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Rui Ramos

A política do TGV

Há precedentes para a obstinação de Sócrates. Nos seus últimos dias também Hitler continuava a reunir com Speer para discutirem as avenidas e os monumentos da nova Berlim.

Rui Ramos (www.expresso.pt)

Porque é que Sócrates não desiste do TGV e das outras despesas a que o newspeak do regime chama "investimentos"? Os nossos credores acreditam cada vez menos na possibilidade de pagarmos o que nos emprestaram. Os gregos enterram os primeiros mortos de uma austeridade a que, segundo quase toda a gente, também não escaparemos. Nada tenho contra ficar mais perto da Marcial Pons, mas pergunto com a maioria: para onde nos levará, neste momento, a alta velocidade? Para Madrid ou para Marraquexe?

Há precedentes históricos para a obstinação de Sócrates. Nos seus últimos dias, enquanto tudo se desmoronava, também Hitler continuava a reunir-se com Albert Speer para discutirem as avenidas e os monumentos da nova Berlim. Se uma guerra perdida não fez Hitler desistir das suas arquitecturas, como haveria uma simples bancarrota de impressionar Sócrates?

Talvez por isso, a síndrome do bunker foi a explicação mais popular para o TGV. Houve também quem recordasse a maneira como o Governo, perante a crise, tem funcionado como um relógio atrasado (lembram-se do "oásis" de Outubro de 2008?). E houve ainda quem invocasse a velha superstição nacional das obras públicas, que há mais de 150 anos faz os nossos governantes acreditar que o eldorado já só está à distância de mais um comboio, e que, portanto, tal como para o Aguirre de Werner Herzog, nunca é altura de parar.

Todas estas teorias terão o seu fundamento. Mas há outra que provavelmente fará mais sentido, sabendo o que sabemos desta liderança do PS: é a explicação puramente política. Na quarta-feira da semana anterior, Sócrates apareceu ao lado de Passos Coelho. Se tivesse renunciado às suas grandes obras, arriscava-se a começar a ser tratado como um simples feitor de Passos em S. Bento. A insistência no TGV salvaguardou a iniciativa política do Governo. Mais: nos dias seguintes, começou a tornar-se uma espécie de PEC das esquerdas, à medida que o BE, o PCP e Alegre se foram atrelando à carroça das grandes obras. Eis um desenvolvimento curioso: o TGV substituiu o casamento gay como a causa ideológica que define e une as esquerdas em Portugal. Porquê?

Em 2008, muita esquerda acreditou estar a viver a vingança do Muro de Berlim. Logo nessa altura, porém, era evidente que o estouro da bolha financeira ia fazer rebentar a maior de todas as bolhas especulativas - a do Estado. Agora, em maré de cortes, a questão para as esquerdas é manter acesa, custe o que custar, a chama da despesa pública. Ninguém empresta dinheiro barato para empregar mais funcionários. Mas através das grandes empresas, em operações garantidas, talvez ainda seja possível mobilizar fundos para linhas férreas e pistas de aviação. O que importa é ressalvar o princípio do Estado expansivo, "investidor". Jorge Coelho já não é o único que trocou Marx pela Mota-Engil. A luta continua.

Perante tudo isto, é espantoso como persiste, à direita, a crença na utilidade de Sócrates para ajudar a levar a cruz ao calvário. O primeiro-ministro já demonstrou não ter vocação de cireneu. Não contem com ele para facilitar a vida a ninguém.

Texto publicado na edição do Expresso de 8 de Maio de 2010