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Rui Ramos

O mundo de Sócrates

As oposições culpam Sócrates, acima de tudo, pela sua tendência para escamotear as dificuldades com "boas notícias". E se essa fosse uma das razões da sua força? Aliás, os seus rivais também não mostram mais coragem para encarar de frente a bancarrota do Estado e a estagnação da economia.

Rui Ramos (www.expresso.pt)

Nos últimos tempos, os profissionais do comentário habituaram-se a tratar Sócrates como um cadáver político, em relação ao qual haveria apenas que adivinhar a data da remoção. Ainda este ano? Para o próximo, depois das presidenciais? É verdade que, com Sócrates, já vimos tudo o que é geralmente invocado para explicar a morte dos governos: "crises", "contradições", "trapalhadas", "escândalos", etc. Até o "mundo mudou", segundo observação do próprio. Mas mudou mesmo? Algo que não parece ter-se alterado é uma opinião pública que, segundo a última sondagem do Expresso, mantém o PS à frente e faz de Sócrates o líder partidário com mais apreciação positiva. Como é possível que, neste caso, se verifiquem todas as causas, menos as consequências?

As oposições culpam Sócrates pela sua tendência para escamotear as dificuldades com "boas notícias". E se essa fosse uma das razões da sua força? Aliás, os seus rivais também não mostram mais coragem para encarar de frente a bancarrota do Estado social e os limites do endividamento. À esquerda, pede-se sempre despesa pública; à direita, só se quer cortar o "desperdício". O resto são gestos simbólicos de vingança social - à esquerda, contra os "especuladores" da bolsa; à direita, contra os "parasitas" do RSI. Sócrates continua a resumir aquela que é a aspiração geral de uma sociedade envelhecida e assustada: escapar desta crise sem ter de mudar.

Sócrates mantém ainda outra vantagem. Nos EUA, como se viu durante a recente discussão sobre o sistema de saúde, faz-se política como se houvesse alternativas ideológicas. Deste lado do Atlântico, tudo se resume ao que recomenda o bom senso e impõe a necessidade. O estatismo e o liberalismo são tomados como extremos, a partir dos quais os políticos mais sábios tentam chegar a um meio termo, evitando escolhas difíceis. Esta é, até por via dos consensos burocráticos da integração europeia, a língua da política na Europa. E, com a sua "Terceira Via", o PS de Guterres e agora de Sócrates falou-a sempre melhor do que ninguém, fazendo os demais parecer "extremistas", e portanto irrelevantes ou perigosos.

O decorrente poder eleitoral pode ser apreciado comparando os resultados do PS desde 1995 com os do PSD quando este esteve sempre no governo, entre 1980 e 1995. É verdade que o PSD teve duas maiorias absolutas sozinho, e o PS só uma. Mas no seu tempo de glória, o PSD averbou resultados eleitorais de 27,24% do total de votos (1983) e de 29,87% (1985). Pelo seu lado, o PS não desce, desde 1995, abaixo dos 36,56% (em 2009) - apesar dos últimos dez anos de fracassos e aflições.

A quem quiser despejar Sócrates, não bastará fazer contas parlamentares (sempre complicadas), apostar na eleição presidencial ou esperar por mais um "escândalo": terá de transformar os termos do debate político e as expectativas dos cidadãos. Porque este, até ver, é ainda o mundo de Sócrates: pode ter mudado, mas continuamos a vê-lo e a falar dele da mesma maneira - isto é, da maneira que convém ao actual primeiro-ministro.

Texto publicado na edição do Expresso de 29 de Maio de 2010