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Rui Ramos

A revolução de 10 de Maio

O 10 de Maio deve ser posto a par das revoluções que, em Portugal, iniciaram novos regimes a 5 de Outubro, 28 de Maio e 25 de Abril. Esta semana passámos a protectorado de Bruxelas.

Rui Ramos (www.expresso.pt)

É possível uma revolução acontecer debaixo do nosso nariz e não darmos por isso? É, desde que fechemos os olhos com muita força. Foi o que fizemos esta semana. Vai sendo tempo de os abrirmos e percebermos o que aconteceu a 10 de Maio de 2010 na Europa e em Portugal.

Comecemos pelo nosso Governo. De um dia para o outro, adiou as obras que não podiam ser adiadas e aumentou os impostos que jamais iria aumentar. E nada disto teve que ver com 'contradições', como gosta de dizer a oposição, nem com alguma 'intervenção' do presidente, como teria dado jeito a Alegre. Tratou-se de um caso de bullying internacional. Os jornais referiram-se-lhe, cheios de pudor, como 'pressão dos parceiros europeus'. Mas não foi o presidente checo nem o primeiro-ministro do Luxemburgo que assustaram Sócrates. Foi Sarkozy, e atrás dele, Merkel, e atrás dela, Obama, seguindo aquilo que os ingleses chamam "the pecking order". Foram os nossos superiores - não os nossos 'parceiros'.

Pode haver várias maneiras de o dizer, mas o facto é este: o paliativo congeminado para a crise europeia de endividamento, na madrugada de 9 para 10 de Maio, assentou na supressão da soberania orçamental dos países falidos do sul. Não havia opção: convinha salvar os 'maus alunos' do euro, mas o perigo de os deixar à solta era demasiado grande. Assistimos assim ao maior salto em frente da 'unificação' europeia desde 1957 - sem tratados, nem referendos. Tudo mudou, a começar aliás pelas regras do euro (que impediam resgates) e do BCE (que proibiam o financiamento dos Estados). E alguém, no meio da viragem, ouviu falar de parlamento europeu ou do presidente do tratado de Lisboa? As revoluções são implacáveis com as irrelevâncias.

Para o caso grego, Anne Applebaum, no "Washington Post", inventou a expressão 'eurocolonialismo'. É tarde, porém, para patriotismos do dia seguinte e eurocepticismos serôdios. Se a nossa democracia, no dia 10 de Maio, acordou transformada numa eurocracia, a culpa é nossa: quem paga, manda - e quem pode pagar, até ver, são os alemães, que têm todo o direito de se defender dos riscos que os obrigamos a correr. Deram-nos, desde os primeiros sintomas em 2001, quase dez anos para arrumar a casa. Não fomos capazes. Preferimos aproveitar a boleia do euro para viver de rendimentos dissociados do trabalho. A conta chegou. O espectáculo, entretanto, promete: a integração europeia fez-se em nome da prosperidade e da convergência; agora e não sabemos por quanto tempo, só vamos poder ficar na UE através da recessão e da divergência. Bastará dizer que a alternativa era pior?

O 10 de Maio deve ser posto a par das revoluções que, em Portugal, iniciaram novos regimes a 5 de Outubro, 28 de Maio e 25 de Abril. É verdade que a classe política permanece nos poleiros e pedestais, mas o que mais importa deixou de estar nas suas mãos. Passámos a protectorado. E perante o mau governo dos últimos 15 anos, talvez seja de dizer: ainda bem, e esperar que Merkel e Sarkozy, já agora, tenham tempo para se ocupar também da nossa justiça e da nossa educação.

Texto publicado na edição do Expresso de 15 de Maio de 2010