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Rui Ramos

A derrocada

Como é que a nossa nomenclatura vai explicar a descida de divisão a uma população que habituou a "direitos" desligados de esforços e possibilidades?

Rui Ramos (www.expresso.pt)

No Outono de 1941, nos piores dias da ofensiva alemã, quando Moscovo estava já para ser evacuada, conta-se que um desorientado Estaline repetia: "demos cabo da obra de Lenine". Não sei o que Sócrates e Passos disseram um ao outro no encontro de quarta-feira, mas bem poderá ter sido qualquer coisa como "demos cabo da obra de Soares, de Sá Carneiro e de Cavaco Silva".

Ou talvez não. Porque, afinal, é só um "ataque especulativo sem fundamento"... Claro, sem fundamento - o défice não foi revisto em alta, a estagnação económica não foi confirmada, as únicas medidas do PEC aprovadas não são apenas de aumento simbólico de receitas... Não, nada disso é verdade. São os mercados, é a Alemanha, é o euro... Ou talvez tenha sido o dr. Medina Carreira.

Estaline acabou por safar-se. E talvez o FMI e os alemães, depois das eleições de 9 de Maio, nos lancem a bóia. Mas dificilmente tudo ficará na mesma. Este não é um percalço financeiro qualquer: estão em causa os fundamentos europeus e sociais do actual regime. Desde 1976, a classe dirigente prometeu-nos prestígio internacional, por contraste com o isolamento salazarista, e prosperidade de tipo europeu, em vez da austeridade do Estado Novo. O descalabro financeiro, em cima da estagnação económica, pôs tudo em causa. O regime ameaça derrocada.

Talvez nos deixem no euro. Mas o preço de eventuais ajudas há-de ser a renúncia a qualquer soberania orçamental. Acabaremos administrados de fora, como um Estado falhado. E não vale a pena explicar que ninguém levará a sério, em nenhum organismo ou reunião internacional, um país que provou não se saber governar. Teremos de engolir muitos presidentes checos.

Fiquemos ou não no euro, vamos quase de certeza assistir a uma degradação fatal do chamado Estado Social - o sistema pelo qual a classe política reduziu a maior parte da população a uma massa envelhecida de dependentes. O Estado Social começou sob o Estado Novo, como um aspecto da convergência com a Europa possibilitada pela industrialização. O que aconteceu depois é que a nova classe política democrática julgou que o Estado Social não precisava de ser possível - bastava que fosse necessário. Para reforçar essa atitude, surgiu um mito: o de que a despesa pública afinal era "investimento". Só que, ao contrário do que previa o mito, a economia parou. Um euro mal concebido teve, nesta história, o efeito contrário à disciplina que alguns bem-intencionados esperavam: o crédito barato permitiu que as ilusões durassem, convertidas em dívida pública e privada. Já não podemos viver sem ventilação financeira artificial. Daí o poder dos "especuladores" sobre nós.

Como é que a nossa nomenclatura vai explicar a descida de divisão a uma população que habituou a glórias europeias e a "direitos" desligados de esforços e possibilidades? A actual classe política construiu em Portugal uma casa de palha, que o lobo mau dos mercados acaba de soprar. Bem podem dizer como Estaline no Kremlin: "demos cabo disto". Ele usava até outra expressão, que deixo à imaginação ou investigação dos leitores.

Texto publicado na edição do Expresso de 1 de Maio de 2010