O Norte é, hoje, o nosso equivalente ao Sul italiano ou ao Leste alemão. Significa 3,8 milhões de portugueses que, em média, vivem com menos rendimento, mais desemprego e pior saúde do que os outros. A proposta do Governo sobre as SCUT vinha agravar a assimetria com a discriminação: iam passar a ser pagas três das que servem o Norte, deixando grátis a que corre na segunda região mais rica do continente. Daí a indignação setentrional.

A propósito, evocou-se a Maria da Fonte de 1846. Apareceu, entretanto, um Movimento Pró-Partido do Norte, animado por um ex-deputado do PS. Talvez fosse apenas uma questão de tempo para a animosidade futebolística arranjar tradução política. Já nos habituámos à Madeira. Vamos ter agora de nos habituar ao "Norte"?

Nada disto é singular na Europa. Hoje, em Itália, na Espanha, na Bélgica ou no Reino Unido, uma parte maior ou menor da vida política passa por ressentimentos ou aspirações localizadas territorialmente. As identidades de classe da antiga industrialização esbateram-se, mas não a das regiões históricas, sobretudo onde estas foram sublinhadas por desníveis de riqueza. Na Bélgica, a Valónia distingue-se da Flandres não apenas pela língua, mas por ser mais pobre (70% do PIB per capita da Flandres) e ter mais desemprego (uma taxa de 16,5% contra 7,2% na Flandres). A desigualdade territorial tem tido mais consequências políticas do que a social. Que podemos esperar? A Europa comunista acabou num estilhaçamento de Estados (Jugoslávia, Checoslováquia, URSS). Irá a Europa do "modelo social", na sua agonia, proporcionar espetáculo parecido?

A diversidade portuguesa foi classicamente descrita por Orlando Ribeiro e José Mattoso. A política democrática mostra as suas marcas. Em 1975, os partidos, com exceção do PS, eram regionais: PPD e CDS a norte, PCP e extrema-esquerda a sul. Os equilíbrios do regime nasceram do confronto, nesse ano, entre o Norte e o Sul. O que nos garante contra uma separação? Não há línguas, instituições ou identidades regionais. Portugal é um país de "terras", não de "regiões"; de individualidades, mais do que de comunidades. O "Norte" da estatística oficial é o Porto, mas também Braga e Guimarães; Rui Rio, mas também Luís Filipe Meneses. Talvez os ciúmes paroquiais funcionem contra o estabelecimento de uma Madeira no continente. Mas podem não funcionar. A história tem destas coisas: às vezes, muda.

Texto publicado na edição do Expresso de 26 de Junho de 2010